• Capitolina Revista

Resenha por Carla Bessa

Ruína y leveza, De Julia Dantas

Andar para não parar




Em Ruína y leveza, é a palavra que faz do caminho a trajetória

Por: Carla Bessa | Berlim

“O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso”, diz o Zaratustra de Nietzsche. Para o filósofo alemão, que foi um exímio andarilho e tanto escreveu sobre o caminhar enquanto dinâmica impulsionadora do pensamento, andar é, antes de tudo, não parar, e o (di)vagar, o movimento definidor da nossa condição de errantes.

Em Ruína y leveza, de Julia Dantas, o relato da itinerância da jovem Sara pela América Latina também se apresenta como motor para reflexões e epifanias. Num cenário de trilhas reais e imaginárias, ela avança sem sair do lugar e retrocede indo adiante, traçando uma cartografia de novas descobertas e aprendizados, solidificados através da narração. Ou seja, é por meio do relato que o olhar se apropria definitivamente do que vê; é só a palavra que faz do caminho a trajetória. Essa dinâmica de interdependência entre observação e narração do observado é a característica básica do movimento de contemplação que permeia todo o romance.

O enredo é simples: Sara, uma jovem publicitária gaúcha de relativo êxito, entra em crise depois de se separar do companheiro, Henrique, e perder o emprego por conta de uma breve fase de depressão. Sem muitas expectativas e desiludida com a sua profissão e a vida decadente que levava em Porto Alegre, ela resolve pôr uma mochila nas costas para sair numa viagem de renovação pessoal e compra uma passagem para Lima, no Peru. No caminho, trava amizade com Lucho, um argentino peregrinador com quem experiencia encontros e desencontros diversos e que passa a ser seu principal interlocutor. A história é contada de forma não-cronológica e, em flashbacks, o leitor é introduzido aos poucos à sucessão de acontecimentos que a levaram à crise e à decisão pela viagem. Há também, intercalados aos capítulos, fragmentos soltos de relatos de sonhos, numerados aleatoriamente.

A primeira cena narra uma situação que acontece num momento já bem avançado da história e que resume toda a essência da experiência da viagem enquanto alegoria de jornada exterior e interior: Sara e Lucho fazem uma visita a uma mina de extração de carvão e são surpreendidos por um terremoto quando se encontram literalmente no fundo do poço. Esta é, na minha opinião, uma das passagens mais impactantes do livro, pois, além de manter esticado o fio do suspense – o desfecho fica em aberto e será revelado apenas no final do livro –, a cena apresenta um bom balanço entre reflexão e ação, o que não acontece sempre no restante do romance que, apesar de relatar encontros e situações reais, mantém-se majoritariamente preso à contemplação. Outro ponto positivo deste começo claustrofóbico é que ele entabula os elementos principais da narrativa que se seguirá: temos, por um lado, uma caligrafia segura e fluída, e por outro, o uso consciente de imagens simbólicas enquanto instrumento de ampliação da experiência individual para a coletiva e do físico para o metafísico: fundo da terra, experiência de quase morte, terremoto, escuridão, soterramento.

Nos próximos capítulos, a narradora relatará alternadamente da viagem e de sua vida em Porto Alegre. Ouvimos a seguir como conheceu Lucho no aeroporto em Buenos Aires e rumou com ele por pequenas aldeias peruanas, em passagens que deixam claro que a força da narrativa de Julia Dantas está, por um lado, nas descrições de paisagens – ainda que por vezes ela se estique demais nelas – e, por outro, no senso para o caráter metafórico dessas mesmas paisagens. Profundidade aqui adquire a figura ambivalente de Lucho, que oscila entre cínico e companheiro, o que baliza a relação dos dois por todo o resto da livro, marcada a um tempo por simpatia e aversão.

Já nas retrospectivas, ficamos sabendo como a protagonista encontrou Henrique, da sua posterior união amorosa, do relacionamento desfeito e da dificuldade de Sara de se desligar da relação. Ela vai morar com uma amiga e leva uma vida vazia de significado, com muito álcool, festas e namoricos sem maior importância ou noites com desconhecidos das quais parece acordar mais solitária do que antes.

Entre as descrições detalhadas de lugares, paisagens, novas amizades no Peru e as frustrações com as relações da sua vida passada, há passagens de grande lucidez reflexiva e força narrativa, como por exemplo:

“Estar no meio do Peru é, em si, um ato banal, quase vulgar. Milhares de peruanos o fazem todos os dias sem ver nisso grande mérito. Mas quando se está no meio do Peru após percorrer solitários três mil quilômetros, enfrentar os solitários quartos de hotéis, as solitárias fotografias em que jamais aparecemos, o momento-chave de estar no meio do Peru, que poderia ser qualquer um, porque é apenas aquele em que se pensa “estou aqui”, se torna um símbolo de superação, de conhecimento, ou apenas a prova de que se viveu, eu fiz coisas porque houve um dia em que estive entre montanhas andinas após solitárias horas de ônibus, solitários cafés da manhã e solitárias reflexões, e talvez a solidão seja a única coisa de fato a ser encontrada nas mil buscas pelo sentido da vida. Viagens a lugares improváveis, meditação, terapia: apenas maneiras de se estar sozinho, às vezes com outra pessoa na cadeira em frente ao divã, mas essencialmente sozinho. Talvez eu devesse abraçar a solidão. Talvez devesse fugir dela.”

Ou como nesta frase à qual remete o título do livro, uma fala de Lucho:

“Turistas voltam para casa com malas mais pesadas. Viajantes voltam com mais leveza.”

Nestes momentos, fica claro que a verdadeira herança que se traz de uma viagem de autoconhecimento não é o aprender a encontrar-se, mas sim, a ousadia de perder-se.

No entanto, apesar destas passagens clarividentes, em geral, tanto autora como personagem parecem não estourar a bolha de autorreflexão e autorreferência, e isso infelizmente apequena o texto como um todo, que acaba girando predominantemente em torno de si mesmo. Contudo, Julia Dantas revela possuir um olhar excepcionalmente atento e incisivo, perspicácia, humor e um trato bastante íntimo com o seu ofício, como se escrevesse desde sempre. Talvez fosse o caso de, como a protagonista-narradora Sara, libertar-se das amarras da experiência pessoal e ousar desbravar terrenos improváveis e desconhecidos da ficção.

Ruína y leveza

De Julia Dantas

Não Editora

208 páginas


Julia Dantas nasceu em Porto Alegre, em 1985. Formou-se em jornalismo, estudou crítica de arte em Buenos Aires, atuou como tradutora e hoje se dedica à edição de livros. Faz mestrado em escrita criativa na PUCRS, tem contos publicados em antologias e foi finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária com este Ruína y leveza.

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