• Capitolina Revista

Tiago Salazar




O amor I

A grandeza do indivíduo onde está? Os grandes, os eleitos (chamemos-lhes divinos), os escolhidos, os iniciados, os Cristos, os Budas, não se auto elegem, auto promovem, auto brindam e auto galvanizam, como pode ser a escrita ou qualquer arte vendida e mostrada. Ao virmos aqui ou acolá perorar sobre o tema A a Z, ao validarmos com a expectativa da aprovação (sempre hiper-sensíveis ao apodo ou ao apito) podemos não estar a passar mais do que uma ideia narcísica. Acredito na escrita automática tanto quanto ela me dá de instintiva, mas a escrita é sempre emenda e revisão, tal como o amor é sempre tentativa e erro. Ao mesmo tempo, se toda a criação fosse apenas resultado de impulsos estaríamos mais depressa em construção ou destruição? Ainda que o amor não acabe, ainda que doído pela gravidade da confiança sofrida, nunca nada será como antes, como no tempo de todas as coisas possíveis, podendo no entanto e por paradoxo ser muito mais Amor, muito mais próximo do Divino, onde cabe apenas a compaixão.

O amor II

Pode salvar-se um amor ferido, uma amizade combalida? Pode salvar-se como se salva um moribundo, cauterizando-lhe as feridas, dando-lhe o antídoto certo? Há que ir às razões mais fundas dos ferimentos e, seres do ego, todos somos cheios de razões superficiais, como a desculpa da dor pode ser um imenso laboratório para o mal.

Na nossa imensidão corriqueira todos queremos dizer alto-e-bom-som que nisto do amor, ao menos nisto, somos craques, imaculados, inatacáveis. Diante da legião que nos ampara queremos ser louvados por termos a folha de serviços impecável. Entre tentar a proeza do amor sério e duradouro e ceder às tentações de amores de passagem há um fosso de equilibrista. Pode viver-se uma vida em queda livre, aos loopings e cambalhotas e só se saber do embate no dia do dobre de finados. Há os capazes de viver sem sair da rotunda, rodopiando, girando, no equívoco mais belo da Criação, o da ascese pela espiral.

Na eterna busca do soneto do amor perfeito, juntam-se a fundura maternal de beltrana com a tesão fogosa de sicrana e emparelham-se os corpos em duetos, sonatas, allegros vivaces… como quem compõe estrofes, sabendo de antemão que um dia chegará a hora dos adágios e de ser tocada a pauta de Mendelson.

As mulheres que dizem precisar de homens para a sua própria compreensão e entendimento do dom do altruísmo, não são as que mais amam e chegam a amar de mais, mas talvez sejam as mais dotadas para saber amar. Aos homens, entre homens, o em qualquer combinação, aplica-se o mesmo princípio, sem nenhum fim de final feliz à vista.

O lugar comum do amor de pacotilha é ditar a ruína de todo o grande amor por conta dos eclipses da tesão madura, onde todas as coisas são possíveis. Saber onde está a dose certa e quem é para nós, é resultado de uma observação paciente e de uma aceitação, mas o fenómeno da paixão só acontece nos intervalos da irracionalidade pura e o final que nunca é feliz, é também sempre acolhido por enigma.

O amor III

A vida, as pessoas, tudo muda. Tudo se extingue, em última instância. Pouco ou nada sabemos que quer que seja, e escrever, por exemplo, pode ser apenas uma forma mais ou menos tosca de dar corpo ao pensamento-sentimento. Sinto que as tuas fé e esperança tremeluzem. Sinto-te triste, desiludida. Cantar e saíres pelo mundo devem ser das poucas coisas onde ainda que mascarada deverás cessar os pensamentos da embrulhada onde estás metida. É como eu com a rua, o trabalho, uma vulgar caminhada. O segredo sem enigma é que estes ínfimos escapes, um passeio, ver o mar, a gratidão de se viver num lugar como Lisboa, rente ao Tejo, os filhos saudáveis, podem valer tudo, quando nesse tudo já tantas vezes se sente terem sido gastas todas as palavras. Penso em soluções que me escapam. Somos diferentes, mas na essência somos apenas dois seres humanos magoados, sofridos, medrosos do desconhecido, do porvir. Para mim o caminho é este: vender tudo o que está em Almeirim, reconstituir a história que levou a esta dureza, dar caça ao Melo e Cª, entregando a Defesa a quem sabe, e viver com um plano - e ciente dos limites.

