• Capitolina Revista

Paula Parisot


MY SWEET QUARENTINE



Acá estoy em Buenos Aires committing to a task that seems big and impossible.

Já são 150 dias de quarentena na Argentina. A quarentena mais longa do mundo anuncia o noticiário. No principio vi meus planos cancelados, em suspenso, demorei para aceitar o novo ritmo: sem planos, datas, viagens, horários. Hoje o único que me resta é ir levando, um dia de cada vez, não porque me parece sábio - o velho cliché: viver o presente, aproveitar cada momento - nada disso, vivo o presente porque não sei qual será o futuro.

Acá estoy em Buenos Aires isolada no meu próprio labirinto, na minha paz e no meu desespero, com meus fantasmas e minha ingenuidade. Enquanto isso o vírus segue assombrando o mundo enquanto se espera a chegada da vacina. Mas este é só o começo? Virão outros vírus? Viveremos de pandemia em pandemia? De quarentena em quarentena? Ou por agora, será somente este vírus que mata, mas não mata a tantos? Morre-se mais pela falta de leitos nos hospitais, de respiradores, de comida, de trabalho, de saneamento básico, pela falta de dignidade em que vive grande parte das pessoas no mundo. Morre-se mais pela violência de gênero, mulheres em quarentena com seus agressores. Este vírus que mata, mas não mata a tantos, paralisa a economia global e joga na nossa cara a renda mal distribuída, poucos gigabilionários que juntos tem mais dinheiro que metade da população mundial, este vírus que arranca a mascara dos governos que investem em armamentos, roubam e cortam verbas para saúde, a mudança climática é evidente, mas seguimos queimando florestas e extraindo petróleo. Tenho pesadelos, outras noites um sono profundo, sonhos, premunições, não sou religiosa, mas agora em silenciosos e inconfessos ataques barrocos agradeço genuinamente por ter comida, casa, saúde, filhos na escola. Que felicidade ter meu apartamento e uma casa a 45 minutos da cidade onde tenho verde, rio, capivaras, lebres e outros bichos que não reconheço que vem nos visitar. Ter uma casa, deitar-me na grama e sentir o sol. Agradeço. Penso nos que estão sem emprego, sem comida, sem casa, sem escola, sem hospital, sem o que todos deveríamos ter. São tantos, muitos, milhares que sempre estiveram nesta situação, mas agora tudo parece pior. Vemos tanta tristeza se decidimos prestar atenção. Vemos tristeza, desamparo, desespero nos outros e os outros provavelmente também veem em nós, basta prestar atenção.

Acá estoy em Buenos Aires isolada no meu labirinto com todo o tempo do mundo. Não tenho dúvida poderei fazer absolutamente tudo que não conseguia fazer antes: terminar um livro de contos e um programa de televisão sobre artistas argentinos, terminar a revisão do meu livro infantil que está pronto, escrito em português e agora traduzo ao espanhol porque será publicado neste idioma. Para ilustrar o libro desenho uns cem gatos em diferentes estilos e não consigo decidir porque o meu gato favorito não combina com o elefante que mais gostei, que não combina com nenhuma das 20 girafas que nada tem que ver com a arvore que é a personagem principal. Então passo horas digitalizando desenhos, salvando, nomeando arquivos e quando começo a trabalhar no Photoshop chego a conclusão de que o problema é que eu não domino o Photoshop e por isso fica tão complicado organizar o livro como imagino. Então me inscrevo em um curso de Photoshop online. No meio disso faço filmes com o meu celular e trabalho por Zoom com um editor porque quero fazer uma vídeo instalação para a minha individual Literatura del yo que foi cancelada e só abrirá em agosto de 2021 na BIENALSUR. E como diz o titulo escrevo uma autoficção em imagens, pinturas, esculturas, desenhos e poucos textos que na quarentena vão se transformando, proliferando. No isolamento viajando pelo meu labirinto de escolhas, acontecimentos, do que foi, o que não foi e do que talvez tivesse sido, por um lado ou pelo outro, mas olhando de cima, em perspectiva, o caminho percorrido, me assombro, tudo era tão evidente. Como eu não percebia? No momento não podia ver, entender. Ou nada era tão evidente como me parece hoje? Será que entendo o que vivo agora? Não consigo fazer tudo o que planejava, me distraio, me perco no meu labirinto. No trigésimo sexto dia da minha sweet quarentine morreu Rubem Fonseca, uma das pessoas mais importantes da minha vida. Pelo menos me despedi dele nesta manhã, por telefone. Uma semana depois ele veio se despedir de mim, num sonho, mas ao acordar tive a certeza de que ele estava ao meu lado sentado na beira da minha cama. É importante falar com fantasmas.

