• Capitolina Revista

Maya Falks




O homem dos pássaros



Nos tempos de eu moleque, mamãe mais eu vivia numa cidade dessas que nem ousa existir no mapa. Dividia uma casinha bem simples pros lados de trás da igreja que tinha uma cama com colchão de palha e um sofá de dois lugares onde eu comecei pequeno e terminei me espremendo até que o fogo levou tudo. Mas isso já é outra história porque o causo que eu quero contar é do velho doido da praça.

Doido, dooooido mesmo era não, era só um solitário que gostava de ficar ali, ao redor do velho chafariz alimentando pombo e soltando a passarada que comprava nas lojas de bicho preso. Mamãe tinha dois empregos, nas duas docerias da cidade separadas por uma farmácia. A gente dizia que a farmácia tava ali pro povo se entupir de doce na confeitaria da Dona Isaura, tomar remédio pra digestão e se entupir de doce na confeitaria da Dona Esmeralda.

As duas eram irmãs brigadas. Mamãe trabalhava pra elas quando era uma só, daí separaram e meteram mamãe de manhã numa e de tarde noutra. O salário quase dobrou e deu pra comprar fogão pra casa, pra ela fazer doce de noite pra eu levar pra vender na beira da estrada. A ideia era comprar uma cama pra mim, mas no fim o dinheiro nunca foi o bastante.

Não tinha escola por ali nem eu tinha como deixar de vender doce pra mamãe, então o jeito foi aprender as letras com as filhas da Dona Esmeralda e deixar o resto por isso mesmo. Quando sobrava tempinho na lida dos doce, ensinava as letras pra mamãe, que por pouco não morre analfabeta.

Quando terminava os doce, eu ia pra praça esperar terminar o dia de mamãe também, pra gente ir junto pra casa catando tempero e fruta no caminho. Foi nessas minhas estadas na praça junto com os banhos no chafariz que eu reparei no velho lá sentado. No primeiro dia fiquei olhando de longe ele jogando grão pros pombos e eu doido de vontade recolher os grãos do chão e levar de presente pra mamãe.

No terceiro dia foi que vi ele saindo da loja de bicho com duas gaiolas. Largou as duas no banco e abriu as portinholas. Foi fácil não controlar o grito pra avisar o velho que os passarinho ia fugir tudo, foi aí que corri pra loja, achei que um adulto faria melhor serviço.

- Seu Tadeu, o velho abriu as portinhola! Os bicho vão sair voando!

- Se preocupa não, filho, o véio é doido da cabeça. De vez em vez ele vem, compra uns passarinho e solta na praça. Nem me importa, ele paga à vista, tudo direitinho.

Saí intrigado, mas achei por bem não contar nada pra mamãe com medo que ela me proibisse de ficar na praça no resto do dia. Eu gostava de lá, de ver as pessoas andando, cada uma concentrada nas suas tarefas. Além disso, em casa não tinha luz e eu tinha medo de mexer na lamparina e meter fogo em tudo. E bom, demorou um tanto, mas no fim foi o que aconteceu mesmo. Mas isso é outra história, agora é o causo do doido.

Tinha na casinha de cocô lá de casa um tantinho de espelho onde vi um risco no meu queixo. Achei que me nascia barba e me senti homem feito. Depois da venda dos doces na estrada, tomei coragem de adulto e sentei do lado do velho. Fiquei lá tempinho olhando os lados como quem tivesse desinteressado. O velho nem pareceu notar que tinha eu ali, até que me viu e meteu dedão no meu queixo.

- Desculpe filho, tinha aqui um risco de carvão.

Fiquei ali feito pamonha velha olhando pra ele de olhos arregalados sem saber o que me deixou mais abobalhado: se era que o risco no meu queixo era sujeira e não barba nascendo, se era por ter ouvido a voz dele ou se era porque ele tinha um sotaque muito esquisito.

As outras horas até mamãe sair do trabalho, passamos em silêncio enquanto o velho jogava grão pras pombas e eu continuava doido pra me jogar no chão pra recolher. Sequer nos despedimos quando mamãe chamou e fomos pra casa. Ela, que me viu ali sentado com o velho, disse palavra nenhuma sobre a travessura e eu entendi que não tinha problema, porque ela e a chinela falavam bem alto se me via de papo com estranho.

Foi assim na nossa primeira semana inteira, até que num daqueles dias, dividimos o banco com mais duas gaiolas. Ele abriu as portinholas e esperou um tanto, até que os bichinhos entendessem que tavam livres e sumissem no céu azul.

- Por que o senhor compra passarinho e solta?

- Porque todos os seres deviam ser livres, menino.

- E por que o senhor alimenta os pombos?

- Porque todos os seres deviam ser fortes o bastante para serem livres, menino.

Fiquei um tempo refletindo que ele devia ser ex-bandido, mas aí mamãe não me deixaria ficar na praça com ele tantas horas mesmo que na maior parte a gente não falasse nada. Aí pensei que talvez tivesse sido preso mesmo inocente, isso era bem comum no nosso bairro, conhecia uma pá de moleque que ganhou ficha sem ter feito nada. Tinha até o mais velho da Deninha, lá do fim da rua, que estudava e tinha sonho mas a gente nunca mais teve notícia.