No fundo, é de um problema de confiança que falamos, e não a havendo plena, não pode haver entrega afim. Vale para os dois. Zangados, magoados, traídos, são sentimentos que decerto experimentámos e experimentamos. E nessas alturas, o mais certo é pormos tudo em causa. Queres verdadeiramente que eu saia da tua vida? Não creio. Queres paz. Queres estar bem. Queres alegria. Queres sair da melancolia que corrói. Isso pode fazer-se em conjunto no lugar de cada um procurar a sua solução (fuga?). Não sou terapeuta de almas, não sou pregador impoluto e não tenho a varinha mágica, mas já vivi o suficiente para estar certo de que Amar, amar bem, amar bonito, amar maduro, é aceitar o outro, ainda que nesse outro habitem os paradoxos, os obscuros e a incerteza, próprios da falibilidade, da fragilidade e da fraqueza a que todos, sem excepção, estamos sujeitos.

O amor IV

Já sabemos que não é fácil, que nunca foi fácil e que nunca será fácil. Já sabemos que apesar do amor, apesar da família, apesar da instituição, sempre se pondera se não haverá melhor sorte. A dias de uma nova mudança de casa, com as costas arqueadas de dívidas, e sem possibilidade de as resolver no imediato, penso que só mesmo um grande amor pode resistir a tanta provação. Estás aqui porque sim? Estás aqui porque precisas? Estás e não estás, porque há muito em causa e é sempre melhor resistir? Estás porque é melhor estar do que partir? Estás porque no fundo há uma vontade superior a estar do que a partir? Estás porque admiras, respeitas, confias? Estás e não estás? Estou e não estou. Estás em fuga contínua e negação? Estás na esperança do eterno carinho? Estás na impossibilidade de atingir algo maior?

Há dias falei com um psicólogo do amor, da crise no amor, e ele perguntou-me apenas isto: ainda há possibilidades de se reinventarem? Disse-lhe logo que sim, sem hesitar. Falei por mim, claro. Não sei o que pensas ou sentes, a não ser que dizes sempre que estás como sempre estiveste, numa espécie de pacto de alma, de tem que ser, de sempre te amei e amarei, porém, de olhos tristes e condoída. Toda a alegria e todo o grande amor vive e renasce, e talvez nunca morra alimentado pelo amor-próprio. Todo o grande amor é um acto de paciência, humildade, aceitação, e lá estão as acendalhas do erotismo e da paixão, a par e passo do companheirismo. Há filhos, há uma vida própria, mas todo o grande amor é primevo, é primeiro de tudo, porque senão é apenas um projecto de vida, uma empresa, uma instituição. És uma bela mulher em fuga de ti. Tens o canto que é o teu céu e chão, tens os filhos que te amparam as quedas, tens-me a mim como qualquer coisa amargurada. Hoje o que somos? Um casal dominado pelas angústias: das dívidas, das dúvidas, do que se pode ainda fazer com tanto sofrimento acumulado, além de resistir.

O amor V

Um psi(quiatra) a quem recorri em tempos de moleirinha frita disse-me com dupla propriedade - de canalizador de neurónios e avançado na idade - ser o amor, sobretudo o casamenteiro, baseado em dois motes: a luta e o negócio. Na luta pressupunha o pendor atacante do ego de cada parte envolvida se achar mais impoluto, e a partir dessa ditadura de mérito desferir os seus ataques (com azedume, censura, sarcasmo, ironia, consoante a hora e o dia). No negócio levava a pensar na ideia de contrato social além dos juramentos de lealdade e devoção vitalícias, quando uma ou ambas as partes se sentem abusadas e espezinhadas no seu contributo. O princípio mais válido seria o da justa paridade, dizia, não se podendo avaliar e pesar com rigor das benfeitorias e malfeitorias de cada parte, mas podendo cada um saber até que ponto se pode e deve entregar à causa do amor. A justa paridade não passaria de cada um dar o que tem e pode e a mais não ser obrigado. Daqui se chegaria ao muito avisado princípio de aceitar o outro (a qualidade e defeito do outro) e recapitular a cada momento como se chegou a ele. Logo nos instantes iniciais se percebem as características marcantes de cada um. Se o compramos caro, também o podemos alienar por tuta e meia, é facto, até doar e empandeirar. Podemos dizer que nos enganámos com a cegueira do primeiro impacto ou recorrer à arma do karma dizendo que se esbarrámos com o(a) imbecil foi para aprendermos qualquer coisinha para a vida seguinte. Talvez só saibamos se é Amor se a cada momento mais duro, mais penoso, o outro se vira para nós e nos ajuda, entende a nossa dor. Nos verdes dias de celebração tudo é amor, mascarado pelos hip hip hurras. Nos amargos dias da realidade quotidiana o mais dúctil dos seres pode cristalizar-se diante do pressuposto da sua razão inabalável. Um Amor só perdura na humildade recíproca, na leveza do tacto e do humor, no reconhecimento certeiro do que se é e de como se vê o outro a quem um dia se disse amar com todas as letras. Se se teima em ver no outro o diabo de mascarilha o mais certo é um dia debaixo da capa sair um punhal. Por vezes um harakiri.

