• Capitolina Revista

Setenta e cinco menos trinta

Ana Elisa Ribeiro


"O vaso da hospitalidade envolto por amizade" © Heritage Library

Tenho uma amiga de 75 anos. Às vezes ela me telefona. Não tenho mais número fixo, desde que percebi que ele só servia para receber telemarketing. Eu sei que isso a incomoda e que ela se esforça para me ligar pelo celular ou enviar áudios pelo WhatsApp. Mas ela liga. De vez em quando.

Minha amiga de 75 anos quer saber alguma coisa sobre minha vida, sobre meu segundo ou terceiro casamento, sobre meus dois filhos adolescentes, sobre a família e o trabalho. E então ela se lembra dos quatro filhos que enfrentou e do seu casamento, sólido feito uma nuvem. O casamento da minha amiga de 75 anos durou a vida inteira ou quase isso. Ela às vezes me diz que custou caro. E isso ela fala meio entredentes, sorrindo, para que pareça uma espécie de piada, mas não é, nós sabemos. E não sinto que ela me reprove porque me desfaço dos maridos e dos casamentos. Ao contrário, às vezes sinto que ela acha isso admirável, quase me abençoa e a outras colegas da minha idade; e quase agradece, talvez a Deus, não sei bem, mas agradece por outras, não por ela. E nos olhos dela eu vejo, vez em quando, uma nota de uma inveja arrependida ou de um arrependimento invejoso, nada que nos faça qualquer mal. Talvez apenas a ela; e retroativamente. Talvez já tenha virado lava fria ou âmbar. E os desejos dela fossilizados lá dentro.

Aos 75 anos, a minha amiga é uma mulher esbelta, forte e linda. É linda como uma mulher de 75 anos, aos 75 anos. Ninguém a tomaria por uma jovenzinha ou um arremedo. Ela é uma imponente septuagenária, de pele um pouco craquelada, cabelos bem cuidados e sorriso largo. Trabalhou até quase agora. Não parou. Teve duas carreiras consecutivas, não quis se aposentar, quando isso ainda existia. Não achava que a vida de dona de casa pudesse suprir algumas coisas. Não foi completamente impedida. O marido não chegava a ser um tirano ou ela não chegava a ser submissa; ou conseguiram combinar as duas coisas. Os muitos filhos tomaram-lhe o tempo, é claro, mas ela não se desfez de nenhum desejo, esperando viver para todos. Viveu e vive, conciliando os outros e a si, em proporções diferentes, a cada década que passava. Ela era sábia e resistente, era discretamente determinada, como poucas mulheres sabiam ser.

Às vezes a minha querida amiga de 75 anos me liga para fazer uma pergunta de trabalho. Respondo com prontidão, inclusive para ajudar. Mas depois passamos à vida, e os temas dançam conforme nossos afetos. Na voz dela, sempre sinto saudades. Nem sei se de mim, mas talvez ela sinta a vida correr em mim como teria sido para ela se... Não sabemos.

Da última vez que minha amiga de 75 anos ligou, ela disse duas ou três coisas, além de perguntar sobre como eu vinha passando pelo confinamento durante a pandemia. Uma dessas coisas era que ela não se sentia com 75 anos. Lembrei logo dos meus pais. Eles também não sentem. Minha mãe, embora sempre se adoente, não sente que 70 anos se passaram. Meu pai, é certo, menos ainda. E eles não acreditam em seus corpos quando não conseguem mais subir escadas. Eles se irritam e às vezes murmuram “puxa, vida”.

Não tenho muita ideia, ainda, do que seja isso. Às vezes eu me chateio e confesso à minha amiga de 75 anos que não quero viver tanto. O mundo é chato, a vida é difícil, os desejos vão virando ruína, as escolhas pareciam escolhas e nem eram, enfim. Desfio um rosário de queixas que a minha amiga de 75 anos ouve com paciência. É o que ela pode ter diante da minha idiotice. É assim que eu vou me sentindo ao reclamar, diante da minha amiga, que já fez 75 aniversários e quer fazer outros tantos.

Minha amiga septuagenária às vezes pensa em sua festa de 80 anos. Ela fala em comemorações e celebrações. Não sei ao certo se ela é muito religiosa e pensa também que marcará uma missa católica. Ela cuida dos filhos adultos, que continuam dando trabalho, e do marido, que sempre adoece, e de si, que parece sempre uma divindade nessa cena. Minha amiga é uma mulher admirável. Mais que as protagonistas do cinema e as heroínas de seriado. Minha amiga é de carnes e frágeis ossos e me faz sempre me sentir idiota, na pose inútil dos meus quarenta e poucos anos. E sempre avalio quanto fui mais idiota nos anos anteriores. Talvez deixe de sê-lo aos 75. Talvez descubra que a idiotia é atemporal e que a minha amiga nunca teve tempos de idiota. Eu, sim.

