• Capitolina Revista

Natalia Timermam

GRAÇA




Estávamos bêbadas quando tocou She´s like a rainbow no bar escuro de Praga. Talvez por isso eu tenha me perguntado por onde, nos labirintos da minha memória, andava essa canção: não me recordava de nenhuma situação em que a tivesse escutado e, no entanto, me era familiar. O dia tinha sido cansativo como todos os dias em todas as viagens de turismo, mas de um cansaço alegre, condizente com a música, com nosso espírito, com ter a noite e o futuro em aberto, ter dinheiro para seguir viagem, para a próxima cerveja. Ainda assim, soou bem quando aquela mulher loira, de uns quarenta e poucos, que tínhamos acabado de conhecer, nos convidou para outro bar, dizendo ao sorrir que era mais animado e que, se mentíssemos ser nosso aniversário, ganharíamos bebidas de graça.

Juliana me olhou, numa tentativa de perscrutar minha vontade, de combinar entre nós antes de abraçar o convite, mas eu já o havia aceito. Era nossa última noite na cidade de Kafka e eu parecia habitar a canção dos Stones, me levantei do banco no balcão, tirei o casaco ao invés de o colocar ― a loira tinha estranhado meu casaco verde, recém-adquirido, dizendo-o muito quente para o verão tcheco, ainda que atipicamente fresco, e eu senti alguma vergonha do frio que não sentia.

A loira não parava de falar enquanto nos guiava pelas ruas escuras mas movimentadas do centro efervecido pelo verão. Juliana e eu escutávamos e respondíamos quando ela perguntava alguma coisa sobre o Brasil, sobre nossa viagem, sobre o futuro ― não precisávamos pensar muito para manter acesa a conversa com aquela mulher, não precisávamos pensar muito para entabular qualquer diálogo tão típico em plena viagem, felizes que estávamos em habitar o clichê que proferíamos em palavras.

Logo chegamos ao bar, tudo parece perto e certo quando se está embriagada. Havia fila na porta, Juliana me mirou de um jeito inquisidor quando a procurei com os olhos, fila?, a noite está tão bonita para desperdiçá-la enfileirada na porta de um dos tantos bares daquela e de todas as cidades, mas a loira disse, adivinhando o que dizíamos em português, que as pessoas entravam rápido e que parecia mais gente do que de fato era. De fato entramos rápido no ambiente escuro e barulhento e vazio que era o primeiro recinto daquele lugar, e logo fomos pegar mais um drinque, e a loira disse de novo que a gente podia dizer que era nosso aniversário e ganharíamos bebida de

graça. Juliana perguntou se eles não pediam documento enquanto eu dizia que sim, ok, pra quem eu falo que estou comemorando hoje meu aniversário de trinta anos?

Ela nos levou ao próximo recinto, cujo bafo quente e esfumaçado sentimos antes de entrar. Na minha memória, as pessoas todas se vestiam de preto e conversavam suadas ruidosamente, na minha memória o casaco verde que eu segurava na mão era o único ponto colorido.

A loira gritava algo para um homem no balcão apontando para mim, que nem tentava entender e sorria acenando com a cabeça. Ela me disse que eles me chamariam quando fosse a hora de cantar os parabéns.

Depois, horas normais num bar normal, com música alta e pessoas mais pra jovens fumando, dançando e gritando para se comunicar. Ou talvez aquelas pessoas todas que se vestiam de preto não fossem mais tão jovens assim, talvez fossem falsos jovens, como a loira, que já não era mas parecia ser, por algum tipo de disponibilidade inapreensível, algum tipo de abertura, de disposição à embriaguez e ao sexo e a conversar com estranhos, uma espontaneidade, uma instabilidade, uma insuficiência. As pessoas gritavam para se comunicar. Não sei quanto tempo exatamente se passou, os relógios, principalmente os de Praga, sempre cessam de bater dentro de um bar.

E então os garçons começaram a gritar e cantar dentro do balcão fazendo uma coreografia como se de repente tivéssemos caído numa lanchonete estadunidense dark, e a loira me cutucou e disse que era agora. Procurei Juliana enquanto abria caminho entre as pessoas mas não a encontrei, o homem com quem a loira tinha falado fez um gesto para que eu abaixasse e, segurando meu braço, me fez passar por baixo para o outro lado do balcão.

