• Capitolina Revista

Sergio Leo





O SÓLIDO VÉU DA ORDEM


Quando convidei Mirna e Paula para terminar a noite dançando no Ó do Borogodó, podíamos ainda caminhar sem máscaras pelas ruas sujas de Pinheiros, e nosso maior desconforto seria a chuva desaguando das calhas dos prédios, sobre as calçadas, por buracos ao pé das paredes.

Mas, elas não quiseram (Enfrentar a garoa? Dançar comigo?). Fui jantar sozinho, sob as gotas esparsas, fugindo dos pequenos cursos de água suja no chão.

No restaurante, do outro lado do balcão, um casal conversa e troca carinhos. Quase sinto na minha pele os dedos dela sobre a face dele, que sorri. Ao lado dos namorados, três moças gargalham, olhando a tela do telefone de uma delas, exibida às amigas nas mãos de dedos longos, com o braço curvado delicadamente. Um outro trio, de sotaque carioca, vem acomodar-se a meu lado, depois de tentar sem sucesso convencer o barman a deixá-los levar para casa, num roubo consentido, as garrafinhas decoradas com imagens de músicos de jazz, nas quais o bar serve água mineral.

À minha esquerda, duas mulheres repassam perfis do Tinder e comentam as fotos no celular. Ao começarem uma frase, é possível prever como terminará; são como velhos textos de péssimos artigos sobre homens em revistas femininas. Elas também não parecem animar muito os caras do Tinder. Ficarão horas nesse chove não molha. Não vale a pena prestar atenção.

Os cariocas a meu lado lembram de festas passadas, falam de eventos que deram sono e de amigos que não parecem muito interessantes; são bonitos e simpáticos, devem frequentar o Posto 10, quem sabe, na fronteira do Posto 9 - na classificação geográfica de Ipanema que reserva (ou reservava, no século XX, quando frequentei aquela praia) locais definidos para as tribos conforme a cultura urbana da classe média que, no fim das contas, reúne todos eles. As patricinhas e mauricinhos ficavam no 10, em frente ao country clube; os descolados, artistas e intelectuais, no Nove, onde o Gabeira, na Era Mesozóica, exibiu sua tanga de crochê ao voltar do exílio, provando que guerrilheiros não tinham muito pragmatismo também ao escolher roupas de banho.

Ah, que bonitinho o casal do outro lado do balcão.

O amor é lindo. Quase digo isso às moças do Tinder.

Peço a conta, e uma moça morena, de lábios finos e um colar discreto elegante, muito decidida, brinca com o garçom, que havia se enganado ao dizer que já tinha dono o lugar onde ela havia sentado. Era o dos cariocas, que acabavam de desocupar as cadeiras altas do balcão. Ela senta, com um barbudo magro de sotaque caipira. Diz ela que se sente muito à vontade com ele; que parece que nunca estiveram distantes, apesar de não se falarem há tanto tempo. Sempre muito decidida, explica para ele o cardápio, conta que prefere os drinks “Morte em Veneza” e Fitzgerald.

Discutem se pedirão ou não uma garrafa de vinho; ela reluta (“garrafa eu tomo em casa”) mas aceita, a princípio. Ele discorre sobre preços de vinho em Belo Horizonte. Ela controla o papo. Comenta, não sei se em tom de crítica ou elogio: “você vive na balada, né?”

Ela descarta o vinho, afinal, e fala alguma coisa sobre uma filmagem em que uma moça teria sentado no colo do sujeito de sotaque caipira. Provoca? Reclama? Ele balbucia alguma coisa inaudível; mas eu já levantei e estou de saída.

Esse caipira não merece o que a noite lhe promete.

Ao passar por eles, ouço a voz de contralto dela anunciar a opção por um gin tônica e sugerir a ele um aperol. Ele aceita o aperol. Faz frio. Ele, decididamente, não merece a noite.


***

Volto ao restaurante, no fim de semana. O sax no alto falante parece estar mais alto que o habitual; talvez tentem garantir, com o som ambiente, a privacidade sonegada pelas mesas juntinhas. Ou tentam abafar o sujeito que, na calçada, toca Luiz Gonzaga na sanfona e pede dinheiro a quem entra. Ao lado, conversam quatro senhoritas em algum ponto da vida entre os 35 e os 45 anos, mas o ouvido me trai: palavras soltas, significados vagos. Uma delas fala: “um job...”. Meu interesse esfria como um croissant esquecido há dias numa vitrine. O casal na diagonal de minha mesa parece promissor, fala animadamente. Quem sabe.

