• Capitolina Revista

Rui Almeida




Limpos, amansados pela voz saída

Da goela para o coro, estribilho

Ensaiado, aflante entusiasmo, limpos

De gorduras e entranhas – bocas e


Pouco mais, seguindo o cheiro, a secura

Da pele, dos ossos, o brilho a fermentar,

Sadios e curados à superfície.


E limpos


Do pus nas guelras e da melancolia,

Da pele escura, do improviso, do

Desvio do corpo para outras

Desilusões mais incertas. Coro


De mansos em grito sem direcção,

Rebanho em pose de matilha, sombra

Mal definida, quase insulto, quase

Asco ou vómito, óleo em expansão


Discreta pelo chão e pelas paredes

Até ao hábito. Secos e sem

Desvio ou dúvida, inocentes

De qualquer crime, lentos e rápidos


Conforme o sendeiro ou a curva por onde

Seguem. Gente de bem e muito limpa,

Correctíssima em seus abrigos.


CRISTINA TAVARES, VÍTIMA DE ASSÉDIO MORAL NO TRABALHO


A qual de vós se pode comparar a hiena

Em sua arrogância fágica quando

A força que vos move é a dos braços


De quem nem o nome sabeis? Sem reservas,

A vossa morte surge no queixo

Levantado da mulher que trabalha,


Não para vós, mas para o respeito

Que em si mesma conserva, por vós sustido.

Possa o castigo ser a infâmia


Devolvida a quem nela se sustenta

E nem rosto tem. Possa o trabalho

Ser a parte da vida


Que permita vivê-la em todas as horas,

Possa o cansaço ser

Outra coisa sem impedir


O sorriso ou o beijo, a construção

Da liberdade. Qual de vós tem o poder

De negar sonhos


Ou de rasgar a folha onde está escrita

Cada uma das letras

Desarrumadas de uma história, cada


Um dos verbos de um futuro

Que não pode depender

Dos golpes de uma mão cobarde?


****


O AUTOR

Rui Almeida nasceu em Lisboa em 1972 e publicou os seguintes livros de poemas: Lábio Cortado (Torres Vedras: Livrododia, 2009), Caderno de Milfontes (Nazaré: volta d'mar, 2011), Leis da Separação (Coimbra: Medula, 2013), Temor Único Imenso (Fafe: Labirinto, 2014), A solidão como um sentido, seguido de Desespero (Lisboa: Lua de Marfim, 2016), Muito, Menos (Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2016), Talvez a Dúvida (Lisboa: Douda Correria, 2016), A pedra não pode ser coração (Coimbra: do lado esquerdo, 2017) e Higiene (Nazaré: volta d’mar, 2019). Tem colaboração dispersa por várias antologias e revistas. Mantém, desde 2003, o blogue "Poesia distribuída na rua" (ruialme.blogspot.com

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