• Capitolina Revista

Marcela Dantés





NEM SINAL DE ASAS

(trecho)



Rinoceronte não era o que se esperava de um gato de rua. Era destemido, mas bastante lento (manco desde quando?) e foi essa falta de pressa que colocou aquele gato e aquela Anja no mesmo endereço. Ela no ponto de ônibus, como em todas as outras terças. O trânsito manso, porque cinco e meia da manhã, o asfalto ainda se preparando para tanto porvir. O gato tranquilo, porque cinco e meia da manhã e porque as madrugadas são dos gatos. O ciclista apressado porque (cinco e meia da manhã) alguma coisa estava acontecendo. O som de um gato sendo atropelado é muito mais o som do gato do que do choque, porque o gato grita e continua gritando enquanto dói e tenta fugir e não consegue e então grita mais um pouco. O som de um gato gritando é horrível, sobretudo de madrugada.


Cinco e meia da manhã.


O ciclista para, mais assustado que o bicho, mas Anja vê nos olhos dele que por alguma razão ele não deveria estar ali. De um jeito torto, sendo sempre Anja, cuida dos dois como pode: vai embora, resolve sua vida que eu me viro. Veterinário, remédio, o que for preciso. O ciclista de volta na bicicleta antes mesmo que ela terminasse de falar.


Anja, o gato e uns gritos em seu apartamento, como se não esperassem por ela em outro lugar. Não é veterinária, mas entende um pouco de ossos e decide que todos ali dentro estão inteiros. Fora um susto, a pele esfolada, sangue também, mas ninguém morreria. Anja oferece água, um resto de atum e um nome. Ele aceita tudo. E assim, Rinoceronte fica.


É essa mesma falta de pressa que faz com que Anja conclua que é um gato idoso. Por isso, ela vivia angustiada esperando a sua morte e acordava todos os dias rezando para que ele abrisse os olhos e tivesse força e vontade para gastar as suas unhas afiadas no couro do sofá, só mais uma vez. Rinoceronte mancou sem pressa por mais quinze anos e meio, o que significa uma de duas coisas: ou era um gato jovem quando chegou ou era um gato feiticeiro por toda a sua vida. Ainda que não admitisse e nem mesmo tivesse coragem de dizer isso em voz alta, Anja acreditava na segunda hipótese.


Ele não era silencioso e sempre foi consideravelmente mais desastrado do que se imagina que um felino pode ser. Andava pela casa derrubando os vasos de plantas, engasgando com a comida, tropeçando em tapetes e embolando as quatro patas nas cobertas. Cada uma dessas não gatices fazia com que Anja gostasse ainda mais do bicho e ela ficava principalmente enternecida nas vezes em que ele tentava saltar de um móvel a outro (ele sempre tentava) e, errando os cálculos, acabava invariavelmente no chão, o barulho seco que já não assustava nenhum dos dois. O regulamento interno do Edifício Hotel Lucas era claro no que tangia aos animais de estimação: não seriam permitidos, em nenhuma situação. Em hipótese alguma. Não, apenas não. Entretanto isso nunca fora um problema: Anja não o considerava um animal de estimação. Rinoceronte era um animal selvagem com quem ela dividia a casa, era diferente. Tinham afeto um pelo outro, sim, mas não era isso, de forma nenhuma, que determinava a existência de um e de outro. Ainda assim, para evitar dores de cabeça, Anja

costumava enfiá-lo inteiro em uma sacola de feira, nas ocasiões em que precisava passar pela portaria, sob o olhar atento e a língua veloz de Ramiro, esse sim o único animal de estimação que era aceito naquele lugar.


O porteiro estava lá desde o primeiro dia, e ela tinha certeza que continuaria ali por muitos anos depois de sua morte. Talvez ele fosse um pouco feiticeiro também, ou talvez só lhe faltasse coragem para morrer. Os poucos cabelos que lhe restavam já estavam brancos, a voz começava a falhar, a gargalhada soava cada vez mais desesperada. E ele continuava ali, sentado na cadeira que tentava imitar couro, a coluna torta, as palmas das mãos segurando o rosto que parecia querer descansar no chão. Conversavam pouco, só o suficiente para que Ramiro conseguisse dela o que quisesse. No começo eram bobagens, Ângela, você pode subir com isso e deixar no quatrocentos e um, por favor, você não se importa de ficar aqui só enquanto eu tomo um café, não é mesmo. Mas foi tudo aumentando em frequência e intensidade, à medida que Ramiro entendia que Anja não sabia falar não, principalmente se sentisse ameaçadas a sua parca segurança e a sua imensa vontade de ser invisível.