O homem, careca e de cavanhaque grisalho, diz que trabalhou numa startup, cercado de gente novinha. “Como você disse, a gente tende a achar mais bonitas as pessoas mais jovens”, diz ele à senhorinha madura em frente, de cabelo joãozinho, sapato de ponta fina e uma tatuagem no ombro que não consigo identificar se é um cedro ou um brócolis. Ele conta que foi a uma reunião de amigos da juventude (lembro da cena de um filme do Woody Allen em que ele faz exatamente isso) e diz que ficou meio chocado ao constatar que as moças “gatinhas” de sua época já não eram como as que haviam marcado a memória. “Será que elas também olhavam os homens e pensavam a mesma coisa?” Vai por mim, calvo Woody: elas pensavam a mesmíssima coisa. Estou te vendo. Se os outros caras nesse encontro de ex-colegas tinham sua aparência, elas também pensavam. Reparo na senhorinha à frente do sujeito. É um tanto deselegante, o assunto, como a observação que ele acabou de fazer. Mas ele se apressa a desenvolver a conversa, avança numa discreta dança de acasalamento de restaurante em fim de noite. “As mulheres são mais críticas com elas, mulheres, do que nós mesmos, homens, com o mesmo sexo”, comenta, com um sorriso que deve imaginar cavalheiresco. A amiga diz algo, deve lembrar a ele que ela é uma das “gatinhas” que ele hoje exclui da categoria. E ele estende a asa, gentil: “Poderia dizer que no seu caso não é verdade”, jura. “Sem contar que não conhecia você naquele tempo”. Ela faz charme, ajeitando a manga sobre o brócolis tatuado no braço: “Não teria valido a pena...” E ele: “Acho que teria”. Ela disfarça, o tom de voz de ambos poderia ser de um debate sobre os riscos de pedir para se tatuar uma árvore no ombro; o ritmo da conversa é vacilante, mas o rumo é muito claro: “acho que tem uma coisa; como você disse: embora o físico não acompanhe, a gente melhora sem dúvida, com a idade”, diz ela. Ele fala algo; ela retoma o ponto: “isso é a grande merda de envelhecer: a gente vira uma pessoa melhor, só que o físico não acompanha. Ah, eu, com a cabeça de hoje, há vinte anos...” Ele emenda, balançando, amistoso, a própria cabeça de raros cabelos: “para um cara como eu, com 48 anos, você vai perguntar: não interessam mulheres novinhas? Interessa; são bonitas...mas, e uma mulher mais velha? Talvez no atacado não, mas, no varejo, não é verdade.” Varejo??? Atacado???! O sujeito me deprime; acelero meu diálogo com o creme de champignons que, distraído, quase deixei esfriar na mesa. Ela, claramente, está interessada no varejista que lhe coube nesta noite.

