• Capitolina Revista

Mônica de Aquino





“Porque não são apenas momentos de felicidade, que para mim era tudo o que tínhamos. É uma felicidade que se espalha.” Escolho esta frase de Maggie Nelson, do livro Argonautas, como epígrafe da série do meu futuro livro, ainda sem nome, dedicada à observação da minha filha. A vivência da pandemia trouxe ainda outra dimensão aos textos, e o isolamento total dos primeiros meses também aparecem nestes poemas. Eles são parte de uma seção maior, em que esse olhar para o infraordinário volta-se também para a casa, os detalhes da convivência com o meu marido misturados a pequenas memórias, também cotidianas.


Acho que este é o meu principal posicionamento político hoje: observar o dia a dia, as experiências mais corriqueiras e buscar multiplicar as lentes, os ângulos, valorizando temas considerados muitas vezes laterais, talvez por serem culturalmente mais ligados à mulher. Tal poética retoma e renova, de certa forma, o que fiz no meu penúltimo livro, Continuar a nascer, em que falo da gravidez e do nascimento da minha filha. Fazer do nascimento um movimento contínuo, múltiplo, vejo que é mesmo isso que me traz a maternidade – e tudo o que vem junto com ela.


Retomo, aqui, dois poemas de Continuar a nascer, junto a um inédito do meu próximo livro. Para quem quiser ler um pouco mais, mostro uma seleção similar em outra revista internacional, a luso-brasileira Incomunidade, edição 99, de dezembro de 2020.


"O tempo passa tão depressa", me dizem

desde que você nasceu,

mas são múltiplos os movimentos

passa, volta, espera, dança em roda

brinca, tece comentários sobre si mesmo,

desloca o mundo

com seu corpo compacto feito de esquecimento

e lembra, lembra,

estar com você é assim


simultâneo

delicado doloroso


O tempo desenha um círculo ao nosso redor

e entra, reduz o espaço

o contorno é elástico, bumerangue

o tempo não passa, para,

está sempre com a gente, agora


outra intimidade se forma

é um bebê que exige cuidados

cresce como você.



Volto a ser filha.

Muda, espero a descoberta da primeira palavra.

O balbucio, mamá, papá

reduzir cada fala a um fio mínimo, trôpego.

E esperar, esperar outra língua

sua voz sobre a minha

tantos ancestrais dentro, pequena

fecho-me: você me guarda.

Nova camada na mamushka familiar

redonda, inexata, guarde a todos nós, menina

dê-nos nova forma,

o atrito, a dúvida, a voz.

Tua pele incômoda nos toca,

a mim, minha mãe

desencaixa todos os fantasmas

abre-nos, liberta o que é repetição.

Nova boneca, feita de volta,

até o primeiro não: dá-me tua mãozinha,

você brinca, chora, mexe os braços

atravessa a história, exige

outra memória, abre-nos, menina

somos todas filhas, mamushka invertida

ouça:

a primeira boneca balbucia

intocada.





Passo a manhã dando nomes a bonecas, bichos de pelúcia, brinquedos espalhados.

Enfeitando-os: o monstro azul, agora, tem duas pulseiras vermelhas.

Minha filha nomeia o mundo que vai da porta à janela. Do teto ao chão.

Inventa outros nomes para nós.


Brinca com os avós em miniatura na tela do telefone.

Canta para dormirem, embalando a estrutura metálica, a família vive em pequenas caixas brilhantes.


Há uma pilha de livros que guardam outros lugares: jardins, fortalezas, pátios, florestas, planetas.


O livro do oceano traz paisagens submersas. De um lado, cenários com anêmonas, recifes, mergulhadores, enguias e polvos. Do outro, o mar áspero

e a coleção dos personagens em feltro, para uma nova composição.

Minha filha cola lagosta e submarino, o caranguejo-eremita perpassa a água-viva.


Depois, procura o pequeno baú que não conseguimos achar:

olho atrás da cortina, debaixo da cama, entre meias que viram peixes, no plâncton da casa, o apartamento balança, pende para o afogamento.

Seguro-a: estamos salvas.


Os tesouros são abissais, distraio a minha filha com um cardume que atravessa o corredor, será que ela vê?


Há outra embarcação mais arriscada e noturna. Espero até que a menina durma. Volto a procurar:

onde estará a pequena arca? “O velho baú está cheinho de ouro e jóias.”


O escafandro. A estrela. Preciso encontrar o naufrágio.



A AUTORA

Mônica de Aquino nasceu em Belo Horizonte em 1979. Publicou os livros Sístole (2005), Fundo Falso (2018) e Continuar a nascer (2019), além de cinco livros infantis. Com Fundo Falso, foi vencedora do Prêmio Cidade de Belo Horizonte e finalista do Prêmio Jabuti. Lançou pela Edições Macondo, Linha, labirinto, livro também finalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia.

59 views0 comments

Recent Posts

See All