• Capitolina Revista

Olinda Gil

Updated: Apr 2




POESIA


Às vezes sabe bem

estar sem ti.

descansar um pouco

da tua existência.

Mas só

se te souber bem entregue.

Porque senão o nó,

aquele nó,

não me deixa respirar.



***


Eu era a loba feliz

Queria sair dali a correr

Gritar para o mundo:

Do meu corpo saiu outro corpo

Eu sou a terra e ele é a flor.


Precisava do meu ninho

Para construir o nosso amor.

Eras tão meu como qualquer um dos meus membros.

Hoje tu és eu, a minha vida.

O sentido que a vida antes tinha, perdi-o.

Nem me consigo lembrar do que era.


No dia em que nasceste,

Nasci eu também.


***


Ouço o pulsar dos tambores

Que ecoam em noite de festa

As crianças pedem desejos inocentes,

Os jovens amantes enroscam-se no amor,

As fogueiras ardem até se extinguirem.

A madrugada é fria e branca,

Mas há um calor que vem de dentro,

Que me enamora a mim e aos outros.

Corre vida no meu corpo outra vez.

É essa a minha fogueira,

Que me aquece e arrepia.





MEU FILHO, MINHA MEDITAÇÃO


No silêncio e no escuro

Sinto o corpo teu e respiro calma

Sinto o teu peso nos meus braços

E esqueço que há passado e futuro

Concentro-me no teu corpo e no teu peso

E esqueço que há mundo para além disso

Esqueço até que existo: porque quero.

E naquele momento só existes tu

E eu sou o teu corpo e o teu peso

Encostas a tua cabecinha no meu ombro

E sinto um prazer imenso

Porque tu és a minha meditação

Quero gravar este momento,

Quero fazer este poema

Tenho medo de perder a memória

De ti, bebé, pequeno, meu e único

Tenho medo de não saber viver o momento.

Tenho medo de tudo.

Preciso de voltar a esquecer.

Esquecer que não és meu, que és do mundo

Esquecer que somos dois e que te estou a adormecer

Tenho de voltar a sentir

O teu corpo e o teu peso no meu colo,

Minha meditação

Volto a esquecer que o mundo existe,

E o passado e o futuro.

E voltamos os dois a ser uma estrela no vácuo

E volto a sentir um prazer imenso

Por te ter no meu colo

De cabecinha encostada ao ombro

A adormecer.


Quero dançar

Como se tivesse uma serpente

Dentro do corpo.


Quero dançar

Músicas que vêm

do interior da terra.


Do meu corpo

Vem alegria e força

Que desconheço.


Oculta, uma vida

Se gerou. Na gruta,

A vida se desenvolveu,


Até que deu de si.

Dançou no meu corpo

E eu senti.



A AUTORA


Olinda Gil é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e mestre em Ensino do Português e das Línguas Clássicas. Iniciou a sua prática de escrita no "DnJovem", suplemento do "Diário de Notícias". Colaborou em diversas coletâneas e publicações, e foi 3º prémio do concurso literário "Lisboa à Letra" em 2004, na categoria de prosa. Em 2013 editou, a título independente, “Contos Breves”, e “Sudoeste” (Coolbooks, Porto Editora, (2016, 2014 em ebook) e “Sobreviventes” (2017, 2015 em ebook). Escreve no blogue www.olindapgil.blogspot.com

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