E ele não deve ser tão mau sujeito; confessou três vezes que lhe falta vocabulário, não se orgulha de ser um representante de nossa época tosca. A seu modo, repete variações, em tom que acredita ser elogioso, sobre o tema “a idade não determina o poder de atração de uma mulher”. Capaz até que terminem a noite aos beijos. Não vou ficar para conferir. Pobre senhorinha do ombro de brócolis. Tenho Pilates cedo, no dia seguinte. ** ** Saudades de quando eu fazia exercícios de manhã. Fujo de ambientes fechados, cancelei matrícula no Pilates, tenho medo de passar muito perto de pessoas, mesmo mascaradas. No caminho, contorno grupos de garotos, alguns nem tão jovens, com a máscara no queixo e suas bicicletas ao redor, equipadas com as caixas onde carregam a comida encomendada pelos paulistanos que também evitam se expor nas ruas. Estão sentados nas calçadas sujas, falam uns ao lado dos outros, alguns fumam e espalham a fumaça em torno, partículas pelo ar que, agora percebo, todos espalhamos, em nosso esforço cotidiano de sobreviver. As mãos com que os entregadores se apoiam no chão para levantar e receber as encomendas que levarão aos clientes são as mesmas que tocam as embalagens de papelão. Não há sorrisos. Falam em voz baixa, muito perto uns dos outros. Li no jornal que alguns passam fome. ** ** Ah, o tempo de mesas quase coladas nos restaurantes de São Paulo... Peço uma salada e olho disfarçadamente o casal ao lado. Ela faz pós-graduação em algum lugar, em algo que não ouvi direito. Diz que a mãe virou dondoca e viaja pelo mundo sem parar. Ele é careca, tem cavanhaque e uma orelha curiosamente minúscula para alguém tão corpulento, tatuagem no braço e sotaque de outro lugar. Ela é bonita, na faixa dos 40, veste uma minissaia acetinada e uma blusa brilhante e decotada que a faz parecer ter saído de um grupo backing vocal de alguma musa pop. Ele tem um conselho a dar, voz da experiência: "você tem de entrar no instagram. E quando estiver de baixo astral, ponha na busca: ‘golden retriever, kids, playing’. Vai ficar horas esquecida do mundo". Outra noite, outro casal. Ela está morando em Madri; ele, elegante, cara de galã global de novela vespertina, diz achar que vai sentir falta de Berlim. Ela tem voz melodiosa, de mezzo-soprano, parece mais madura. Diz que aprecia cidades animadas porque gosta de "baladinha". faz perguntas interessadas. Ele começa as respostas com "Cara..." arrastando os "aa". Pelo jeito está se mudando para São Paulo, e pergunta a ela se Alphaville fica longe, porque conhece pessoas que moram por lá. Ela explica o tipo de bairro e eu me controlo para não me intrometer na conversa dizendo que é uma espécie de Barra da Tijuca sem praia. Ele fala do trânsito intenso de bicicletas em Berlim. Nunca bisbilhotei uma conversa tão chata na vida. Na outra mesa, duas amigas. “Ou me trata como mulher ou me trata como mãe de filho. Não quero ser mãe de filho. É a história da minha mãe." A outra moça aprova, com um leve movimento da cabeça. Eu me distraio com a comida; a voz dela se eleva, manda a amiga esquecer o Seixas, ex-marido com quem esbarrou na vizinhança e a acusou de persegui-lo. "Esquece o Seixas! Esquece!" Não conheço o Seixas. Mas não tenho dúvida de que é um patife. Esquece o Seixas, Dani. Minha heroína vizinha de mesa reconhece: os filhos vão sofrer. Mas vai ser melhor assim. Gosto da ênfase com que ela diz isso. Vai ser melhor assim. ** ** Houve um tempo em que os garçons não usavam proteção facial. Também era difícil encontrar lugar no restaurante, mas era mais provável que uma conversa sobre enfermidades não se encaminhasse a terrenos previsíveis. Do meu lado direito, duas mulheres, muito jovens, fazem um inventário de doenças sexualmente transmissíveis que já enfrentaram; eu nunca tinha pensado no prazer como um catálogo de riscos assim. Do lado esquerdo, a conversa do casal começa, coincidentemente, falando em “operação”, mas nada tem a ver com saúde física. _ Ah, mas foi um tesão, uma novela; adorei fazer aquela operação, foi a negociação da minha vida, tive a confiança do Vasconcelos, conquistei a da Monica, eles nunca tinham pensado em fazer um cap de juros... _ Amor, a gente estava começando a ficar e você não me falava dessa operação... _ Foi um produto que ninguém nunca tinha pensado, tá ligada?" O amor, porém, também guarda lugar para nostalgias nosocomiais. Dias antes - lembro agora - uma moça, de mãos dadas sobre a mesa a um rapaz de bigode, fazia longa rememoração da apendicite dela, que emendou com a descrição das agruras da dengue que contraiu num passado incerto. Ele, que, de vez em quando soltava as mãos para lhe acariciar as pernas, delicado, por baixo da mesa, perguntou, compreensivo, sobre as dores de cabeça. Interrompiam a conversa, de vez em quando, com beijos carinhosos. Ela era magra, alta, com mãos incrivelmente pequenas e dedos finos, muito finos. O casal de meia idade, poucos metros à frente, compõe-se de um homem com quilos a mais, a calva incipiente no cabelo encaracolado, uma discreta barba grisalha; e ela, com uma pantalona branca e um enorme lenço de seda sobre a blusa colante de mangas longas, magra, tem as mãos cruzadas à frente, mas o tronco inclinado em direção ao interlocutor; a linguagem corporal mostra interesse. Parece uma jovem veterana de Woodstock, e pergunta o signo da filha dele quando ele menciona a menina, no papo. A filha é de Virgem. _ Organizadinha? _ É, bem organizada. Ele mostra a foto da filha, que tira com facilidade do bolso: adolescente e ginasta, acaba de ganhar medalha em algum colégio estrangeiro. O filho também merece palavras de carinho. Tem orgulho da descendência, esse patriarca sem motivos para narcisismo. Em que momento o macho da espécie deixa de exibir as penas lustrosas para se pavonear com a prole que habitou o ninho? Mas já estou acabando a segunda taça de vinho, o velhinho do violão na calçada berra Tim Maia, competindo com o Ornette Coleman do alto falante. Peço a conta. Ele diz a ela que começou a namorar a mãe da ginasta quando ambos estudavam da FAU e iam juntos ao teatro; ela tinha acabado de dizer que gostava muito de algo que não ouvi direito; gostava tanto que iria criar uma dança para ele - ou para ela, ou para sei lá o quê. No sábado ela vai estar com uma amiga terapeuta e vai dançar no aniversário de uma amiga dessa amiga. Na vida há dança, há filhos seus ou de quem você gosta, há amigos, há beleza. O velhinho, na rua, guarda o violão. Coloca no bolso umas poucas notas de dois reais que recebeu do casal operador do mercado. A criadora de danças pergunta ao companheiro de mesa: “qual a sua questão essencial?” Ele diz não saber. Também me pergunto, sem ouvir resposta, na falta de alguém que me faça a indagação. ** ** Tenho amigos que são servidos pelo mesmo garçom há anos, e não sabem seu nome. O nome do barman, à minha frente é Tiago. Não costumo perguntar como se chamam, sou discreto, quero que seja como se nos conhecêssemos desde sempre; às vezes, levo dias para driblar minha miopia e ler os nomes que trazem nos crachás sobre o uniforme. Tiago tem o ar acolhedor dos barmen estereotipados que servem de escada aos protagonistas de ficção. Ele prepara um Negroni para um sujeito de camisa de malha apertada e calças jeans com ridículos buracos rasgados de fábrica, que desabafa, vendo Tiago cortar a laranja que completa a bebida: “pensa numa mina difícil, cara!”. É que ela mora longe “pra caramba, lá em Granja”. Tiago ouve de cabeça baixa, sorri e serve o drinque, mas é solicitado por outro cliente. O sujeito de calças rasgadas parece meditar sobre as dificuldades geográficas para alcançar a mina que o interessou. Me distraio com um dos muitos barbudinhos do bar, que entretém a companheira, há pelo menos meia hora, com histórias desinteressantes de escritório. É um ás na catalogação de arquivos. O arquivista passou um tempo em Malta, para aprender inglês, mas reconhece que o sotaque de lá não é dos mais desejáveis. Quase peço que fale alguma coisa em inglês; curioso em saber como seria o sotaque maltês. A moça não pergunta nada. À minha frente, o Celso, que imagino ser o garçom mais antigo ali, me entrega a conta e toma coragem, pela primeira vez em muitos de nossos encontros, para falar de algo pessoal, pergunta se sou advogado. Devo mesmo parecer alguém do ramo, por causa do hábito de vir, com frequência, diretamente do trabalho, de camisa social e ar enfastiado como o de quem teve de passar o dia impetrando mandados e produzindo pareceres. Celso me diz que a solidão tem vantagens, porque nos faz dar maior valor às companhias. **** Me pergunto onde estará o Celso.

