• Capitolina Revista

Walther Moreira Santos




O ÚLTIMO DIA DA SENHORA STONE



O SOM DO TRÁFEGO LÁ EMBAIXO formava uma massa compacta e solene; à menina lembrava o som do oceano, mas não era tão bonito quanto. A menina vivera seus sete anos numa vila de pescadores em uma cidadezinha no litoral do Brasil e agora estava a 6.114 km de casa, na janela de um apartamento no décimo andar de um edifício elegante na Rua 14, a oeste do Rio Hudson, em Nova Iorque. A repetição sem fim de edifícios, por si só, já seria como entrar em um universo paralelo.

A cidade de Nova Iorque era um mistério que se movia. Da região não nobre da cidade, onde as portas tinham até cinco cadeados, irrompe o som de sirenes como um lamento por sobre o asfalto lavado por um carro limpador de rua, com suas grandes cerdas.


De onde a menina vem; galos, não sirenes, inauguram o dia.

A menina fora atraída pela luz — uma luz intensa, mas estranhamente fria. Ela não podia compreender como era possível o concreto do parapeito estar frio como picolé e ao mesmo tempo banhado por aquela luz. Lá fora fazia 15 graus Celsius e, para quem vivera toda a vida sob altas temperaturas, tudo aquilo era muito estranho.

— It´s dangerous — diz a Sra. Stone, fechando a janela.

A menina era uma mistura de confusão, por conta da mudança do fuso horário, do uso de Rohypnol, e, sobretudo, da imersão naquela cidade. Por tudo isso, não ouviu a voz da Sra. Stone, apenas virou o rosto com o susto provocado pela mão em seu ombro. A pele da menina, que tinha a transparência de um tecido excessivamente posto ao sol para secar, sentiu a mão da Sra. Stone — estranhamente ainda mais fria que o concreto.

Apesar da pouca idade, a menina já conhecia o imenso e sinuoso

castelo do temor e todos os dias passava longas horas nele, por isso se encolheu sob aquele toque gelado.

Foi quando a Sra. Stone se deu conta. Ao virar o rosto e arregalar os olhos, a menina mostrara a Sra. Stone o par de olhos mais singulares que ela já vira em seus 53 anos de vida — uma mistura de castanho, verde, azul e dourado tão impossível que fez a Sra. Stone estacar, e foi como quem sente a areia fugir dos pés quando a onda lambe a praia.

Aqueles olhos eram um milagre. Mas os milagres — também as maiores atrocidades — não são nada se acontecem quando ninguém está olhando. E quem ali naquele prédio de um apartamento por andar, escolhido a dedo pela firma, poderia testemunhar qualquer coisa? A Sra. Stone nunca antes em sua vida havia visto nada assim tão real e tão vívido. Era como se aqueles olhos conseguissem agarrar a própria luz e transmutá-la. Como se morassem naqueles olhos a luz de que são feitas todas as coisas.

Muito magra, muito seca, alta e enrijecida como uma coluna de mármore, não se podia dizer que a Sra. Stone fosse uma mulher bonita. Nem mesmo uma mulher moderadamente bonita. Mas nesse momento ela pareceu especialmente feia, o rosto petrificado e exangue, como se a beleza nos olhos da menina fosse seu contraponto. Ela se deu conta de que aquele par de olhos tão singulares se perderia para sempre.


As córneas daqueles olhos seriam retiradas e poderiam permanecer fora do corpo por até sete dias; a pele da menina seria totalmente aproveitada e estaria em ótimo estado por pelo menos seis horas após a retirada; sua medula óssea também ajudaria a salvar uma vida, assim como suas cartilagens, seus pequenos ossos seriam retirados, assim como todo o seu maravilhoso sangue O-, seus dois rins, fígado e pâncreas, as três válvulas cardíacas, os ossos do ouvido interno, cartilagem costal, crista ilíaca, cabeça do fêmur, tendão de patela, ossos longos, fáscia lata, veia safena; até mesmo o transplante de uma mão completa já era possível. Quem poderia adivinhar a cifra que alcançaria, no secreto leilão

virtual da firma, aquele pequeno coração? Pelo menos 26 vidas poderiam ser agraciadas com o sacrifício daquela menina, e desse modo a firma faria com que ela fosse honrada.

Mas a beleza e singularidade daqueles olhos se perderiam para sempre. E ninguém no mundo inteiro contaria a história deles.