Foi tudo muito rápido. A musiquinha continuava e agora as pessoas todas se amontoavam batendo palmas diante do balcão, enquanto eu, do outro lado, tinha meus braços e pernas amarrados com força, bem abertos, com faixas que aquele homem tirou sei lá de onde. Ele era baixo e atarracado, tinha os cabelos castanhos lisos cortados rente ao crânio, as mandíbulas fortes, como se estivesse sempre mordendo alguma coisa. Havia nele alguma beleza, alguma simetria, os gestos certeiros. Ele pegou uma garrafa com uma bebida qualquer e abriu a boca, me indicando que fizesse o mesmo, as pessoas em volta batiam palmas, eufóricas, talvez houvesse gritinhos, a música alta não me permitia escutar. Engoli o destilado ácido que ele colocou em cima da minha língua e senti uma dor aguda e lancinante no quadril direito que se espalhava num arrepio de horror por todo o meu corpo. Imediatamente associei a dor ao som que destoava, abria caminho num estalo

por entre o som alto que ocupava tudo, um som agudo, forte, curto, de algo se chocando rápida e secamente em outra coisa, o som de um chicote açoitando o meu quadril. Só de lembrar, minha pele se arrepia novamente, como se, mesmo sem a dor, a reação a ela continuasse pronta em algum lugar dentro de mim, só esperando ser solicitada. Olhei para o homem, que, impassível, me chicoteava novamente no mesmo lugar enquanto as pessoas aplaudiam, e a mesma dor, o mesmo calafrio que a espalhava por cada célula do meu corpo. A terceira chicotada foi do lado esquerdo, e nessa hora encontrei Juliana no meio daquele amontoado gritante de gente com desespero nos olhos, tentando se comunicar comigo, tentando entender, tentando gritar um grito que não se juntasse ao coro que estimulava que as chibatadas continuassem. What are you doing?, eu consegui dizer, mas a música escondia minhas palavras, minha voz, a música só não escondia o som do chicote que estalava tão forte por cima da minha roupa que era como se eu estivesse nua, como se rasgasse, ao cantar sua música de dor, a minha pele. As pessoas aplaudiam e gritavam dançando ao som da música alta. Eu tentava desfazer os nós que me prendiam, eu dava trancos com os braços e as pernas abertos, amarrados, mas quanto mais força eu fazia para sair, mais forte os nós me agarravam.

O homem fez sinal para que eu abrisse a boca novamente e eu abri. Sem pensar, como se fosse uma decisão tomada pelo meu corpo, pela minha dor, assim que ele afastou a garrafa que tinha acabado de entornar na minha goela eu cuspi o líquido de volta na cara dele. Se eu tivesse mais, cuspiria mais, se houvesse todo um litro daquela bebida à minha disposição eu cuspiria cada mililitro na cara daquele homem, cuspiria na cara das pessoas que gritavam, gritaria eu tão alto que as calaria, faria minha voz de desespero se sobrepor às delas, ao barulho ensurdecedor da música. Eu estou apanhando na frente de vocês. Eu estou sendo chicoteada e vocês comemoram como se estivessem diante de um episódio de beleza. Eu odeio vocês, odeio este homem que agora me olha com raiva e indignação e fala coisas na sua língua incompreensível, como se o absurdo da cena toda se resumisse ao líquido que ele tenta secar da própria cara e não comportasse as imensas marcas roxas, os vergões avermelhados com um grande centro escuro, quase preto, que eu agora tinha por debaixo da roupa mas só conseguiria ver mais tarde, já no hotel, quando só então choraria.

Talvez por raiva, talvez porque o show já tivesse terminado, ele me desamarrou. Voltei para o outro lado do balcão, e foi fácil achar Juliana: a pequena multidão já tinha se dispersado.



A AUTORA

Natalia Timerman é escritora, psiquiatra pela Unifesp, mestra em psicologia e doutoranda em literatura pela USP. Cursou a pós-graduação em formação de escritores do Instituto Vera Cruz. É autora de Desterros - histórias de um hospital-prisão (Editora Elefante, 2017) e da coletânea de contos Rachaduras (Editora Quelônio, 2019). Seu próximo livro, um romance, sai em 2021 pela Todavia. 

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