• Capitolina Revista

Paulo Silva




O amigo feliz


Aprendam com o meu amigo, que é feliz de verdade: quando vai ao campo, ele pensa que vai ao campo; quando estuda, ele pensa que estuda e, quando beija, ele pensa que beija; quando viaja, ele cruza qualquer espaço geográfico muito atento ao que vê, o movimento. Ao comer um morango, o seu olhar vê um morango, a sua língua sente o gosto e a textura porosa do morango, a sua doçura azeda – um arrepio na pele. O meu amigo não duvida que a sua percepção da vida cobre-lhe de razão.

Ele crê no que enxerga e assim alcança a plenitude. O morango que ele acaba de engolir numa bocada tem a cor exata de todos os morangos do mundo, tem a precisão universal contida nessa invencível genética. Do cálice ao ápice, o morango carrega o segredo da permanência, da perenidade, da certeza. Eis a única segurança do meu amigo: ver.

À porta do apartamento, com o corpo embreagado de vida feita e chuva, o meu amigo bate os pés no chão e, no fora da casa, deixa uma lama lerda e mal humorada, quase-seca. Com esse gesto, ele evita estragar o lustre do chão limpíssimo, em que uma luz fina e primaveril entra pela cortina pálida e dá ao soalho um brilho de madeira recém-colocada. Agrada-lhe o novo, ainda que apenas na forma de sensação. Feito uma navalha de diamante, o fio solar cruza a pequena sala onde está a poltrona em que, assemelhado a uma pedra e de pés limpos, o meu amigo se deixa ficar – por poucos minutos – a não pensar. É uma alma livre este meu amigo, alma entregue ao sabor de si mesma.

A sua casa não tem livros, nem papel, nem caneta… algumas pessoas pensam que ele não é dado a intelectualidades, mas a verdade mesmo é que ele não quer memórias (sejam suas ou de outrem). E, sabendo do perigo que um ser humano incorre quando o vivido toma forma na palavra, este meu amigo prefere ficar parado em sua poltrona, à espera de que cada marca do dia se esvaia de seu corpo: cada toque, cada desejo ou medo, cada experiência – tudo, simplesmente tudo, vai desvanecendo de seu corpo, essa página em branco. Eu diria que, se ele não fosse ateu, bem poderia ser um monge e até mesmo levitar se quisesse, tamanha era a sua proficiência em apenas estar.

Se tem que chamar alguém, pega o telefone, recolhe do bolso esquerdo algumas frases de bem-querer e as diz sem afetação ou espontaneidade. Antes de terminhar uma chamada, diz “Você tem razão”, “Sim, farei isso” ou “Boa sorte para você também”. Sem crer em nada do que fala, ele fala apenas para apaziguar o mundo, os mitos.

Hoje, por inveja desse meu amigo, tentei comer um morango como quem come um morango. Mas, ao cortar a fruta com os meus dentes cegos, dei por mim a morder a própria língua, mesclando o meu sangue ao vermelho da fruta resignada e morta. Entreguei-me à necessidade de dizer o que senti. Descobri a tolice.

Infelizmente, para mim, tudo sabe à linguagem.



O AUTOR


Paulo Geovane e Silva nasceu em 1985, na cidade de Manhuaçu (Minas Gerais). É escritor, editor, crítico literário e professor. Licenciou-se em Letras pela PUC Minas (2010). É mestre (2012) e doutorando em literaturas africanas de língua portuguesa pela Universidade de Coimbra. Em 2018 estreou na poesia com caída (2018, Editora Letramento) e escreve esporadicamente para o Le Monde Diplomatique Brasil. Radicou-se em Madrid e, atualmente, edita a Revista Ponte.


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