A Sra. Stone não acreditava em vida após a morte; achava que não passava de uma tola vaidade humana. Um cão aceita que a morte venha, um pássaro, uma serpente; mas nós, em nossa imensa vaidade,não tínhamos a honradez ou coragem deles, daí inventávamos céus e anjos, júbilo e reconciliação, tudo ante a vaidade de não aceitar desaparecer para sempre. Por essa razão, aqueles olhos não subsistiriam, nem mesmo em uma forma astral numa outra vida, em outro plano. A menina não viveria para sempre como na famosa imagem da garota afegã estampada na capa da revista National Geographic, nos anos 1980. Sua história nunca seria contada. Por uma fração de segundo a Sra. Stone se viu tentada a fotografar aqueles olhos — violando um dos mais sagrados mandamentos da firma para a qual trabalhava: nada de fotos. A Sra. Stone tinha consciência da existência de empresas que sequestravam crianças para uso na bilionária indústria da pornografia infantil, que bom que não era este o caso! Porque aqueles olhos jamais poderiam ser maculados com as terrí- veis imagens produzidas por pervertidos. Mas nem isso trouxe alívio para o que estava sentindo; então, antes que cedesse àquela loucura de fotografar a menina, ela gritou.


— John! — e seu grito áspero reverberou nos 1.200 metros quadrados do apartamento luxuosamente decorado com piso de taco brilhante, mármores e veludos.

O Sr. Stone era aquele tipo de pessoa cuja presença deixava qualquer sala ainda mais vazia. Apareceu vestindo apenas uma cueca e segurando um copo de uísque. Era tão magro e branco quanto a senhora Stone, embora não tão alto, já calvo e com uma barriga dilatada de velho e uma expressão tola no rosto flácido. Atravessou

o hall e se deixou cair numa poltrona, com um ar de enfado. O Sr. Stone não viu a postura sempre ereta e o comedimento no gestual da Sra. Stone, além do sorriso neutro e profissional, treinando por longos anos de quando fora enfermeira no Boston Medical Center. O que ele viu foi uma mulher pálida, com um ar cansado. Como se a cada segundo a luz refletida nos olhos da menina fizesse a Sra. Stone perder algo de valor, como uma das mãos ou até mesmo um pedaço da própria alma que ela acreditava não existir.

Em outra ocasião provavelmente a Sra. Stone o repreendesse por estar se afogando no uísque ainda tão cedo; mas ela seguiu reta para o lavabo e também isso acendeu uma espécie de pisca-alerta na mente do Sr. Stone.

Como um raio de luz que entra na sala por uma fresta na janela, a menina havia caminhado na ponta dos pés, e com passos miúdos foi até o grande sofá forrado com veludo azul-marinho e sentou-se na ponta, como se fosse uma existência que subsistia num nível muito abaixo do real.

Seus pequenos ossos fizeram o Sr. Stone pensar em um pássaro.

Diante de seu rosto comum ao espelho do lavabo, a Sra. Stone se sentiu sozinha. Em conflito com seu rosto de aparência tola, sua pele cada vez mais folgada sobre o rosto comprido e ossudo como um rosto de lobo. A imagem de sua mãe ao espelho. É essa a imagem que ela vê. Porque somos nós mesmos até os 50 anos — depois disso somos cada vez mais uma versão dos nossos pais. Versões defeituosas, às vezes. É como se seu rosto estivesse adquirindo as feições do alfaquim empalhado que sua mãe mantinha na parede acima da lareira: sua pele lhe pareceu ter o mesmo tom acinzentado da pele do peixe, nos seus olhos agora o mesmo vazio da morte. A

constatação de uma coisa tão antiga e tão hedionda quanto a maldade. A Sra. Stone nunca sentiu tanto horror em toda a vida.

Então ela suspende as maçãs do rosto e pensa se não será necessário um novo lifting antes do próximo trabalho; que Deus a ajudasse, porque seria mandada para outro fim de mundo, provavelmente algum buraco na África. Sempre o calor e o suor pegajoso do Terceiro Mundo. Cada um tem seu próprio deserto a atravessar antes de chegar à Terra Prometida. Mais uma entrega como aquela e ela poderia se mudar para a Califórnia, onde ficaria esticada sobre uma espreguiçadeira e tomaria sol como um imenso lagarto branco, até morrer de descanso e de insolação. E depois? Ela não sabia.

A Sra. Stone se sentiu esvaziada pela constatação. E sentiu também o pressentimento de que algo terrível estava na iminência de acontecer.

Diante do espelho no lavabo, a Sra. Stone viu o cinza chumbo dos próprios olhos cada vez menos brilhante. Sentiu uma umidade pegajosa em torno do pescoço, muito embora não estivesse quente no apartamento. Então curvou-se e enfiou o rosto na água borbulhante na conchas das mãos sob a torneira aberta ao máximo, como um modo de encontrar alívio — sua enxaqueca de estimação estava de volta. Se pelo menos ela fosse dessas mulheres que afogam qualquer contrariedade da vida numa ida às compras! Mas lá estava ela com um nó no estômago, a cabeça latejando e um gosto de metal no céu da boca.