Quando ela completar 8 décadas de vida, vou continuar pensando o que penso: que a vida passa rápido. Embora eu saiba disso, ainda não sinto o que ela me diz que sente: que seu corpo está desencontrado de sua mente e de seu senso de idade. Mas isso não tem a ver com inconsistências, incompatibilidades, doenças mentais ou síndromes de Peter Pan femininas. Isso tem a ver com um sentimento de que a vida não se esvai, embora o corpo padeça. É quase inacreditável, para a minha amiga, que ela precise tomar alguns remédios e que necessite manter o coração em sua cadência de maneira artificial. Ela não se sente assim. Ela mal viu os anos passarem. E percebe melhor que eles passaram quando olha os filhos adultos, mais do que percebe quando se vê a si no espelho, todas as manhãs. A velhice são os outros, ela quase me diz, mas não chega a dizer. Guarda estas frases que não entendo direito boca adentro daqueles dentes bem tratados.

Minha amiga de 75 anos às vezes me liga para dizer que está com saudades, que andamos nos encontrando pouco, desde que ela teve de se aposentar de vez. E mesmo como voluntária, ela agora frequenta aquele prédio inóspito em dias diferentes dos meus, então não nos temos visto e ela gostaria que nos encontrássemos mais. Ela diz essas coisas com alguma timidez e a voz um pouco embargada. Eu me esforço para não intimidá-la e para não chorar também, porque, 30 anos mais nova, sou uma idiota. Ainda não entendi o que uma mulher de 75 anos quer e pode dizer sobre os afetos.

Às vezes eu penso no dia da morte da minha amiga de 75 anos. Ela fará falta e talvez os filhos dela fiquem enciumados da minha reação. Choro hoje, agora, se me deixo pensar nisso, como uma espécie de simulação. Não queremos sofrer, nem eu, nem ela. Mas ela está longe, ao que parece, de morrer. Só se fosse num susto, de um jeito que só tem quem tem muita sorte. É claro que desejo sorte a ela, em todas as situações. Por outro lado, como já não acho que as coisas sejam lineares, pode ser que eu morra antes da minha amiga de 75 anos, e chamarão a isso de tragédia, e chorarão com mais ênfase porque, afinal, isso não se espera de uma mulher de 45, que deixa filhos adolescentes. Mas acontece.

Se eu morresse antes de completar tantas décadas, eu deixaria algumas pessoas realmente tristes, por uns dias, umas semanas: meu filho, meus pais, meus irmãos e minha amiga de 75 anos. Não tenho dúvida disso. Ela é uma espécie de mãe que não tive, porque nossas conversas atravessam temas que jamais pude abordar em casa. Não sei como ela foi com os filhos dela quanto a isso. Minha amiga de 75 anos certamente iria ao meu enterro, derramaria algumas lágrimas e tocaria minhas mãos cruzadas sobre o peito. Talvez, me conhecendo como conhece, fizesse uma crítica discreta ao terço ali preso, “ela nunca foi disso. E nem de usar maquiagem”. Talvez informasse aos meus distraídos familiares: “ela queria ser cremada; dizia que odiaria ter endereço depois de morta”.

Às vezes eu treino ver o mundo sem a minha amiga de 75 anos. Eu me lembro de ela me dizer que sentia o corpo desencontrado da alma e que isso não tinha solução. E eu penso em como a palavra “velha” não combina mesmo com ela e o jeito dela no mundo. Minha

avó era velha. Eu conheci minha avó já velha. E isso não tinha a ver com a cor dos cabelos ou com o corpo arbustivo. Isso tinha a ver com os olhos e as palavras da minha avó. Tinha a ver com pensamentos que às vezes escapavam já mofados. Minha avó dizia que as mulheres que estudavam muito ficavam loucas, e isso lhe justificava as próprias ignorâncias, mas caía sobre mim como uma maldição. Serei louca. Talvez um dia seja uma velha louca, se for uma velha, um dia.

A minha amiga de 75 anos não diz essas coisas. Ela tem um senso do mundo e das mulheres 30 anos mais novas que dá a ela um olhar que se descola da sua leve dificuldade de locomoção. Aquela inveja benfazeja que ela sente dos meus divórcios é uma lufada de compreensão. Ela se vê, trinta anos antes, e escolhe não se lamentar. Só me diz, num sussurro: fez bem, se te fazia tão mal.

Talvez os anos que ela não viu passarem estejam ali onde ela soterrou algumas coisas importantes. Os meus anos passaram pesados feito as composições carregadas de minério, nestas Minas Gerais. A minha amiga de 75 anos me olha com uma admiração que passa por caminhos de outras partes do mapa de nossas vidas possíveis. Trinta anos atrás dela, eu a vejo com uma estranha saudade. Queríamos ter sido amigas por mais de 50 anos, mas só nos sobraram alguns, na breve interseção de quando fomos adultas e podíamos trocar experiências, discretamente.

Quando o telefone celular toca e eu vejo a foto da minha amiga de 75 anos, meu coração logo se alivia e passamos a nos fazer perguntas veladas e confissões de mãe e filha, embora não sejamos mãe e filha. Minha amiga de 75 anos às vezes liga apenas para me vigiar, eu, que não sinto o corpo desencontrado dos meus desejos e nem da minha idade, mas que posso me sentir uma velha, tão facilmente.



Ana Elisa Ribeiro (foto Sérgio Karam ©)

Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte, onde vive. É professora de uma instituição pública federal e escritora de poesia, conto, crônica, infantis, juvenis e técnicos na área de Linguagem. Recentemente, publicou os poemários Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de Imprecisões (Leme, 2019). É colunista da Revista Pessoa



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