• Capitolina Revista

Para costurar melhor o agora

texto de Liliane Prata




Quando o arroz deu errado, ela se sentou no chão da cozinha, a cerâmica mais fria que no dia anterior, que nos meses anteriores, que em todos os anos que cabiam naquele dia naquele apartamento, e largou o pano de prato como quem se demite de um sonho. Olhou o pano, a casinha bordada pela avó, e por um instante desejou ter aprendido a bordar casinhas, não aprender, mas ter aprendido, agora lhe soava tarde demais. Ela olhou o relógio na parede e todas as posições dos ponteiros lhe pareceram tarde demais.

Justo ela que só queria um arroz correto, um arroz como o da avó, a avó que bordava. Branco, cheiroso, quente, salgado na medida certa, soltinho, isso, importante, soltinho: não é isso que esperam do arroz, que ele seja soltinho? Havia acordado com esse espírito, o espírito de quem sabe o que é esperado do arroz e que, mais do que isso, sente-se capaz de oferecer isso ao arroz: o espírito de quem sabe o que querem e está pronta para oferecer, oferecer sem nenhuma vontade oculta ou ressentimento, apenas naturalidade sem ambição, apenas entrega inocente de si. Que espírito maravilhoso! Não livre, mas talvez feliz, e isso parecia ser suficiente: quem anseia pela liberdade senão os infelizes? De manhã, tomando café, ela ainda era essa outra, essa estranha, essa que se julgava apta a entregar ao arroz sua arrozidade; faltava muito para a hora do almoço, mas a sensação de capacidade já a preenchia e foi lhe dando a força necessária para tirar a mesa, lavar os pratos, varrer a casa, passar um pano com água morna e detergente no piso, responder e-mails e atravessar o isolamento e transformar o isolamento em solidão, a mais sincera e urgente solidão. O isolamento vinha dos dois quartos vazios, do outro lado da sua cama, entrava por baixo da porta da sala: a casa estava infestada havia tempo. Seu cheiro vencia o do detergente, o apartamento inteiro fedia a separação. Talvez a solidão não tenha cheiro, mas a divisão, a ruptura exalam o cheiro típico da mágoa, ela sabia, ela não conseguia se livrar disso, mas ela sabia... O cheiro impregnado nas roupas, nos objetos, nas narinas e em todos os orifícios, o isolamento seria a mercadoria mais rapidamente transportada para o seu próximo endereço, ela tinha certeza disso, embora naquele momento feliz no café, naquela simulação de alegria, ela estivesse convicta de que o perfume do arroz soltinho voaria da cozinha e tomaria todos os cômodos e a livraria de todos os muros, ah, como eram bons alguns cafés da manhã, como eram doces os que tentavam, com a melhor das intenções, espalhar manteiga muito além da borda dos pães.

Ela descascou e picou finamente a cebola, e nada a faria chorar naquele momento: enquanto a faca subia e descia, a esperança era o que inundava suas vias lacrimais, e o apito da chaleira onde fervia a água soou com a convicção de cada verso de um hino. Ela desligou a chama, aqueceu um fio de óleo em uma panela sob fogo baixo, dourou as cebolas até murcharem, acrescentou o arroz, mexeu bem, derramou a água da chaleira, salgou, aumentou o fogo para médio e sorriu: agora era só aguardar.

E então ela saiu da cozinha tão certa de tudo, ela foi ao banheiro, escovou os dentes, ajeitou o cabelo, trocou de roupa, leu qualquer coisa no celular e negou o cheiro de queimado que começava a sentir, mas ela negava ao passo que andava, ela negava e dava um passo em direção à cozinha, negava e dava outro, e mais um, e mais outro, em um tipo de negação móvel, presente na cabeça, ausente nas pernas. Às vezes, ela sabia, as pernas são mais sábias que a cabeça, e nesses momentos ela admirava a beleza simples dos seus pés.

Quando desligou o fogo, ela sentiu algo se apagando dentro de si, e por isso foi murchando como as cebolas de meia hora antes, murchando, murchando, até sentar no chão mais frio do que nunca, naquele apartamento que agora cheirava a fronteiras e a queimado. Que cheiro invadiria os cômodos depois daquele? O que há depois do isolamento? À sua frente, o pano de prato, com a casinha bordada pela avó, com a casinha que ela queria ter bordado lá atrás para costurar o melhor agora, para costurar melhor o agora.


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Liliane Prata é jornalista e escritora. Já foi editora de comportamento das revistas Capricho e Claudia, da Editora Abril, e atualmente trabalha como autônoma, escrevendo e dando cursos. Esse é seu nono livro de ficção, sendo o primeiro de contos. Pela Editora Instante, também lançou seu livro de não ficção, O mundo que habita em nós: reflexões filosóficas e literárias para tempos (in)tensos. A autora compartilha suas reflexões no Instagram @liliprata, no youtube.com/canaldalili e no podcast Proibido Fritar Pastel.

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