*****



O AUTOR


Sergio Leo é escritor, jornalista, artista plástico. Trabalhou nos maiores jornais do país e na TV Globo; em 2008, recebeu o Prêmio Sesc de Literatura pelo livro de contos “Mentiras do Rio”. Tem contos publicados em coletâneas como “Conversa de Botequim”, da editora Mórula, inspirado em músicas de Noel Rosa, e “Desassossego”, organizada por Luis Rufatto, para a editora Monbak. Publicou também o livro reportagem “Ascensão e Queda do Imperio X”, sobre o fracasso empresarial do bilionário Eike Batista. Foi, em 2018, curador da Bienal Brasília do Livro e da Leitura. Em 2012 e 2013 participou de exposições coletivas no Museu Nacional de Arte de Brasília.

Foi jurado dos prêmios de Jornalismo Esso, Petrobras e CNI/Senac e deu aulas no curso de Extensão em Jornalismo Econômico, na UnB, e na disciplina Jornalismo de Opinião, no Centro Unificado de Ensino de Brasília. Também deu palestras nas Jornadas Literárias de Passo Fundo, OFF-Flip, em cursos para diplomatas estrangeiros promovidos pela Fundação Alexandre Gusmão e no curso de formação de diplomatas do Instituto Rio Branco, do Ministério de Relações Exteriores. Mora entre Brasília e São Paulo; atualmente usa máscara ao sair de casa e já recebeu a primeira dose da vacina Astra Zeneca, sem nenhum efeito colateral.

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