• Capitolina Revista

Sandrine Cordeiro




Um excerto de FLORBELA


Editora Minimalista, 2020



– Vou para o Alto de S. João. – Disse ele.

– Até logo. – Respondeu. E nunca mais o viu.


Caminhou pela cidade onde vivem os mortos. Respirou. O ar que lhe inundava as narinas parecia mais fresco do que aquele que respirara em toda a sua vida.

Escolheu um dos jazigos vazios. Arredou os ramos de flores secas, os de flores artificiais crestadas pelo tempo e deitou-se. Ali ficou.


Foi encontrado, meses depois, sem sinais de decomposição.

– É milagre. – Disseram alguns.

– É bruxedo. – Disseram outros.

Ela não o quis ver. Preferiu guardar na memória a imagem da sua silhueta ao sair da porta. No fundo, sabia que ele se estava a despedir. E uma despedida daquela natureza apenas pode acontecer uma vez.

– Como te chamas, ‘nina? – Perguntava o senhor.

– Florbela! – Respondia.

– Não é nada! – Interrompia a mãe, envergonhada. Nunca percebera a razão pela qual aquele pedacinho de gente, com pouco mais de três anos, respondia assim. Não conhecia nenhuma Florbela, nem se recordava de alguma vez ter ouvido esse nome e, muito menos, na presença da pirralha. Onde fora ela buscar aquela ideia? Pegou-lhe bruscamente pela mão e seguiu caminho, sem fornecer ao senhor a informação desejada: o nome da pequena criatura.

– Não sejas mentirosa! – Ralhou.

– O que é ser mentirosa, mãe?

– É dizeres que te chamas Florbela.

– Profissão? – Indagou o homem fardado.

– Mentirosa. – Respondeu a menina tornada mulher.


Intrigada com o nome escolhido pela filha, levou-a à bruxa, aconselhada pela cunhada.

– Se há alguém capaz de te dizer por que raio a miúda se diz chamar Florbela, esse alguém é a… bruxa. – Tendo a última palavra sido sussurrada para ninguém ouvir.

A mãe demorou a decidir-se a levar a garota. E se a mulher lhe deitasse mau-olhado? E se…? Na realidade, temia mais o deslindar do fenómeno nominativo do que propriamente qualquer feitiço que o encontro pudesse provocar. A senhora não iria dar-se ao trabalho de uma magia não encomendada e sem recompensa. Este pensamento descansava-a e tornava a decisão mais simples. Só faltava responder a uma série de perguntas: queria mesmo saber? Aguentaria a resposta? Acreditaria nela? Era bom que acreditasse, já que pagaria uma pequena fortuna pela consultação. Estava decidido:

– Cunhada, marca lá com a bruxa!

– Chiu! Fala mais baixo, criatura. Olha que as paredes…

– Têm ouvidos? – Perguntou a pequena ao entrar na sala.

– Esta garota é mesmo esperta. Como é possível? Isto só pode ser… – “Bruxedo”, queria ela dizer; mas evocar tantas vezes essa palavra provocava-lhe comichão e calou-se.






Só se ela soubesse ler, pensou, ao encontrar um velho livro de capa dura debaixo do cadeirão onde se sentava o avô da menina. Não, não era possível. Era demasiado nova para saber decifrar o código das letras. E ninguém lho tinha ensinado. Não, nem o avô. Quando a garota nasceu, o homem mal conseguia articular palavras. Os livros já não eram folheados por ele há muito. As articulações não lho permitiam. E aquele livro de capa dura, ali debaixo do cadeirão… há quanto tempo repousaria ali? Há quanto tempo não era limpo aquele chão? A miúda poderia ter pegado nele. Sim, esta era uma possibilidade, mas daí a conseguir decifrar o que nele estava escrito… O que estava escrito na capa… Isso explicaria alguma coisa, evitaria a ida à bruxa, mas não deixaria de ser enigmático e pouco esclarecedor.

Decidiu pegar no livro e testar a teoria que se desenhava na sua mente. Teria de esperar pelo despertar da criança. Entrou no quarto. Dormia profundamente, um leve ressonar delicioso ecoava no quarto. Esperou uns minutos e, sem se aperceber, começou a fazer pequenos barulhos com o intuito inconsciente de acordar precocemente a menina do seu sono.

A criança abriu os olhos e sorriu ao ver o rosto da progenitora. O objeto que ela segurava na mão rasgou ainda mais o seu sorriso; exclamou «Florbela!». Soltou uma gargalhada. Incrédula, a mãe foi incapaz de articular palavra ou qualquer pensamento congruente. Se dúvidas ainda houvesse, tinham acabado de se dissipar: iria à bruxa!


A AUTORA

Sandrine Cordeiro nasceu em Paris, 1976. Estudou Artes Visuais e Teatro na ESAD.CR e História da Arte Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Desenvolve, desde 1994, trabalho em diversas formas de expressão artística, das artes visuais à escrita, da representação à encenação, da performance ao cinema. Publicou FLORBELA na Minimalista

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