• Capitolina Revista

Nuno Gomes Garcia - As personagens da minha vida




“Madame Bovary, c’est moi”, disse Flaubert.


Mais de 150 anos depois da sua publicação, o romance de Gustave Flaubert continua a ser essencial e a sua protagonista, Emma Bovary, é, ainda, o arquétipo da mulher que luta pela emancipação ao mesmo tempo que se encontra asfixiada por uma sociedade que lhe é hostil. O fim trágico de Emma é, ainda, o fim trágico que espera muitas, demasiadas, mulheres do nosso tempo. Hoje, como há um século e meio, a sociedade ocidental idealiza uma mulher que tenha um homem ao seu lado e que tudo faça para não o ofuscar, profissional e sexualmente. Que seja atraente e sedutora, mas sem parecer extravagante ou se dar a “ares de putéfia”. A mulher, segundo esse ideal opressor, deve gerar filhos, afinal a perpetuação da espécie depende dela, mas mantendo-se sempre elegante e magra, cheia de curvas voluptuosas tal qual aquela revista de moda repleta de corpos irrealistas que todos nós já vimos e que ajuda a eternizar o estereótipo.

O que se pede a uma mulher é o que jamais se pediu (ou pede) a um homem: o impossível.

Emma é então o paradigma da mulher burguesa do seu tempo. Leitora compulsiva de literatura de cordel, ela “vive” através dos romances que lê aquilo que não pode viver por ela própria, em carne e osso, pois, na vida real, rotineira à décima potência, a esposa de Charles Bovary, marido que não ama, deve, como todas as mulheres, suportar o tédio que a vai matando, apagar-se, acostumar-se àquela perpétua insatisfação que a tolhe, esquecer o próprio nome e adotar o do homem a quem pertence como se o possuísse desde o berço.

Emma representa a “desmulherização” da mulher e, em simultâneo, corporiza o primeiro grande grito da revolta feminina na Literatura francesa a ser verdadeiramente escutado. Todas as ações de Emma são um bradar por socorro. O seu desespero existencial, a sua vontade de libertação disfarçada de aspirações fúteis ou desejos supérfluos, leva-a a cometer o pior dos “crimes”: o adultério passional. “Crime” que, ainda hoje, é mais ou menos tolerado quando perpetrado pelos homens e inconcebível quando praticado pelas mulheres.

“Madame Bovary”, o romance, e Emma Bovary, a protagonista, são duas peças intemporais de leitura obrigatória. E são-no por uma simples razão: as mulheres continuam a ser discriminadas.


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O AUTOR

Filho de um pescador da Nazaré e de uma operária de Matosinhos, Nuno Gomes Garcia nasceu em 1978 e passou a infância a ler os livros da pequena biblioteca do seu tio sapateiro, um pequeno tesouro repleto de Verne, Hugo e Dumas. Estudou História e Arqueologia no Porto e em Lisboa como trabalhador-estudante. Dirigiu várias escavações de norte a sul do país. Quando estava a preparar a sua inacabada tese – um estudo sobre a sociedade Muzungo do vale do Zambeze –, conheceu a mulher com quem viria a casar. Ela, uma médica a viver em Vilnius,

e ele, um arqueólogo a viver no Porto, a estudar em Lisboa e a trabalhar em Serpa. Resolveram então encontrar-se a meio do caminho e foram viver para Paris. Os seus dois filhos nasceram na capital francesa. Hoje, com 7 e 9 anos, eles falam quatro línguas.

Em 2012, publicou “O soldado Sabino”, traduzido e publicado em França. Em 2014, foi finalista do Prémio Leya com “O dia em que o Sol se apagou” e, em 2017, publicou “O Homem Domesticado”, romance a ser lançado em França em 2021. Publicou no mês passado mais uma distopia: “Zalatune”.

Nuno Gomes Garcia mantém igualmente uma atividade como consultor editorial e divulgador, em França, da literatura lusófona na rádio e na imprensa escrita.

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