O amor VI

A conjugação do pretérito perfeito com o futuro do condicional abunda entre casais de longa data (ou da velha guarda). No princípio, após o coup de foudre ou o encontro inaudito mútuo (raro) em que ambas as partes se acham complementares, todas as horas, de todos os dias, em todos os lugares, e a rodos, são boas para despir a roupa e entregar a alma ao voo das emoções primárias. Os primeiros tempos são como os bichos: há-que acasalar e depois de acasalar, acasalar mais e mais. O ritmo é como a pauta, tem tanto de alegro vivace como de adágio, sem nunca chegar ao alegro ma non tropo sem passar pelo piano e o dolce fare ciente de que um dia chegará a monotonia e até a música mais bela cansa os ouvidos. O ritual pede apenas o invento, o engenho e a arte para não afadigar mais do que os corpos cansados. Depois, já de corpos casados, já de filhos nados, instala-se o desafio do alto-mar. Creio bem ser a sabedoria e a boa comunicação a única forma de superar o tempo e reencontrar o passo quando tudo parece longe e perdido. A decisão de ficar ou partir, de procurar de novo ou deixar-se ser achado (ou vítima de achamento se estivéramos no Brasil) é um precipício onde há ramos para amortizar a queda e por debaixo um abismo. O maior amor é o amor que acena, aceita sem acatar ou atirar. As palavras, com tanto de ternas e sangrentas, podem dizer por ou nada se o outro nos acha demagogos, fala-baratos, ilusionistas do paleio ou vendedores de Bíblias. Porém, foi através da palavra que nos reunimos, foi na palavra que nos celebrámos e ser de palavras é também ser de palavra e nunca abandonar, rejeitar ou ferir só porque um dia o caminho se bifurcou. Na ponta oposta da forquilha está um só tronco. No rasto da mesma forquilha está o ouro escondido.

O amor VII

De que falamos quando falamos de amor? perguntou em título o escritor (do amor e desamor) Raymond Carver. Falamos em primeiro lugar do amor conhecido, de mãe, pai, aos filhos, e dos amores da vida. Talvez um amor supere os outros, o amor ao Criador, em havendo crença e seja esse o maior dos amores por do outro lado não haver a hipótese truncada do amor que traz a censura, o despique, a quezília. O amor pode ser tão grande que dá lugar ao desamor. Mas se já se chegou ao desamor uma e outra vez, por ignorância, orgulho e incultura, o mais certo é não se ter a grandeza de voltar ao amor e desatar o conflito. Os maiores conflitos do amor nascem de duas energias afins: o dinheiro e o sexo. Se ambas abundam o “amor” titila. Se o dinheiro se esfuma em contas, fracassos de gestão, excessos e avarias, então o sexo atrofia ou passa a ocupar o lugar de um paliativo. Ralhar sem razão e embirrar sem motivo são sinais (indicadores, de dedo apontado) de um orçamento minguado. Tal como dificilmente se endireita o que nasceu torto, e por nascer torto falamos de confundir amor com paixão ou simbiose ilusionista. Há, contudo, milagres de pães e de renascidos. O mais elevado dos amores é o que reconhece a liberdade do outro (até de partir) antes de protestar. Nesse caso pode dar-se a hipótese do grande amor. O amor livre de partir e ficar.

O amor VIII

Vamos seguir este raciocínio, se me permitirem: nisto do amor conjugal, vai sendo uma raridade achar amores de boa cepa, daqueles a quem já disse do encontro mútuo e do respeito muito. Quando se dá o clique em simultâneo já estamos no domínio do encontro e do achamento (para lá da conquista), ainda que nunca se vá saber se a voltagem foi mais de um ou de outro. Porventura, esbarramos num certo tipo de pessoa não por obra e graça do espírito santo, mas por desígnios sondáveis da psicologia. Isto é, atraímos padrões, o do pai e o da mãe, repetindo nós mesmos os padrões recebidos. Se é dos genes, do karma ou do mero entalhe, o facto é andarmos nisto vidas inteiras, por vezes hipotecando as possibilidades de uma felicidade mais completa, digamos assim. Quando o amor é maiúsculo começa por aceitar o outro, tenha ele a forma e o feitio que tiver. O corpo mais perfeito é o da pessoa amada. O ser mais perfeito é aquele e nada mais. Diante da adversidade que sempre vem, virá a pergunta de parte a parte: porque havia de embicar para aqui com tanto ser mais dotado neste mundo? Talvez a partida ou o desejo de partida para outro lugar (mesmo solitário), no lugar da humildade do reencontro não traga mais do que um novo espelho partido, um novo ciclo de repetição de erros, como o escultor que tira a rugosidade na demanda do macio, se é o macio que persegue, e dá por si a aspirar ao imperfeito como a mais bela das possibilidades. Creio bem haver em todos os lados deste mundo um denominador comum a todos os binómios do amor: o respeito. O respeito pelo que é o outro, que mais depressa, ou mais lentamente, se aperfeiçoa, porque o maior calhau também é sujeito a cambiantes, como também envelhece, adoece e perde as faculdades, e um dia morre. Um grande amor nunca morre. Pode esgotar-se. Pode arrastar-se combalido por provações, orgulhos e feridas por suturar. Podemos dizer, após a desilusão, nunca o conheci. Como mudou tanto! Enganou-me. Traiu-me. Todas estas observações não passam de consequências dos primeiros olhares embaciados, quando ainda dominava o manto diáfano da paixão. O grande amor nunca nasce espontâneo. É uma construção infinita. É um trabalho diário ínfimo porém desmedido. É uma ocupação como uma arte qualquer, sujeita a avanços e recuos, mas onde deve apenas imperar a verdade.