E ele ficava lá, todas as rugas acumuladas com raiva numa pele ressequida.


Você sai bem cedo, né? Fico pensando qual é o tipo de trabalho que faz, que precisa de você de madrugada. É, no mínimo, suspeito.


Eu preciso chegar cedo, mesmo.


Mas dá tempo de ir na padaria, não dá? É que meu cigarro acabou.


A padaria ainda tá fechada, seu Ramiro. Ainda tá muito cedo.


Então me dá o seu, eu te pago depois. Quando chegar no seu trabalho misterioso, você compra outro.


Eu nem posso fumar lá.

Anja entrega o maço quase cheio. E ele nunca paga de volta. Ela não se ressente pelo dinheiro, mas pelo abuso. E os anos correm, porque é assim que tem que ser. E agora já quase não se veem, porque Anja evita ultrapassar a sua porta e, diante da morte, não tem tempo para as mágoas, mas continua fumando. Não se esqueceu, não perdoou, mas não pensa mais nisso. Não pensa nem mesmo no pior dia, no dia em que foi mais infeliz: quando os dois subiram juntos no elevador, quando a luz acabou num estrondo, quando Ramiro ficou muito mais perto do que precisava; quando as mãos dele, que pareciam tão grandes, corriam ásperas pelo seu corpo. Quando a respiração dele, estúpida e quente, acontecia no seu pescoço e em muitas outras partes além e esse antigo e detestável hotel que não tinha um gerador decente. Foi um dia horrível, sim, mas agora ela precisa cuidar de morrer em paz e de aliviar a dor, quando isso for possível.


Se isso já foi possível.


De dor ela entende mais do que gostaria. Não só pelas próprias, que seriam suficientes para se começar uma coleção, mas pelo seu trabalho, que fez com que ela conhecesse muitas formas de agonia, algumas que não cessavam nem mesmo com uma combinação obscena de medicamentos que queimava as veias finas de pessoas que já tinham vivido demais.


Ela nunca gostou de tomar remédios, conhecia muita gente que sim. Calavam a dor, mas também interferiam na sua percepção do mundo. Por isso, antes, preferia esperar passar, quando era uma dor de cabeça, alguma coisa no estômago ou mesmo a sua pele se afogueando outra vez. Mas agora a dor não passaria, qualquer um daria esse óbvio diagnóstico, nem precisava ser íntimo da morte como ela. Ela morria e era uma nova Anja que tomava toda a sorte de remédios, sem se preocupar com o drama das bulas e com a névoa que enchia sua cabeça. Queria passar os últimos dias com um pouco de dignidade, se ainda fosse possível. E a névoa espessa ajudava, já que não deixava que ela visse com clareza o seu corpo se acabando. Já fazia muitas semanas desde a última vez que vira a si mesma num reflexo dolorido e terminal. No dia seguinte, assustada com aquela imagem, guardou o grande espelho da sala embaixo da cama de casal do quarto de hóspedes e cobriu com jornal aqueles do armário do banheiro e atrás da porta do seu quarto.


Agora, sem espelhos para lhe dizer a verdade, Anja não tem como saber que as olheiras que ocupam o seu rosto já adquiriram um tom muito escuro, mas ainda deixam ver as veias vermelhas e finas que cobrem quase toda a sua pele. O caroço no pescoço ela também não pode ver, mas sente todas as vezes que encosta ali a palma da mão. A cintura muito fina não precisa de espelho para existir e Anja começou a reparar nela quando o último buraco do cinto já não era apertado o bastante para segurar-lhe a calça no lugar. Enquanto usa um prego para fazer um furo mais adequado à sua nova condição, pensa que se não for hoje, amanhã sem dúvidas.


A AUTORA


Marcela Dantés nasceu em Belo Horizonte, em 1986, e formou-se em Comunicação Social pela UFMG. Possui pós-graduação em Processos Criativos em Palavra e Imagem pela PUC-MG. Em 2014, participou da tradicional Oficina de Criação Literária da PUC-RS, sob orientação do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, referência no Brasil na formação de jovens escritores.

Trabalhou como redatora publicitária durante cinco anos, ofício que abandonou para dedicar-se à literatura. Publicou, em 2016, a coletânea de contos Sobre pessoas normais pela editora Patuá. No mesmo ano, a convite de Agualusa, foi escritora residente do FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, em Portugal, onde passou três meses trabalhando na criação de um novo romance ainda não publicado. Em 2020, a escritora lançou pela Editora Patuá o seu primeiro romance, Nem sinal de asas.

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