Acá estoy em Buenos Aires. Quieta, muito quietinha, porque às vezes dói. Tantas coisas doem. Tantas coisas trazem alegria. Faço 2 quadros grandes por encomenda, primeira vez que aceito fazer algo assim. Filhos estudando em casa, as classes online exigem demais de mim que tenho que atuar de professora, uma função que pode me levar aos berros ou me dar a tranquilidade de que estou acompanhando os meus filhos. Varia. Depende do meu humor e do deles. Mas disfruto estar com eles, ler com eles, desenhar, fazer bichos de papel, assistir filmes, jogar cartas, porque daqui uns anos, quando eles forem grandes, vou lembrar com carinho de que não houve época que eu tenha passado mais tempo junto deles.

Sigo acá em Buenos Aires committing to a task that seems big and impossible.

A clausura me coloca em um novo ritmo. Estou tranquila, mas, de repente, me dá cinco minutos e penso que vou enlouquecer. Posso sentar-me no sofá e ficar olhando para a parede porque não consigo fazer nada, todo um dia de pijama sem me pentear.

Angústia existencial? Realidade? Respeito minha necessidade de pausar, mas de repente, o nervosismo, a angustiada. O mundo segue, penso, por mais que o tempo e o espaço pareçam estar alterados desde minha casa, do meu próprio labirinto.

No future, diziam os punks, escreve Maria Moreno num artigo de jornal. No future, me coloco a escutar o Sex Pistols cantando. No future. Pandemia, racismo, feminicídio, transfeminicídio, pedofilia, arrogância, corrupção, violência, suicídio, intolerância, medo, tristeza, depressão, desespero, sangue, vermelho, dor, uma dor profunda que dá voltas ao redor do planeta e se mistura às minhas memorias que dão voltas dentro de mim que há 150 dias vivo no interior do meu interior, separada mas virtualmente conectada a todos, online, subjugada a um tecnototalitarismo onde a inteligência artificial e a captura de dados e sensações se tornam a realidade diária - sem tato, sem pele, sem poder dividir o ar que respiramos, atrás de mascaras, fechados em casa. Enquanto isso os patos podem atravessar a Avenida Libertador a poucas quadras do meu apartamento, recebo um vídeo dos patos passeando por whatsapp. A vida online. Mas e o corpo? O que fazemos com o corpo? O que fazemos com a fome? O que fazemos com o sexo? Quando voltará o tête-à-tête, o rendez-vous, o vis-à-vis, o abraço, o beijo, o beijo de língua, o blind date, a one night stand, o voullez-vous cocher avez moi ce soir? O que fazer com o desejo? Com o sexo? Com a fome? O corpo tem fome. O corpo não é virtual. O corpo não é ficção. A realidade não é uma ficção por mais que alguns acreditem neste giro linguístico. Na realidade existe o corpo. Tenho um corpo que sente fome e se tenho fome preciso comer, se tenho sede preciso beber e se você me mata eu morro. Na ficção podemos ressuscitar, viver estando mortos, mas na realidade se eu te mato, você morre. O giro linguístico esqueceu do corpo. Será que a potencia do corpo nos salvará? Será que nos trará novas possibilidades econômicas, sociais, culturais e estéticas? Como vamos perceber o corpo do outro nas ruas e na cama quando passar tudo isso? Teremos medo do corpo, do toque, dos lábios do outro? Ou passará justamente o contrário? A vida online será a lembrança do vírus, da realidade angustiante? Poderemos criar uma nova consciência que nos permitirá uma relação amistosa com humanos e não-humanos? Alguém pode sentir-se bem se a sociedade está enferma? Será essa a nossa chance de apostar no coletivo? Quem decide como vai ser daqui em diante?

Texto escrito em Buenos Aires, 15 de agosto de 2020.


A AUTORA

Paula Parisot nasceu no Rio de Janeiro e vive em Buenos Aires. Escritora e artista visual. É autora dos livros A dama da solidão (finalista do Prêmio Jabuti), Gonzos y Parafusos e Partir e organizadora de antologias sobre literatura brasileira contemporânea como La Invención de la realidad (Cal y Arena, Mexico). Seus livros e contos foram publicados em diferentes países. Parisot é  co-criadora (com Jessica Mitrani) e apresentadora de A Crucigramista (ARTE1 - Brasil, canal 180 - Portugal e canal 22 - México), um panorama da arte na América Latina. Instagram @paulaparisot

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