• Capitolina Revista

Sérgio Rodrigues




AMOR SEM FIM (TRÍPTICO)



1. Ela



O chope nem tinha chegado quando a viu. Estava a quatro mesas de distância, de costas para ele. Reconheceu-a pela nuca, pelos gestos, voz, tudo. Talvez não precisasse de nada daquilo, bastaria o campo magnético que sua presença criava. Foi quando se tocou: numa inversão perfeita da máxima tão cara a escritores de autoajuda, o universo conspirava contra ele.

Não fazia sentido. Pelas últimas notícias que haviam chegado anos atrás aos seus ouvidos, sem que as buscasse, ela estava morando na Europa, casada com um estrangeiro, a um seguro oceano de distância. Não era verossímil que presidisse aquela mesa ruidosa de jovens vadios, todo mundo com cara de artista ou parasita de artista, no meio de um dia útil no bar ao lado da sua casa. Chegou o chope e ele tratava de entorná-lo num único gole para ir embora correndo quando ela, virando-se por algum motivo, o viu.

Viu, abriu um sorriso, acenou. Ele não teve a força moral necessária para deixar aquele abano pendurado sem resposta no ar do botequim, boiando na atmosfera engordurada. Adoraria ter feito isso, mas sem se dar conta reagiu ao gesto simpático com uma inclinação seca de cabeça. Talvez tenha passado por sorriso seu involuntário ranger de dentes.

– Como você está, meu querido?

De repente a mulher estava a seu lado, curvada sobre ele, interminável como antigamente. Seu olhar foi subindo devagar da saia vaporosa de aparência cara e barra irregular na altura dos joelhos, passou pela barriga apertada numa blusa de cetim indiano azul-pavão, pelas colinas que tensionavam de leve o tecido, ladeando o pingente de ametista aninhado num decote em V. Ali o olhar parou um instante para tomar fôlego, mas logo retomou a escalada, alcançou o pescoço e continuou a subir. Quando já parecia tarde demais, conseguiu se desviar para um ponto vazio no espaço ao lado da cabeça da mulher, manobra radical executada na derradeira fração de segundo antes da

colisão com os traços do rosto, que poderia ser fatal, mas não adiantou: ele sentiu uma colônia instantânea de gotinhas de suor tomar posse da área enrugada sobre sua boca.

Pronto, pensou, com o fatalismo enraizado e denso de seus oitenta e dois anos: vai começar tudo outra vez.



2. Lúcio



De todas as lembranças da adolescência, a do Lúcio, o primeiro garoto que ela deixou enfiar a mão sob a sua blusa, era a mais enigmática. Toda vez que pensava nele, tantos anos depois, ainda se arrependia dos tapas categóricos que tinha lhe pregado na mão sempre que ele tentava migrar do subsolo superficial da blusa para o subterrâneo profundo da saia.

Nessas horas, ainda hoje, era infalível: o suspiro vinha automático do fundo da memória. Ah, Lúcio... Aí se lembrava de um detalhe, digamos, linguístico, e tudo se complicava infinitamente.

– Pode crer.

– Você fala muito “pode crer”, hein, cara?

– Pode crer.

– Você fala “pode crer” pra burro.

– Pode crer.

Era um talento, sem dúvida. Cada “pode crer” do Lúcio tinha uma entonação, uma conotação, um jeito, um ritmo, uma música. Mais até do que isso: cada “pode crer” do Lúcio tinha uma moral, uma filosofia.

– Tira a mão daí.

– Pode crer.

– Mas aqui eu deixo.

– Pode crer.

– Você gosta mesmo de mim?

– Pode crer.

Não se podia, a rigor, acusar o Lúcio de repetitivo.

No entanto, como “rigor” é palavra que não existe no dicionário da adolescência, muita gente o acusava assim mesmo. Mais do que repetitivo, começou a circular a tese de que o Lúcio fosse uma besta. Ela, que até então se orgulhava, passou a se envergonhar de ser vista com ele.

– Está tudo acabado entre nós.

– Pode crer.

Era um talento notável. Décadas depois, aquele último “pode crer” do Lúcio ainda ecoava em sua cabeça, atordoando-a, e havia momentos em que sua mão, sem que ela se desse conta, migrava lentamente do subsolo superficial da blusa para...

– Pode crer.



3. Geneviève



– Alguém disse que ela era francesa. Naquele tempo, isso era uma afirmação grave.

– Cuidado para não se cansar.

– Francesinha. E falsa magra. Sabia que ela nunca gostou desse elogio?

– Pai, o médico falou...

– Faux maigre. Na praia. Dava para ver de longe que era isso mesmo, por mais que na época os biquínis fossem, você sabe. Francesinha, alguém falou. Acho que foi o Barba.

– Shhh.

Quem mais estaria naquele grupo em Ipanema, olhos pregados nas costas rosadas e pernas longas sob a barraca vizinha? Sentada entre duas amigas sem graça, quase feiosas, ambas de maiô inteiro, a mulher que o Barba dizia ser francesa usava um duas-peças. Em 1962, isso estava longe de ser o escândalo que tinha sido poucos anos antes, quando a novidade estreara em areias cariocas no corpo de uma vedete, mas aquele duas-peças chamava atenção pela qualidade do recheio. Havia diversos rapazes na roda, alguém tinha assobiado baixinho, ele se lembrava. Voulez-vous coucher? Risadas nervosas. Francesa, ora: qualquer um estava autorizado a ter esperança.

Silêncio arfante. A enfermeira bate na porta, entra, vem conferir o soro.

– Como está o nosso garotão?

O velho permanece calado, mas agora o silêncio soa diferente, tenso de desprezo.

– Está animado, falante.

– Ah, mas não deixa ele falar muito, não – diz a mulher. Ergue a voz, como se o paciente fosse surdo: – Tem que descansar, viu, seu Augusto?

– Meu nome é Marco Aurélio.

A enfermeira deixa o quarto. Pai e filha trocam suspiros.

– Imbecil.

– Pai!

– Na época, falar francesinha era o mesmo que... Custei a tomar coragem. Você podia nem estar aqui hoje.

– Descansa, pai.

– Por quê?

– O médico falou.

Um Chicabon. Tudo tinha sido tão rápido depois daquele Chicabon. Voulez-vous un Chicabon?

– Bobagem, filha. Quanto antes, melhor.

– Hein?

Marco Aurélio Trindade de Barros está sorrindo.

– Nunca teve paciência pra esperar, Geneviève.


O AUTOR


Sérgio Rodrigues nasceu em Muriaé (MG), em 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, jornalista, roteirista e crítico literário, é autor dos romances “O drible” (Companhia das Letras, 2013, vencedor do Grande Prêmio Portugal Telecom 2014), “Elza, a garota” (Nova Fronteira, 2009, com segunda edição da Companhia das Letras em 2018) e “As sementes de Flowerville” (Objetiva, 2006), e das coletâneas de contos “A visita de João Gilberto aos Novos Baianos” (2019), “O homem que matou o escritor” (Objetiva, 2000) e “Sobrescritos” (Arquipélago, 2010), entre outros livros. Alguns de seus títulos têm edições traduzidas para o inglês, francês, espanhol e dinamarquês. É colunista da Folha de S. Paulo e roteirista do programa de TV Conversa com Bial.

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