• Capitolina Revista

Sérgio Tavares resenha Natália Borges Polesso

A hecatombe pesticida




Romance de Natalia Borges Polesso aborda relacionamentos femininos num planeta em ruína


Sérgio Tavares I Rio de Janeiro


“A extinção das abelhas” tem o signo da perda como assunto central. O mais recente romance de Natalia Borges Polesso imagina um futuro distópico para explorar as acepções e extensões do termo, retratando a privação, a morte, o aniquilamento em escalas do íntimo e do mundano.

Regina, a protagonista, é uma mulher de 40 anos, diabética, que carrega o trauma de ter sido abandonada pela mãe, quando criança, e perder o pai, no fim da adolescência. Desde então, integra a família formada pelas vizinhas Eugênia e Denise, e Aline, filha do casal, que vai estudar na Europa. Paranoia, seu gato de longa data, morre e Paula, uma mulher mais velha com quem vive um caso amoroso, hesita em estabelecer um compromisso firme.

Em meio a isso, o mundo pós-pandemia da Covid-19 vive a iminência da ruína monitorada por um dispositivo chamado colapsômetro. O Brasil, que impichou o presidente militar e, na sequência, elegeu um apresentador de programa de auditório casado com uma ex-apresentadora de programa infantil, tem uma das situações mais caóticas.

Falta emprego, comida e medicamentos, a indigência dispara e a Agrotech lava as plantações com pesticidas, causando o fim da polinização natural por conta do extermínio das abelhas. O controle urbano passa a ser feito por um sistema opressor de vigilância, e a população é manipulada com games e atrações travestidas de programas sociais, a exemplo de sorteios para reformar casas. Só os ricos têm acesso aos melhores produtos, protegidos em condomínios guardados por milicias particulares.

Fazendo bico para sobreviver, entre o atendimento num bar de uma amiga e eventuais revisões de texto, Regina gasta o mínimo em alimentos escassos e caros no mercadinho do bairro a um triz da falência, e no suborno da enfermeira do posto de saúde para pegar os lotes de insulina, quando chegam. A aposta para uma melhoria financeira está num site de camgirls, onde passa a ser exibir explicitamente e fazer sexo virtual com quem paga para interagir online. Assumindo a persona de Divaine, uma modelo que se apresenta usando uma máscara de gorila, oferece um tipo, digamos, não convencional de serviço erótico.

Aqui se denota o principal procedimento narrativo aplicado pela autora: o espelhamento intratemporal de relatos. Entremeada à narrativa principal, que acompanha o cotidiano da protagonista lidando com sua família postiça, amizades e sexo perecíveis, declínios da sua saúde, conflitos internos e a tensão constante da catástrofe planetária, desvela-se a história de Guadalupe, sua mãe, que decidiu se juntar a um trupe circense, atuando na encenação da mulher que se transforma em gorila.

O resgate destes episódios alheios ao espaço-tempo consciente da narradora primária dilata o conhecimento sobre o passado e instaura um paralelismo entre as decisões e os (auto)enganos da vida de ambas as personagens que nunca se relacionam fisicamente, mas que se comunicam em mensagens lançadas ao acaso. O texto ainda sugere analogias de modo a promover comentários sociais, ao sintonizar a maneira de Divaine tratar seus clientes e um incidente terrível sofrido por Aline, e comparações ilustrativas, como na distinção entre abelhas e gafanhotos diante do poder de construção e de destruição da humanidade.

Polesso demonstra dimensão inventiva e domínio técnico para transitar com segurança entre as camadas de seu enredo e plasmar um mundo pulsante e reconhecível. A escrita elegante, dinâmica, com diálogos afiados e temperados com sarcasmo dão credibilidade aos agentes da trama, de seus fundos dramáticos às resoluções pessoais que impulsionam e moldam a cadeia de acontecimentos. A tessitura recruta ainda um artifício criativo para imprimir uma sensação de continuidade, ao posicionar o que seria a última palavra ou frase de um capítulo intitulando o próximo. São estes apuros, aplicados tanto na forma quanto no conteúdo, que torna a feitura da primeira parte impecável.

Daí a autora opta por recorrer a outras modalidades de estilo nos segmentos seguintes. A segunda

parte se compõe de informes, depoimentos breves, listas e registros variados, onde cabe até uma epifania. Ainda que reconectando-se diretamente ao trecho inicial, a última parte transfere a narração para a terceira pessoa e adota um ritmo mais nervoso, de modo a representar a urgência do momento de tensão e de insegurança que vivem as personagens. Pode não agradar a todos, mas confesso que fez sentido para mim.

Afinal, a proposta do romance sempre foi retratar o impacto da perda no desconcerto da ruinaria global. E mais que isso: seguir a assinatura literária da autora de colocar mulheres para levantar bandeiras e simbolizar lutas; neste caso, também o ativismo ambiental. Assim, dentre os livros recentes que imaginam histórias em tempos pandêmicos, na distopia em curso, “A extinção das abelhas” é daqueles que se saem melhor. Natalia Borges Polesso não recorre a hordas de mortos-vivos ou a um cenário apocalíptico para imaginar o fim do mundo, apenas coloca os pés no amanhã. O colapso ser totalmente plausível, para além de outras qualidades, dá ao livro um sentido amedrontador.


A AUTORA


Natalia Borges Polesso É doutora em teoria da literatura. Publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013), Coração à corda (2015), Pé atrás (2018) e Amora (2015), livro vencedor do Prêmio Jabuti 2016, em que explora as nuances das relações homoafetivas entre mulheres. Em 2017, foi selecionada para a coletânea chilena Bogotá 39. A autora tem seu trabalho traduzido para o inglês e o espanhol e sua obra está publicada em diversos países.

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