• Capitolina Revista

Paulo Kellerman




Um excerto de Aviões de Papel


Editora Minimalista, 2020



Condução autónoma


- Bom dia, muito obrigada pela vossa atenção. É um enorme gosto estar aqui. Um gosto e um orgulho muito grande, acompanho estas conferências desde o primeiro ano e sempre representaram para mim um momento de deslumbre, de descoberta, de encanto. E de reflexão, principalmente de reflexão. Gosto que me desafiem o pensamento, que me façam pensar. E este ciclo de conferências sempre representou isso para mim. Como se me abrissem uma porta inesperada e além dessa porta vejo uma escada. E sou convidada a entrar e a subir. Bem sei que é uma metáfora muito banal mas gosto de pensar na reflexão como sendo uma escada. Passo a passo, pensamento a pensamento, podemos subir de degrau, de patamar, de nível. Claro que também podemos descer, afinal uma escada tem sempre os dois sentidos, não é? Depende do ponto onde nos encontramos, depende da perspectiva. Os pensamentos podem erguer-nos até ao céu ou fazerem com que desçamos ao inferno. E isto, claro, é uma enorme banalidade. Mas quantas vezes ignoramos, por arrogância ou por receio, as banalidades? Ansiamos pelo sofisticado e desprezamos o banal. Deslumbramo-nos com os pavões e ignoramos os periquitos; mas qual dos dois tem o canto mais bonito? Mas deixemos a zoologia. Na verdade, nem sei se pavões e periquitos têm a capacidade de cantar. De qualquer modo, é esse um dos poderes mais extraordinários da mente: cada pensamento é uma porta que se abre, uma escada que se revela, uma escolha que se impõe. A nossa existência é feita de milhares de pensamentos, ou seja, de milhares de escolhas. E quanto menos controlamos o que pensamos, menos controlamos o que escolhemos. Se é que controlamos alguma coisa. Quereremos controlar os nossos pensamentos? Ou teremos de nos conformar a tentar apenas controlar as eventuais acções que os nossos pensamentos despertam ou provocam? Era sobre isto que vos iria falar, foi essa a minha escolha. Talvez tenham visto no programa das conferências, o tema que preparei para a minha palestra foi: “E se os carros com condução autónoma começarem a ter depressões?” Nada de muito original nisto, velha questão desde sempre abordada. Se criamos máquinas que pensam como nós, é possível que essas máquinas desenvolvam as mesmas características dos seus criadores. Se o criador tem depressões, não estará a criação condenada a também as ter? O meu ponto de partida, mais banal do que sofisticado, é que uma máquina que está condicionada nas suas escolhas, tal como um carro com condução autónoma, poderá vir a desenvolver alguma frustração por estar limitada a um conjunto determinado de escolhas, de hipóteses, de possibilidades. Na verdade, um carro até poderá vir a sofrer com a ironia existente no nome que lhe atribuíram. Que tem ele de verdadeiramente autónomo, afinal? Tal como estes carros, creio que também nós estamos profundamente condicionados nas escolhas que podemos fazer. A liberdade é uma ilusão. O conceito de liberdade é uma criação da mente humana, tal como o conceito de deus. No meu ponto de vista, liberdade e deus são duas fantasias. Teoricamente benignas, porque podem potencialmente aliviar a frustração da existência humana. Aliás, apenas por isso existem: como forma de alívio. Mas não deixam de ser fantasias, conceitos meramente abstractos e teóricos; escadas sem saída. Mas essa é apenas a minha opinião, claro. E uma opinião pouco original. Apesar disso, foi esse o tema que pensei abordar nesta palestra. Mas de repente mudei de ideias. Fiz uma escolha diferente. Uma escolha inesperada. Como se de repente tivesse descoberto uma porta onde antes apenas vira uma parede sólida e irrelevante. Não vou falar dos eventuais paralelos entre um carro com condução autónoma e um ser humano autónomo. Não vou divagar sobre o eventual surgimento, daqui a cem ou duzentos anos, de psiquiatras especializados no atendimento a carros deprimidos. Serão estes psiquiatras humanos ou, eles próprios, carros? Não interessa. Por agora, fechei essa porta. Quero falar de aviões de papel. Ou melhor, quero falar-vos deste avião de papel em concreto. É do meu filho mas pedi-o emprestado. Não tenho filmes ou músicas ou apresentações interactivas, não tenho fogos-de-artifício para vos deslumbrar. Apenas este avião de papel. Ontem estava com o meu filho numa esplanada. Tinha o meu caderno e escrevia algumas notas para a conferência dos carros deprimidos. Ele entretinha-se com um jogo qualquer no telemóvel. Depois, aborreceu-se e pousou o telemóvel. Levantou-se e foi até à mesa do lado. Percebi então que não estava aborrecido, mas subitamente fascinado com algo. Como é possível confundir aborrecimento com fascínio?, perguntei-me. Na mesa ao lado estava um par de idosos. E tinham um avião de papel pousado ao lado das chávenas de chá. Este avião de papel que vos trago. E era isso que estava a fascinar o miúdo. De repente, corei. Será que o meu filho nunca vira um avião de papel? Que diabo de mãe sou eu, que lhe dei um telemóvel sem hesitar, mas nunca me lembrei de o ensinar a fazer aviões de papel?

