• Capitolina Revista

Veronica Stigger




VOCÊ

Era de tarde e eu pegava elevador com um povo para ver uma conferência sua. O elevador andava para os lados, balançando às vezes, como se tivesse vontade própria. Dava medo. Mas estávamos indo ver você.

Estávamos eu, você, a Ilana, a Diana, a Paloma, o Edu, o Jens e o Leo num rancho que era seu, comendo um maravilhoso churrasco gaúcho. Pena que não houve registro fotográfico.

Eu fatiava um bolo e guardava cada pedaço em caixinhas de lembrança, e você ajudava desastradamente o João a embrulhar um presente. Enquanto nos ocupávamos com essas tarefas, você me contava que o José Márcio havia ganho na loteria e ia correr o mundo. Era uma excelente notícia e a gente ficava muito alegre com ela.

Você lançava um CD de pagode com uma capa que era rememoração das manifestações de junho de 2013. Eu convidava o Guto para ir ao show do Chico Buarque comigo e ele não queria ir por nada desse mundo.

Estávamos em sua casa. Havia uma biblioteca enorme e um bunker que só podia ser acessado quando uma das estantes era removida, como no antigo Zorro, com botãozinho e tudo. Você se divertia por horas abrindo e fechando a passagem, sem passar por ela.

Naquele dia, nos encontrávamos num supermercado, o mesmo que eu frequentava em Nova York nos primeiros meses deste ano fatídico. Andávamos entre aqueles produtos todos e parávamos diante de um pacote de panquecas francesas. Muitas vezes, parei diante desse pacote que existe ou existia naquele supermercado. Nunca comprei por puro preconceito: “Como assim empacotar crepes? Ah, isso não pode prestar”. Mas você defendia o produto. Dizia: “São maravilhosas essas panquecas! Você ainda não as experimentou?”.

Você ganhava direito de resposta no Jornal Nacional e ia na bancada e falava sem parar por cinco minutos, deixando todo mundo lá sem reação.

Você não era você, mas um fantasma. Morava há muitos anos numa casa abandonada em Jacarta, no bairro rico da cidade. Essa casa seria demolida dali a algumas semanas e você não tinha ideia de para onde iria se mudar.



A AUTORA

Veronica Stigger nasceu em 1973, em Porto Alegre. É escritora, crítica de arte e professora universitária. Possui doutorado em Teoria e Crítica de Arte pela Universidade de São Paulo e realizou pesquisas de pós-doutorado na Università degli Studi di Roma "La Sapienza", no Museu de Arte Contemporânea da USP e no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. É coordenadora do curso de Criação Literária da Academia Internacional de Cinema e professora dos cursos de pós-graduação em História da Arte e Fotografia da FAAP, em São Paulo. É autora de vários livros de ficção, entre eles Os anões (Cosac Naify, 2010), Delírio de Damasco (Cultura e Barbárie, 2012), Opisanie świata (Cosac Naify, 2013, Prêmios Machado de Assis, São Paulo e Açorianos), Sul (editora 34, 2016, Prêmio Jabutui) e os infantis Dora e o sol (Editora 34, 2010) e Onde a onça bebe água (Cosac Naify, 2015, em coautoria com Eduardo Viveiros de Castro). Seu livro mais recente Sombrio Ermo Turvo (Editora Tovadia) foi finalista do Prêmio Jabuti e é finalista do Prêmio Oceanos 2020.

277 views0 comments

STAY CONNECTED

  • Facebook Clean