• Capitolina Revista

Ronaldo Cagiano




O abuso



Uma vez sofrida, jamais se esquece

a experiência do mal.


Natália Ginzburg

“As pequenas virtudes”






, eu já tinha vinte e tantos anos e a única imagem que me cavava fundas galerias, como um cupim de aço na consciência, com pavor e abjeção a chafurdar-me, era aquele homúnculo, coxo, reles, vil, desaparecendo no quintal de casa como se nada tivesse acontecido, muitos anos se passaram, eu já perdi as contas, porque as tragédias podem ter acontecido há tanto tempo, mas a gente pensa que foi ontem, muitos anos se passaram e não consigo me desvencilhar daquela cena torpe, do homem coxo, reles, vil, asqueroso e mau, aquele projeto de homem que dizia ter nome de rei, eu o vejo ainda atravessando a cerca de bambu depois de ter estendido minha calcinha que havia lavado às pressas, como quem quer apagar os vestígios de um crime e desaparecer no breu da noite, mas ali era dia, um dia sem fim em minhas lembranças, e eu, sentada no tanque, sozinha, embebida na água turva estancada pela rolha, ainda o acompanhei com meus olhos de menina de seis anos sem saber o que fazer com aquele líquido estranho que ele deixou em minhas coxas magras, depois de tanto tempo eu ainda sou a mesma, ou sou outras não sei, tentando entender aquele homem espúrio e que, privando de nossa intimidade, agiu à socapa, e agora é esse iceberg intrometido em minhas recordações, eu depois de tanto tempo, em outro tempo e outro lugar, ainda tenho minhas cicatrizes, meu desejo do não-perdão, observo aquele ser ignóbil e sua baba pusilânime e nada se compara à sua animalidade, ao seu desatino de – homem, não – objeto mascarado e sutil em sua ignomínia a parir a violação, a fenda na alma, a selvagem incursão pelo território não-seu, ele fazendo de minhas perninhas miúdas, de meu corpo sem peso, um corredor do prazer insano e eu sem saber o que fazer, perdida no escuro e no desamparo, minha mãe fritando batatas, o quintal deserto, trincheira daqueles dedos criminosos que suavam num despudor miasmático e meu corpo de menina parecia uma montanha de chumbo e um peso nos meus braços que não deixavam conter o seu furor e ele me pisava com seus olhos de serpente, inoculando o veneno que deflorava meu ser ingênuo e ele foi em frente, selvagem, chegando aos estertores, ao estupor e eu não reconhecia aqueles gestos, aqueles afagos, os olhos retorcidos, a boca torta como tortas são suas pernas secas, sem volume e sem movimento, suas pernas punidas pela poliomielite, um esqueleto nojento e de poucos pêlos e ele inscrevendo aquele cenário em mim, enquanto dentro de casa a cozinha com seus barulhos domésticos, de frituras e cozimentos, essas madeleines que me devolvem esse rude passado, abafavam a sua respiração, pois um corredor imenso nos separava da alma da casa, a alegoria macabra de seus gestos e aqueles poucos minutos cravaram uma eternidade de sombras em minha vida e minha mãe nunca descobriu por que eu tomava banho naquele tanque, nunca soube por que o homem que veio almoçar com a gente saiu sem se despedir, a água me queimava as coxas que ardiam, as coxas vulneradas, o sexo precocemente aviltado e eu imóvel, sem forças, recebendo a dispersão nojenta de um jato esquisito, jato sem vida, desperdiçado por

mãos que me volteavam em movimentos estranhos, intermitentes, foi quando eu senti suas mãos rugosas tocarem, ásperas, a minha cintura fina, a barba raspando minha nuca, a hediondez de seus gemidos quase reprimidos para não serem notados, a expressão vulgar num rosto cadavérico, o medonho ser me comprimindo e eu parecendo menor que tudo naquele mundo estranho, eu imóvel, ele feroz, com sua tenacidade estropiada, a terra embaixo do tanque revirada pelos seus pés que se agitavam e o cheiro de barro se misturando ao seu mau hálito, sua cintura forçando a minha, o seu olhar perdido num ponto distante, ele se infiltrando como uma brasa incandescente e o silêncio da casa quase vazia era quebrado pelos sons da frigideira escaldante, pelos respingos da gordura, a batata incandescente, e ele se movia, se contorcia como uma besta-fera, inexplicável para os meus seis aninhos, eu ali, não-cúmplice, acantonada, inerme, fechando os olhos para não ver o pior, ele parou de respirar, os dentes batiam, eu caí sem movimento no tanque que já começava a encher-se de uma água fria numa manhã qualquer de junho e ele, sôfrego, como quem quer apagar os rastros, lavando minhas calcinhas e indo embora, a minha vontade de gritar, e a falta de voz, e o medo, e o desafio, eu não queria ser devorada, os seus dedos frios finalmente foram embora, não conseguia abrir os olhos, só ouvia a água caindo e tudo desabando sobre minha cabecinha infantil, eu no dia escuro, mais escura é a mancha crescendo dentro de mim, eu no dia escuro começava um labirinto selvagem, solitário, camuflado, com medo das coisas, das coisas que eu não sabia explicar, era 1974, e depois soube que naquele ano o Brasil tinha perdido a copa e Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos, mas eu havia perdido muito mais, eu havia perdido um mundo imenso dentro de mim, as garras do homem coxo e abjeto, asqueroso, mau e sujo haviam deixado suas marcas da carícia ao avesso, do contato ilícito, do golpe impune, o susto, a marca, a dor, a mancha, o segredo, quando abro os olhos só vejo aquele ser repugnante

