• Capitolina Revista

Renata Belmonte

A Raíz de todas as Bordas

(Segunda tentativa)




Peço licença, por favor, perdoe-me pelo tom tão aflito. É que não acho dicionário, enquanto preciso escrever sobre esta minha pele, descobrir a raiz de suas bordas, sua litoraneidade. Caso me fosse possível, daria início repetindo Isabela, dizendo apenas que “no princípio eu era de carne e estava na terra” *. Seria maravilhoso acreditar, mesmo por instantes, que pude somente existir, que não precisei pensar logo em mim como rapariga, branca ou rica. Mas assim não o é, pois me reconheço a partir do momento em que eu me soube e isto se confunde com quem sou, ainda que nem sempre eu própria me compreenda, pois comecei narrada pelos outros. Então apresento-me partindo da primeira materialidade, daquilo que me foi concedido: um corpo magro, cheio de quereres supostamente inadequados. Sim, naquele tempo eu já possuía verdades, mesmo que me mandassem calar a boca nos jantares, mesmo quando pedia perdão a Deus pelos meus maus feitos. Que tipo de métrica, ele, o rei de todos os nós, usava em seus julgamentos? E por que havia colocado, dentro de mim, uma súdita rebelde, impossível de ser contida? No escuro, na ponta do espelho, desde muito cedo, outra mulher, vejo. Minha pena seria diminuída com o comparecimento naquelas missas? Se tanto me silenciavam, como supunham que eu me formaria sem segredos? O joelho exausto, machucado, o pânico do castigo. Vamos lembrar, então, da culpa pelos elogios que eu recebia e julgava imerecidos, do pavor de ser descoberta como uma mentira, da vergonha que era ter o que os outros não possuíam, da profunda miséria bem ao lado dos meus cabelos e olhos claros, eu, sortuda pela comida no prato, eu, nascida dentro de um certo tipo físico. O que mais poderia querer, por que tudo isto não lhe bastava? A sorte como coisa fortuita do destino, linha tênue, prestes a ser cruzada... A violência que irrompia a cada grito não dado, a infância como suplício. No limbo, o ardor pelo crescimento dos seios, nunca me reconheço nas fotografias de criança, há um vazio imenso em todos os meus sorrisos. Tornar-me logo adulta e, nua, deitar-me na cama, conhecer a força brutal de um homem, seu sexo contra o meu talvez fosse capaz de me retirar de mim, os franceses tudo entendem de língua, a cada pequena morte no lençol, o esquecimento do horror que é estar viva. Sim, porque aprendi que deveria sofrer, padecer, por ter nascido rapariga, branca, rica e bonita. Só deste modo, pagando o dízimo, me purificaria, seria aceita e me tornaria digna. Conto-me assim, tanto, porque sou melhor em matemática do que as pessoas conseguem supor. E nesta operação nada há de simples: somam-se angústias múltiplas inteiras, um corpo feminino, duas filhas, um marido. Tudo provo para os mesmos fiscais que, em noites insones, me interrogam; mas meu passaporte é recusado novamente, a alegação é de que o outro continente, na verdade, não passa de ilha. E se permaneço aprisionada, escutando despautérios daquela outra que também me habita, resta-me apenas a memória como passagem, viagem. Quase todos os dias, então, quando abro os olhos pela manhã, lembro de minha avó, a primeira pessoa que amei absolutamente. Volto para aquela tarde, em dois mil e dezoito, quando ainda pensávamos que o mal era coisa que remédio curava. Teria a primeira lesão se aberto ali? Foi naquele hospital, em que minha avó morria sem saber, que a primeira borda apareceu? Ou teria tudo começado quando do relato absurdo de minha madrinha? Sobre o triunfo de futuro mítico que viria pelas mãos de um capitão? Por que minha dinda não me escutava? Desde quando ela havia sido contaminada, que peste sem vacina era aquela que a acometia? Como lidar com uma realidade em que, basicamente, todas as pessoas próximas enlouqueciam? Em verde amarelo, minha avó padecia, enquanto meus parentes também sucumbiam diante de mentiras. No vinte e quatro de dezembro daquele ano, quem éramos nós, senão estranhos num mesmo luto, arruinados pela falta de consenso que invadiu nossos mundos? Trocando presentes de véspera, fingindo que nada acontecia? Posso perdoá-los, mesmo tendo eles colaborado com o estado das coisas em que nos encontramos? O que foi preponderante para o que me aconteceu? A perda de minha avó ou a de uma família como eu a conhecia? Sim, por favor, mais uma vez, peço desculpas pelo tom tão angustiado, aflito. Mas é que precisava, finalmente, voltar à raiz das minhas bordas, mergulhar no leve contraste que se apoderou do meu rosto, durante aqueles meses de dois mil e dezoito. Tratar sobre o tecido que me reveste, pois ele é quem sou, não posso mais ignorá-lo, logo, o mar que o invade também me pertence. Como já mencionei, sou boa em somas, mas preciso aprender a subtrair. Perder o medo de errar, retirar o peso do juízo alheio para, em seguida, tornar-me una, abrigar ambiguidades, já que recusar minha existência não diminui injustiças. E ainda que

somente eu perceba e que muitos neguem, tudo isto existe e escrevo hoje a partir, fazendo esta minha segunda tentativa, cada vez mais branca, rapariga. Suporto então o dicionário, encontro-o, quase no fim. Fascismo. Vitiligo. Ambos presentes. Mas, graças a Deus, apenas o último fez morada em mim.


* A passagem se remete a trecho, encontrado no livro Caderno de memórias coloniais, da escritora Isabela Figueiredo




Renata Belmonte é autora de quatro livros: Mundos de uma noite só (Faria e Silva, 2020), Femininamente (Prêmio Braskem de Literatura, 2003), O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006) e Vestígios da Senhorita B (2009). Doutora em Direito pela USP e Mestre pela Fundação Getúlio Vargas, Renata também atua como advogada.


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