O amor IX

Na luta de classes do matrimónio com ou sem papel assinado, a façanha mais comum é a do primado do ego: eu sou melhor pessoa do que tu, diz um em alta voz e pensa o outro, quando lhe é comunicada a presunção. Estar nesta fase de cotovelada é estar já numa fase adiantada de encarquilhamento espiritual, quando os corpos no lugar de se aconchegarem em abraços (não apenas genitais) se chocam e repelem como bolhas de bilhar. A virtude seria não nos colocarmos a nós mesmos em primeiro lugar, mas estarmos o mais possível atentos à necessidade do outro. Se formos pela via da ciência diremos que o gene egoísta quer protagonismo, quer ser o primeiro, quer estar à frente, quer dominar, possuir, escravizar e chacinar. Se optarmos pela religião, e sendo esta parte do mundo de matriz cristã, o que Jesus veio fazer foi trocar as voltas ao ego, manietando-o através do amor. Se esta parte final for comunicada ao outro (pela voz do Outro) e sem ponta de orgulho e vaidade e ignorância, o outro dirá “lá está o vendedor de Bíblias”. O cerne é que nenhum amor é Amor quando o dedo se espeta inflamado com a voz da razão.

O amor X

Tenho quilómetros nas pernas, idade meio avançada, mas do amor pouco ou nada sei. Sei de sentir apenas o seguinte, e também cabe na amizade: o amor não se ufana nem ensoberbece… lido na Bíblia, legível e sentido. Neste sentido cabem os pedidos de desculpas, vitais à boa saúde dos laços. Se magoamos, e podemos magoar com palavras, actos e omissões (como diz a Bíblia), o caminho inverso é reparar o dano, nem que seja pedindo desculpa. Reiterar na luta é como querer provar da superioridade moral, como no ringue se afirma a força física. Mesmo no ringue, porém, há regras ou se atira a toalha ao tapete se esgotamos as forças. Neste caso do amor, o autor do K.O. nunca será o vencedor, ok. Isto porque o amor não mede forças. O amor une e alia para enfrentar todas as vicissitudes. Um dia, acontece a falha. Uma palavra azeda. Uma provocação boçal. Uma bestialidade oriunda das cavernas. Um acto de vingança ou de ajuste de contas, por conta das contas mal feitas. Nesse dia, como no que nascido torto, tarde ou nunca se endireita, o caldo entorna e se está a ferver queima, ou se está frio, derrama-se. Começa a guerra e a sucessão de batalhas até ao dia do armistício (divórcio). Na melhor das hipóteses, baixam-se as guardas, embainham-se as espadas, selam-se pactos e a vida continua, numa paz podre ou num caso remoto, iluminada pela luz mansa da compaixão.



O AUTOR


Tiago Salazar nasceu em Lisboa, em 1972. Formou-se em Relações Internacionais e estudou Guionismo e Dramaturgia em Londres. É doutorando no Instituto de Geografia onde prepara uma tese sobre A Volta ao Mundo de Ferreira de Castro. Trabalha como jornalista desde 1991, atualmente como freelancer. Venceu o prémio Jovem Repórter do Centro Nacional de Cultura, em 1995. É formador de Escrita e Literatura de Viagens. Idealizou, escreveu e apresentou o programa Endereço Desconhecido, da RTP2

Foi Bolsista da Fundação Luso Americana em Washington, em 2010. Foi vencedor do prêmio Literatura na XVII Gala dos prêmios da revista Mais Alentejo, em 2018. Tem mais de dez títulos publicados.

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