(e naquele momento - em que eu achava que ninguém havia percebido essas coisas - carrego a suspeita de que a vizinha dos fundos deve ter visto tudo, pois eu a flagrei, vislumbrando da cerca que divisava os nossos quintais. Deve ter percebido, eu não sei, a clandestinidade do ato, sua impureza, o dolo, a contrariedade a meu mundo, sim, aquela vizinha que quase não falava com a gente, aquela mulher estrangeira, de nome estranho, Ruhtra, sim esse era o nome da vizinha indiana que viu tudo.)

aquele homem que cheirava estranho colocando minha calcinha lavada na cerca de bambu, a bicicleta que ele tenta pedalar com um pé só que o pé morto não respondia e sua pressa em sair, em não deixar vestígio, senão a calcinha molhada e a certeza de minha boca fechada e ele sai sem nenhuma explicação para os que ficaram, e ele prossegue, como um vulto, atravessando, coxo, a horta lindeira da nossa vizinha e a cortina de folhas do quintal, empurrando a sua Bristol enferrujada, até ganhar o portão em sobressaltos, e, já no selim de couro rachado, disparar até ser engolido pela distância, mas eu ainda o vi atravessando o pontilhão até diminuir, diminuir, e não ser mais que uma noite longa crescendo dentro de mim, e meu olhar se perdendo naquelas imagens conturbadas que perturbariam meus dias até hoje, só seria desviado quando virei meu rosto em direção à porta da cozinha, de onde ressoava a voz de minha mãe chamando para o almoço que comeríamos juntas e sozinhas, sob um silêncio de oratório, enquanto eu escondia a dor de minha virilha infantil que ardia em chamas, como uma geografia impúbere, sofria o agravo do músculo clandestino, como a terra virgem erodida pelas enxurradas,

, só hoje eu dou conta dessas coisas, só hoje dou conta de dizê-las, como não senti, porque fui traída em minha inocência e, justo agora, quando a casa dos trinta anos está para inaugurar-se em mim, agora sou eu mesma pensando no lugar da criança que não conseguiu esboçar nada disso que percebo agora tão distinto e diáfano, ao catapultar

meus pensamentos para aquele dia e, como cacos de um vitral, junto as peças e sinto vergonha da minha não-reação, da minha complacência inocente, ele era meu tio, de como eu gostei e não soube que era a selva de horrores surgindo do pântano interno daquele homem a me cooptar sem que eu soubesse de pecado, de moral, da lógica dos sentimentos usurpados, dos destroços de corpos esbulhados, sim, eu hoje tenho nojo, vergonha, náusea e uma impossível distância psicológica, mas todo esse asco nasceu da exata medida da compreensão do que é capaz um ser, o seu igual, e me abatem e me constrangem as tentativas de reproduzir nas bonecas a sensação do afago ilícito, da carícia imprópria, da violação do meu corpo exposto às vacilações de uma carne que não lhe era gêmea, de um nirvana unilateral arrancado contra os parcos domínios de uma infância despojada, sem malícia e sem armas, fragilizada por aquele homem que tinha o mesmo sangue dos meus.


O AUTOR


Nascido em Cataguases (MG), formou-se em Direito, viveu em Brasília e São Paulo e está radicado em Portugal. Colabora, escrevendo resenhas e artigos em diversos jornais e revistas do Brasil e exterior. Estreou com Palavra engajada (poesia, 1989) e dentre as obras publicadas, destacam-se: Dezembro indigesto (contos - Prêmio Brasília de Produção Literária 2001), Dicionário de pequenas solidões (contos, Ed. Língua Geral, Rio, 2006), Moenda de silêncios (novela juvenil, em parceria com Whisner Fraga, Ed. Dobra, SP, 2012), O sol nas feridas (Poesia, Ed. Dobra, SP, 2013 - finalista do Prêmio Portugal Telecom 2013), Eles não moram mais aqui (Contos, Ed. Patuá, SP, 2015/ Ed. Gato Bravo, Lisboa, 2018 - Prêmio Jabuti 2016); Observatório do caos (poesia, Ed. Patuá, SP, 2016/Ed. Gato Bravo, Lisboa, 2018), Diolindas (romance em coautoria com Eltânia André, Ed. Penalux, SP, 2017), Os rios de mim (poesia, Ed. Urutau, Pontevedra, Espanha, 2018), O mundo sem explicação (Poesia, Ed. Coisas de Ler, Lisboa, 2019) e Cartografia do abismo (Ed. Laranja Original, SP, 2020). Organizou as coletâneas Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, DF, 2001), Poetas mineiros em Brasília (Varanda Edições, DF, 2002) e Todas as gerações - O conto brasiliense contemporâneo (LGE, Editora, DF, 2006).

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