Pensei em falar desses moleques pro velho, pra puxar assunto, pra ver se descobria se ele tinha sido preso, mas a Deninha chorava tanto quando se falava que eu fiquei com medo de falar e o velho começar a chorar ali no meio da praça. Podiam achar que eu machuquei ele, sei lá, gente como eu não arrisca mal-entendido.

As vezes ele me falava de tipos de aves, contava que de criança sonhava em ser piloto e eu dizia pra ele que eu ser doutor faria mamãe feliz, mas não tinha como se eu não sabia nada de nada.

- Mas e os seus sonhos? - me perguntou ele.

- Ah, lá de onde eu venho sonho é coisa de dormir de noite ou doce de padaria. Às vezes a mãe faz sonhos pra eu levar na estrada pra vender, mas não gosto porque suja, mas vende bem, então não posso reclamar.

- Entendo. Entendo bem. Eu pude ter sonhos, mas todos eles foram roubados.

- Tipo coisa de bandido?

Ele riu. Foi a primeira vez em meses que o velho riu. Não entendi o motivo da graça, mas achei educado rir junto.

- É, gostei disso, menino, tipo coisa de bandido.

Mamãe acenou em seguida para irmos para casa. Mais uma vez ela não disse nada, mas fui todo o caminho mordendo a língua pra não contar da nossa conversa. Tive medo mesmo, porque a gente falou de bandido mas eu não entendi direito o que ele quis dizer.

Quase não dormi naquela noite, sentia uma vontade quase insuportável de fazer perguntas que eu não sabia se podia fazer. Mas eu precisava, precisava muito.

No dia seguinte nem vendi todos os doces. Mamãe ficaria furiosa comigo, mas antes da hora de sempre eu já estava no banco, esperando o velho chegar. Demorou uma eternidade, fiquei com medo de mamãe chamar antes de ele chegar, mas ele chegou, e provavelmente chegou na hora de sempre, eu que não tinha nenhuma noção de tempo. Respirei fundo várias vezes para tomar coragem, e ele notou.

- Pergunte, menino.

Olhei pra ele cheio de dúvidas, e vi seus olhos de verdade pela primeira vez. Tinham um fundura como um oceano, mas eram pretos, aqueles olhos que deviam ter visto muita coisa nessa vida.

- O senhor já esteve preso? - perguntei, gaguejando de vergonha.

- Já, meu filho.

- Onde?

- No inferno.

- Por quê?

- Por existir.

Ele não era branco, mas não tinha a pele preta como a minha, então achei estranho ouvir isso dele, mas entendi o que ele sentia, tipo Deninha, tipo mamãe que pedia pra eu nunca tirar o colete de vendedor e deixar a caixa de doces sempre à vista que era pra ninguém entender errado se eu precisasse correr pra atender cliente no trânsito.

Muitos dos moleques do bairro também foram presos por existir.

Não falamos mais sobre o assunto por uns dias, em que ele me contou que do outro lado do oceano fazia muito frio, que ele de menino brincava na neve antes do diabo chegar, contou que falava outra língua bem diferente e que foi difícil aprender português quando ele veio pro Brasil de medo que não tivesse mesmo tudo terminado.

- Todos os seres são livres até que façam bobagem. Mas também todos são livre até que alguém mau decida que não são mais.

- Foi o que aconteceu com você?

- Foi, meu filho. Comigo, com minha família, com meus vizinhos, com milhões de nós.

- Nossa, me parece muita gente...

- É sim, muita gente, meu filho.

- Tem que ter muito camburão pra caber todo mundo.

- Usavam trens, lotavam os trens de tal jeito que alguns não chegavam vivos nas prisões.

- Como se morre num trem?

- Sem ar, sem comida, sem água, com muito frio.

- E vocês não tentaram falar com advogados ou com o delegado? A Odete foi reclamar do jeito que levaram o filho dela amassado na viatura.

O velho sorriu, e foi então que notei que seu sorriso era muito, muito triste, e que seus olhos pareciam nublados agora. Devia ser uma lembrança muito dolorosa.

- Não era assim que funcionava naquela época.

Não questionei mais nada, algo em mim dizia que o que ele contava era algo que eu ainda não era capaz de compreender. Seguimos com nossos encontros diários entre pássaros e pombos e conversas amenas até que um dia ele chegou trazendo uma estrela amarela de pano com seis pontas.

- Quero deixar isso pra você, meu filho. Achei que morreria sem conhecer alguém que pudesse entender.

- Mas... mas... eu não entendo...

- Ainda não, mas sente. Isso foi tudo o que restou de quem eu era antes de vir para cá libertar e alimentar pássaros. Faça o que achar melhor, mas nunca se esqueça, meu filho: todos fomos feitos para ser livres.

O velho me deu um abraço bem apertado, como imagino que seria o abraço de um pai que nunca tive.

Nunca mais o vi, mamãe contou que ele faleceu do coração, e eu carreguei comigo não apenas aquela estrela amarela de tecido com seis pontas, mas as duas perguntas que não fiz: como era seu nome e o que era aquela sequência numérica que ele tinha tatuada no braço, perto do punho.


****


A AUTORA

Maya Falks é jornalista, publicitária com especialização em marketing e estudante de Letras. Contadora de histórias desde criança, escreveu sua primeira narrativa aos 7 anos. Atualmente Maya é resenhista do projeto Bibliofilia Cotidiana, leitora crítica, professora e mentora no Escritório Literário e autora de 6 livros publicados.

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