• Capitolina Revista

Natan Barreto




Raízes ósseas



Os dentes nos lembram,

quando mordem,

ou mesmo quando sorrimos,

que somos ossos

e já estamos mortos

debaixo da carne,

barro que nos cobre

de buscas e abraços.


Por mais que o sangue flua

é nua toda ilusão:

o silêncio cai no dito,

lágrimas secam nos cílios,

todo canto enfim descansa –


nossas raízes são ósseas.


Na boca, o sorriso é cerca,

sem arame, só farpas,

que nos apartam e aproximam

do porvir

(que vem).

Na maçã mordida, a morte

da carne de quem a mordeu.


Fomos plantados

em nós.

Aqui jaz o que já fomos.

Carregamos o oco

enquanto dançamos

ao sol

e vamos

inventando passos

pelas sendas do sempre.


****


Ouça primeiro o silêncio



Ouça primeiro o silêncio –

a música é dele somente.

Não tenha anseio por notas

nem melodias que espelhem.

Palavras não cace: cale-se.

Deixe que o nu se desnude

e saia de dentro da ausência,

qual pétalas de rosa ao azul

(acesas sem sombra ou luz)

na concha em que tudo ecoa.

Não busque o som que em si nasce

nem prenda o que se desprende.

Ouça primeiro o silêncio –

a música é dele semente.

É dele que brota o que entra

no fora que ancora as manhãs.

Na água em que jorra o que é tempo

semeiam-se em hoje ontens.





****




Meio-irmão



Meio-irmão,

metade da terra

à planta,

volta tanta

dada ao tronco

que canta

em seu corpo

o nó

do homem

que nos fez.


Passos da história,

que a tarde evapora,

do chão da carne

sua.


Inteiros dormem

os olhos,

em meio à manhã

que nos acorda,

madura de chuva

e sal,

molhada de um mim

de um pai

tão além da luz

da minha

(não nossa)

mãe.


Meu irmão,

solidão.

Tristeza a subir

de um cigarro,

nuvem que às cegas

envolve

a noite que sobe

quando as pedras

caem.


E um menino

falava o azul

de lábios

que entravam no tempo

ao sol de um momento

em nós passado

a limpo.


****


O AUTOR

Natan Barreto nasceu em 1966, em Salvador. Em 1990, formou-se em Interpretação Teatral pela UniRio e passou a morar na Europa. Viveu em Paris e Roma, e está radicado em Londres desde 1992. É tradutor e intérprete formado pelo Institute of Linguists, e professor primário pela London South Bank University. É autor dos livros de poesia Sob os telhados da noite (1999); Esconderijos em papéis (2007); Movimento imóvel (2016), que recebeu uma Menção Honrosa da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro; Bichos: poesias desenhadas (2017); Um quintal e outros cantos (2018), que venceu o Prêmio Sosígenes Costa de Poesia, concedido pela Academia de Letras de Ilhéus; e O ritmo da roda: poemas fotográficos (2019). Publicou também Quase-sonhos & Traduzido da noite (2009), edição bilíngue – francês/português – de poemas de Jean-Joseph Rabearivelo, escritor de Madagascar; e a biografia Entre mangueiras: a vida de Eunice Palma (2011).

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