• Capitolina Revista

Mauricio Lyrio

NOTAS SOBRE A PESTE

(trechos de manuscrito em fase final de elaboração)




um sentido novo

Na quarentena decorrente de uma pandemia, a solidão não só preserva o senso comum: transforma-se, na verdade, em imperativo coletivo e, portanto, na maneira mais nobre de associação, ainda que à distância. O isolamento físico é o engajamento coletivo. Não surpreende que, para muitos que vivem sozinhos, a quarentena acabe por dar um sentido novo ao isolamento. O que antes era um indesejável esquecimento, uma rejeição da sociedade, ganha significado e propósito. O solitário livra-se da solidão na solidão da quarentena: a doença converte-se em barreira contra a doença.



experiência cotidiana da diáspora

Para muitos grupos, especialmente migrantes e integrantes de diásporas, a ideia de distância social não é exatamente nova. O gambiano ML Kejera, residente em Chicago, escreveu um artigo sobre o tema: “eu suspeito que minha impaciência com aqueles que resistem a observar a distância social, apesar de terem os meios para tanto, venha do meu entendimento de que a experiência cotidiana da diáspora implica praticar algo similar à distância social a todo momento.”





metáfora da morte

A máscara também é uma metáfora da morte. Mais do que lembrar que somos mortais e assombrados por uma doença, ela expressa, em certo grau, aquilo que distingue o deixar-de-ser: ao eliminar o rosto, os traços, a identidade, a máscara desindividualiza e iguala a todos.



sobras

Com os restaurantes fechados, mendigos do Rio de Janeiro, sempre confinados ao ar livre, morrem de inanição, livres do vírus, porque já não têm como se alimentar das sobras das refeições servidas.



pressionar um botão

É cada vez maior o número de pessoas, especialmente nas classes média e alta, que regulam o cotidiano por meio de privações e sacrifícios preventivos, cumulativos, num grande projeto de longo prazo, evitando atos e rotinas que podem significar, décadas à frente, abreviação da vida: expor a pele ao sol sem proteção, fumar, beber todas, comer bem comendo mal. O temor de que, pelo mero ato de pressionar um botão de elevador, girar uma maçaneta ou respirar o hálito alheio, se antecipe bruscamente a morte tão cotidiana e meticulosamente adiada explica por que a quarentena é respeitada por muitos com uma disciplina militar.



national gallery

Diz Michael Kimmelman que, durante a Segunda Guerra Mundial, em razão dos ataques aéreos alemães, o Ministério do Interior britânico fechou todos os auditórios, teatros, cinemas e outros espaços públicos em Londres. Os habitantes tinham, assim, a oportunidade de refletir “sobre seu destino sombrio”. Houve apenas uma exceção: a National Gallery. Ali se expunha um único quadro, que era periodicamente mudado, para que os londrinos tivessem uma boa razão para voltar ao museu.




Mauricio Lyrio nasceu no Rio de Janeiro. É autor de Memória da pedra (2013) e O imortal (2018, finalista do Prêmio Oceanos), romances publicados pela editora Companhia das Letras. É diplomata e, atualmente, embaixador do Brasil no México.


94 views

STAY CONNECTED

  • Facebook Clean