Disse a mim própria: és pior que um carro autónomo. Mas depois algo bonito aconteceu. O idoso olhou para aquele miúdo desconhecido e aceitou-o instintivamente como neto. Explicou-lhe o que era um avião de papel e para que servia. De seguida, demonstrou como se fazia voar aquela simples folha dobrada e ensinou o meu filho a lançá-lo. Fê-lo com enorme paciência e óbvio prazer. No final, ofereceu-lhe o avião. No regresso a casa, não se calou. Disse-me uma série de coisas bonitas, pensamentos de criança. Crescemos e vamos perdendo os pensamentos de criança, o que também é uma forma de perder liberdade. Afunilamos a nossa forma de pensar, restringimos o nosso mundo mental. E o nosso mundo real. Uma das coisas que ele disse foi: «Oh mãe, o papel é feito de árvores, não é? Já viste que ao fazer voar este avião de papel é como se fizesse voar uma árvore?» Árvores voadoras. Uma tolice que me fez sorrir. Quando é que perdemos a capacidade de ser tolos? Porque não continuamos tolos durante toda a vida? Porque temos tanto medo de ser tolos? Quando foi a última vez que fizeram uma tolice? Lembram-se? Eu tive de pensar um bom bocado para me lembrar. E foi por causa dessa dificuldade que decidi que teria de tentar ser mais tola. Esforçar-me. Claro que tolice pensada, tolice consciente, não é verdadeiramente tolice. Mas talvez seja melhor que nada. E foi então que decidi que hoje iria ser tola. Iria fazer algo inesperado. Iria abandonar o assunto que era suposto abordar. Iria trazer um avião de papel e contar-vos a sua estória. E iria fazer-vos um desafio. Desafiar-vos a serem tolos. Dar-vos essa possibilidade, essa escolha, essa liberdade. Todos vocês receberam uma pasta quando se inscreveram para assistir a este ciclo de conferências. Todos vocês têm essa pasta nas mãos. E dentro dessas pastas estão folhas de papel. Folhas com informações, com publicidades, com programas. E folhas brancas, onde podem escrever. Tomar notas. Ou fazer desenhinhos, daqueles que todos fazemos quando estamos a sonhar acordados. O meu desafio é que peguem numa dessas folhas, a dobrem para formar um avião de papel. Todos sabemos fazer isso instintivamente, todos sabemos transformar uma folha de papel em avião. Porque será? É essa a minha tolice. Façam um avião de papel, agora mesmo. Atirem-no. Sorriam.

Estão mais de quinhentas pessoas no anfiteatro. Algumas sorriem, algumas aplaudem, algumas permanecem em silêncio. Poucas fazem aviões de papel e, dessas, só meia dúzia os lançam. Nunca imaginou que aquele anfiteatro se enchesse com quinhentos aviões de papel; na verdade, não imaginou nada de concreto. Que existam ali meia dúzia de tolos não lhe pareceu bem nem mal. Talvez sejam verdadeiros tolos, talvez pessoas boas que tiveram pena dela e quiseram ser solidárias. Por um motivo ou

por outro, alguns aviões voaram e depois aterraram; para permanecerem onde estavam; inúteis. Nos bastidores, um dos organizadores elogia-lhe a intervenção enquanto sorri. Um sorriso falso, hipócrita. Feio.

Regressa a casa com pressa. Pressa de chegar. Pressa de devolver o avião ao filho. Pressa de ser tola com ele. Pressa de receber um sorriso verdadeiro. Pressa de sorrir. Pressa de se sentir livre, apesar de saber que a liberdade é uma ilusão.

Talvez a liberdade seja simplesmente isso: um sorriso. Pensa ela.

E depois acontece o acidente. Não tem tempo para pensar: e se estivesse num carro de condução autónoma, ocorreria o acidente na mesma? Não tem tempo para nada. De qualquer modo, seria um pensamento tolo.


O AUTOR


Paulo Kellerman (Leiria, 1974). Além de numerosas edições de autor, colaborações na imprensa portuguesa e participações em antologias literárias (em Portugal mas também no Brasil, em Espanha, em Itália e em Marrocos), publicou livros de contos, romances, livros infanto-juvenis, peças de teatro, livros ilustrados e ensaios. Tem sido responsável pela concepção e dinamização de inúmeros projectos em colaboração com fotógrafos, ilustradores, músicos, actores, realizadores, arquitectos, escultores ou pintores. Entre outras distinções, recebeu o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. Publicou o romance AVIÕES DE PAPEL na Minimalista.

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