• Capitolina Revista

Thais Lancman

Updated: Aug 30




Então despes a luva para eu ler-te a mão (E não tem linhas tua palma)



FORMULÁRIO DE INCLUSÃO DE ARTE DIVINATÓRIA

Nome do(a) solicitante: Selma Regina Felício

Profissão: manicure

Resumo dos procedimentos: Previsão do futuro a partir da cor de esmalte.

Materiais utilizados (lista completa): Esmalte, algodão, palito, amolecedor de cutícula, alicate, base, extra brilho, acetona, spray secante.

Estudos de caso:

A cliente pediu esmalte vermelho, era uma menina novinha e bonitinha. não sabia se passava Suspiro, 40 graus, e Atrevida. Era um dia frio, e assim que eu passei o 40 graus nela, o dia abriu. Ela disse que ia passar o fim de semana na praia. Fazia mais de trinta anos que a cidade não ficava tão quente.

Outra não sabia que cor passar, pediu um escuro. Mostrei o ônix, um preto bem preto. ela não gostou e pediu outro. Café. Eu disse que não gostava muito daquela cor mas ela cismou. Fiquei sabendo que virou uma chaleira de água fervendo quando foi passar um café em casa e queimou as duas mãos. Ficou em carne viva. Era a formatura dela e ela estava toda enfaixada.

Teve a cliente que queria um clarinho, ofereci o Chic Pele. Antes de passar, falei que estava desconfiada que os esmaltes previam o futuro. Ela riu, aí passei o Chic Pele, ela não gostou e pediu para trocar. Já sabia que não era bom trocar depois de começado, mas ela quis trocar pelo Nude. Passei o Nude nela e ela foi embora, mas falei que queria seguir ela no Instagram e fiz isso para ver o que ia acontecer com ela.

A vida dela era bem normal, fiquei acompanhando e tentando adivinhar o que ia acontecer com base no nome do esmalte. Uns dias depois de ela ter ido no salão não tinha acontecido nada, e aí pensei que o esmalte já estava para começar a descascar então tudo bem. E ela nunca mais postou mais nada. Fiquei preocupada, peguei o telefone dela com a recepcionista do salão. Liguei mas ela não atendia. Passei o esmalte Atração e saí atrás da moça na rua.

Depois de rodar um pouco, parei em um bar para tomar um suco e ela apareceu. Estava sem as unhas da mão. Caiu tudo, ela disse. Uma pele fininha no lugar da unha, e ela disse que os dedos ardiam. Eu disse que era punição porque ela era pra ser Chic Pele, não Nude. Agora a mão estava nua, para aparecer a pele.

Justificativa da solicitação:

Eu queria que as clientes soubessem que quando eu falo pra passar uma cor não é porque eu acho que é mais bonita mas porque eu sei que dá ruim não ir com o esmalte que eu falo. Se elas seguem o que a manicure indica, a vida segue tranquila e elas não

precisam nem lembrar que a gente existe até a semana seguinte. Elas acham que quando reclamam a manicure tira bife mas tirar bife às vezes é só um alerta que o pior está por vir. Então se junto com fazer a unha no salão tiver o serviço de esmaltomancia elas vão entender que tem que aceitar o que a vida dá. Se te dá um vermelho mais laranja, não dá pra querer um vinho. Se te dá cintilante, você tem que passar cintilante. É isso que ser manicure me ensinou.



A AUTORA


Thais Lancman nasceu em São Paulo, em 1987. É autora de Palito de Fosfeno (Reformatório, 2014) e Pessoas promíscuas de águas e pedras (Patuá, 2020, semifinalista do prêmio Oceanos), além de Meu ano Flávio de Carvalho (Folhas da Relva, 2021 – no prelo). É colunista da revista online Vício Velho e teve textos publicados no Brasil, Alemanha e Áustria.

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