• Capitolina Revista

Maria João Cantinho




CIDÁLIA - A MULHER DE VIDRO


Confusa e sem força, Cidália procura levantar-se da cama. Esforça-se, mas o corpo não lhe obedece. Olha para as suas mãos. A mão esquerda têm um cateter enfiado. Sente dor na garganta, provavelmente da lavagem ao estômago que fez. Quando está a tentar perceber o que lhe aconteceu, chegam uma série de enfermeiras à borda da cama.

- Sabe onde está? – pergunta uma enfermeira que parece stressada.

- Não sei, não. Psiquiatria?

- Acha que isto é a psiquiatria? Acaba de sair dos cuidados intensivos.

- Há quantos dias?

- Esteve em coma cinco dias.

A voz custava-lhe a sair, por mais força que fizesse. Não percebia o que lhe tinha acontecido para ficar sem voz. Sentia o corpo muito dorido e não conseguia levantar-se.

Cinco dias antes, Cidália engolira 50 comprimidos de barbitúricos, misturados com álcool. Fora encontrada inanimada. Tinha sido o desfecho da ruptura com Carlos. Ao fim de doze anos de vida em comum, este dissera-lhe que já não queria viver mais com ela. Cidália, pura e simplesmente, não conseguia descortinar o que tinha feito para lhe desagradar assim.

Agora estava no hospital psiquiátrico. O diagnóstico de bipolar assentava que nem uma luva ao comportamento de risco dela. Era difícil explicar aos outros que o suicídio era uma questão de dignidade, face a uma situação violenta e irreparável. Não conseguia chorar, não obstante a profunda tristeza que sentia. Só sentia indiferença e estava numa atitude de catatonia face ao mundo.

Olhava para as outras pessoas que estavam internadas na psiquiatria e sentia que nada tinha a ver com elas. Uns que insistiam num discurso psicótico e, de vez em quando, eram agressivas. Outros, caídos numa profunda depressão, não pareciam estar comunicáveis. Cidália era comunicativa, mas, ali, faltavam-lhe os motivos para estabelecer o contacto com os outros. Diziam-lhe que era submissa. Sim, Cidália perdera as esperanças de ser orgulhosa no estado em que se encontrava, com a auto-estima destruída. O diagnóstico do psiquiatra fora claro: «emocionalmente destruída». Perguntava a si própria como é que alguém sai desta situação, ainda gostando, ou qualquer coisa parecida, da pessoa que nos destrói?

As rotinas do hospital, durante o tempo em que esteve internada, eram monótonas e deixavam os pacientes sem saber o que fazer. Cidália lia muito, como que a dar a entender que o seu espírito, apesar da medicação, estava intacto. Lítio e Quieterapina para dormir. Uma injecção de Aripiprazol por mês, para estabilizar o humor, juntamente com o lítio.

A vida de Cidália tem dois homens dentro e ambos contribuíram para a sua desfragmentação. O primeiro, pai dos dois filhos, tentou tirar-lhe a custódia por achar que ela era deprimida. Em lugar de a ajudar, pediu a custódia ao tribunal, enquanto Cidália enlouquecia de dor. Nessa noite, foi uma leoa que irrompeu nela quando ele veio anunciar-lhe a decisão. Virou-se a ele e correu-o de casa, à qual ele tinha chegado às 23 horas para lhe dar a notícia. Não vinha ver as crianças, como era hábito, mas sim martirizá-la.

Os homens não prestam, pensa Cidália. Não se pode confiar neles. Carlos fartou-se dela, de ser tranquila e passar o tempo a ler, sem grandes interesses por outras actividades. Ele dissera-se muito apaixonado por ela, durante vários anos. Inventava mil e uma demonstrações de afecto e desconhecia por que ela não gostava de exibir publicamente a relação com ele. Cidália era tímida e envergonhava-se das demonstrações públicas.

Depois, ao fim de tanto amor, muito alimentado pela atracção sexual, começou a ter aventuras. Isso devastou Cidália. Ele quisera voltar para ela, ao fim de dois meses de separação. E ela aceitara, não obstante a raiva que lhe dava a volta ao estômago. Dois meses de separação em que cada noite era um terror a passar, ligada a ele. E ele ligava-lhe cheio de raiva porque ela se tinha separado dele. Não aceitava a decisão de Cidália. E ela voltou, apesar de toda a mágoa que permanecia e a falta de confiança, um despedaçamento da sua alma.

- Liga-me, eu estou sempre aqui – dizia Carlos.

Ele estava sempre ali, no telefone, onde lhe perguntava com insistência:

- Como estás?

- Assim, assim – respondia Cidália.

Mas não lhe respondia que estava péssima, a doer em todo o lado, com vontade de chorar, assim que lhe ouvia a voz.

A doutora Andreia também lhe perguntava como se sentia. Todos lhe perguntavam a mesma coisa, mas ninguém a ajudara a arranjar uma casa, estando confinada a um quarto. Apetecia-lhe responder «bardamerda», mas a boa educação impedia-a de o dizer.

Diziam que era bipolar, mas ninguém parava para respirar e avaliar a «destruição emocional». Os efeitos que ela tinha sobre si, sempre disponível para Carlos e para os seus dislates. Quando começou a comportar-se como uma suicida, Cidália tinha todos os motivos e não queria perder a dignidade. São poucos os que entendem esta história da dignidade, após uma devastação emocional.

Perguntava-se a si própria: «quem és tu, Cidália?»

Era como se ela tivesse várias vidas e se tivesse esquecido de si própria, sempre em função dos outros.

Baixa e elegante, Cidália era uma mulher que muitos diziam ser bonita. Inteligente, também, embora a inteligência não lhe servisse de grande coisa na vida prática. Gostava de viajar e de ler, de escrever, ainda que pouco tivesse escrito, na sua vida cheia de solicitações. Deixava os romances sonhados e, muitas vezes, esboçados, em arquivos do computador, que ia guardando, até verem melhores dias.

A voz da psicóloga interrompeu Cidália:

- Comigo deve falar de tudo, é para isso que cá estou.

- E quando tenho vontade de chorar e não consigo, doutora?

Cidália chorava para dentro. Tinha perdido o sorriso em definitivo. Não era dada a expansões de choro, mas isso roía-lhe a alma, deixando-a esvaziada. Ficava, durante horas, a ruminar aquele choro que não saía, mas que a esventrava.

- Talvez por causa dos estabilizadores de humor, não acha, doutora?

A outra dizia que não sabia exactamente porque era e lembrava a Cidália que ela tinha de aprender a lidar com a dor, mas não deixar-se tomar por ela. Esse havia sido o seu erro. Deixar-se tomar pela dor, como se lutasse com um bicho feroz que levasse a melhor.

Uma parte de si sentia nojo da realidade, não conseguia vê-la como uma coisa estimulante. Mesmo quando Carlos, sempre tão entusiasmado com as coisas, lhe contava as novidades, ela olhava-o com uma inevitável indiferença. A das coisas que se sabiam efémeras. Era assim há muito tempo. Talvez isso fosse fonte de desdém por parte dele. E doía-lhe a impossibilidade de ser alegre como os outros, nas suas manifestações diárias. Na verdade, não tinha culpa de ter sido engolida pela dor que os outros infligiam nela. Isso deixava-a exangue perante a vida. «Cidália, ainda vives?», questionava-se ela.


Sobre a autora



Maria João Cantinho é autora, ensaísta e poeta. Tem quatro livros de ficção publicados, 4 livros de poesia e 1 ensaio. Doutorada em Filosofia.

É editora da revista portuguesa de literatura Caliban.


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