Aquele era apenas um momento de descontentamento passageiro; era uma espécie de agonia; como se fosse possível, por uma fração de segundo, o lobo sentir remorso antes de afundar as presas no pescoço da vítima e se ver saciado.

Pare de me envergonhar — ela pensou; aquela frase que resumia

toda a sua infância enfiada no quarto mais longínquo da mansão na pequena Belleville, em Illinois, onde sua mãe a colocava para que não a ouvisse chorar e pudesse fumar em paz seus 600 cigarros. Pare de me envergonhar era a frase predileta de sua mãe.

A urgência de se livrar daquela menina irrompe na pele da Sra. Stone como uma dermatite. Uma intensa raiva oculta crescia dentro dela. Era como se estivesse se afogando. Foi quando a campainha tocou.

Com passos firmes e duros a Sra. Stone atravessa o hall apressada, ansiosa pelo serviço de entrega. Lá estava a caixa da floricultura,,como sempre, dessa vez com 11 rosas vermelhas, simbolizando que aquela seria sua décima primeira entrega para a firma. Sob o fundo falso da caixa estavam os pacotes com os dólares, passaportes com novas identidades, passagens e reservas em um hotel em um país no norte da África. Segundo as estatísticas da firma, 12 missões era o número máximo que um casal poderia cumprir antes de ser pego pela Interpol, de modo que os riscos da última missão seriam altos, passando dos 70%.

A partir de agora ela deixaria de ser a Sra. Stone e passaria a se chamar Sra. Murphy. Então Meredith Lovell (esse era seu nome de batismo) não deixou de achar irônico se chamar Murphy justamente quando executaria sua missão mais arriscada, e como a Lei de Murphy poderia atuar naquela ocasião, fazendo com que ela fosse presa por tráfico de crianças.

Depois de pegar na cozinha uma maçã imensa e colocar nas mãos da menina — Good girl! — a Sra. Murphy segue para o quarto, para o ritual de juntar toda a documentação antiga, sua e do marido, e pôr tudo para queimar na lareira.

Com a chegada das flores, do dinheiro e do bom caminhar das

engrenagens da firma, seu humor voltara.

Ela está no quarto, fazendo as malas para a nova viagem e pensando que terá de comprar sapatos mais confortáveis, porque, se você for ao Terceiro Tundo, vá com sapatos confortáveis, há muito ela aprendera essa lição; quando a campainha volta a tocar. O som de descarga numa privada a alerta para o fato de a menina estar sozinha e dessa vez ela não se esquece de praguejar com o marido, o filho da puta está cada vez mais irresponsável.

Uma mulher jovem e negra, de pequena estatura e muito sorridente, aparece; ao lado dessa mulher está uma criança, igualmente negra, segurando uma boneca. Psicólogos da firma descobriram que a presença de outra criança, na hora da entrega, tornava a experiência mais fácil e menos suspeita.

— Good morning — sorri a mulher negra. — Good morning — diz a Sra. Murphy, sem conseguir disfarçar o alívio ao ver que se livraria da menina. Algo que nunca irá acontecer. Porque a Sra. Murphy estaca no meio da sala, a poucos metros da menina educadamente sentada na ponta do sofá azul. A sombra do primeiro avião que viria a atingir uma das torres do World Trade Center a deixa paralisada de terror. O barulho das turbinas a cobre como uma onda e é tão denso quanto o aço.

Era o dia 11 de setembro, 8h46, e naquela manhã o céu estava excepcionalmente limpo e bonito.



O AUTOR

Walther Moreira Santos é escritor, ilustrador e artista plástico. É autor dos romances O Ciclista (Prêmio José Mindlin de Literatura, Prêmio Cidade de Curitiba e finalista do Prêmio São Paulo); Um Certo Rumor de Asas (Prêmio Casa de Cultura Mário Quintana e Fundação cultural da Bahia); dos livros de contos O Metal de Que Somos Feitos (Prêmio Pernambuco de Literatura 2013); e Todas as Coisas Sem Nome, Prêmio Pernambuco de

Literatura 2016), da antologia de poemas Arquiteturas de Vento Frio (Prêmio Nacional Cepe de Literatura 2016). Em 2020 foi lançada a obra O Último dia da Senhora Stone, contos (Prêmio Hermilo Borba Filho de Literatura).

144 views0 comments

Recent Posts

See All