• Capitolina Revista

Luci Collin




DIAS CONTADOS


A sra. T mora sozinha em uma enorme casa de dois pavimentos. Sim, é a mesma casa de sua infância; obteve o imóvel por herança. Se houve um marido nesse meio tempo, então ela agora é viúva. A sra. T pode ser chamada de “muito muito velha mesmo”, mas enganam-se os que imaginam que tem as costas arqueadas ou as mãos trêmulas ou os olhos lacrimejantes ou cheios de antiguidades. Executa as tarefas domésticas com destreza. Ela poderia lhe contar histórias de guerras, histórias sobre gafanhotos e sobre terremotos, histórias de naufrágios e de dirigíveis e de enseadas ao entardecer e de baleias. E você ficaria sem entender muita coisa, devido à incidência de palavras que lhe soariam estranhas e desconhecidas, uma vez que a sra. T, com notável galhardia, usa palavras como furibundo convescote soldo e aquiescer ou atoleimado jubiloso admoestar e víspora ou ainda botica sacripanta e lorota. Mas tudo que você ouvisse, cada episódio de dor, surpresa, tédio ou bravura, teria comprovação histórica porque a sra. T tem excelente memória e nunca foi dada a divagações. Tem excelente senso de humor também. É importante que se diga.

Uma manhã ensolarada ou não a sra. T poderá tomar uma cápsula de cianureto ao invés de sua tradicional pílula de polivitamínico. Mas isso não acontecerá pois ela jamais teve cianureto em casa. A sra. T poderá cair do sótão numa terça-feira rolar das escadas ou cair da janela quando limpa os vidros. A sra. T poderá ter uma vertigem súbita. Uma tontura inesperada. Coisas da idade. Tropeçar no balde, quiçá num rodo. Felizmente a sra. T nunca frequenta o sótão às terças-feiras. Isso é algo que ela tem por princípio manter desde menina. A sra. T poderá furar o próprio olho com uma agulha de bordado em tapeçaria sem querer claro por total descuido a mão direita da sra. T − não intencionalmente − leva a agulha ao olho e destrói córnea cristalino coroide e esclera. Mas provavelmente isso jamais acontecerá porque a sra. T usa óculos religiosamente quando borda arraiolo e eles impediriam a agulha de perfurar outra coisa que não o próprio tecido.

Muitos acharam errado que ela tenha “vendido” grande parte da propriedade dos pais e tenha mantido só a casa. O empreiteiro pagaria um bom dinheiro à sra. T mas ela recusou pagamento e doou graciosamente o enorme terreno de muitos alqueires porque achou o empreiteiro simpático mesmo e respeitoso para com ela;

e o tom pastel do cashmere que ele, naquele raro momento, vestia lhe agradara sobremaneira.

Os bisnetos da sra. T talvez detestassem lembrar desse episódio. É importante registrar aqui que todas as pessoas que de algum modo julgaram ou que ainda poderiam julgar a sra. T estão mortas, incluindo seu último bisneto, Gláucio, que veio a óbito em maio passado em virtude de um mal-estar indefinível.






O que esse pequeno lago esconde: um fundo falso, de plástico ou cimento bruto ou liso; um tipo de peixe adestrado, catequizado e incomestível; libélulas impossíveis.

Você que neste exato momento olha cuidadosamente para o lago, você que nunca parou para pensar no que vai escondido, é importante que se diga, tem o coração em fragmentos, tem a cabeça que é um maço de cartas de baralho, tem o corpo que é uma enguia em lata, e sua respiração desconhece a si própria porque seu sangue corre desavisado e indiferente aos possíveis bloqueios das rotas. (Minha amiga Bernardete Lúcia Cruz morreu de um trombo desgovernado. Não era amiga de infância. Na verdade, não era amiga, era apenas colega de trabalho. Não fui ao velório. Fiquei sabendo apenas doze dias após). E essas lágrimas que você tanto chora ou choraria − por absoluta falta de tempo para passar histórias a limpo, por falta de jeito, por falta de tato sei lá, esse sorriso esquisito, meio-sorriso, que você improvisa junto com a frase toda em voz macia, mentidamente macia − é como o plástico todo da cena.

Agora como você olha ao seu redor e estranha, estranha escancaradamente que haja essa quantidade de perguntas que se insinuam assim nesse sem-cerimônia, que inferno. E esse som de ambulância o som das bolas de bilhar que se chocam nesse boteco displicente nessa madrugada e até mesmo o som inofensivo do relógio-cuco da vizinha de cima que só agora você percebeu pode ser: asfixia. É importante que se diga. Felizmente você se lembra que veio aqui apenas para resgatar o anel do melhor ouro que fora jogado no lago. Mas o lago é maior do que o esperado. Maior do que parecia ser naquela foto. Maior apenas e totalmente maior. Essas situações requerem uma boa dose de observação. É o que você estaria a pensar.

O plástico do fundo do lago não aparece na fotografia. Nem nenhum grito. Nem o amarrotado da calça. Nem o cheiro do céu pegando fogo. Nem o comichão que Isaura sente no sexo. Nem o leve distúrbio de atenção que Leonel teve na infância. Nem o irmão morto da Leocádia (aos seis anos, por afogamento). Nem a moedinha minúscula que nem vale mais nada que o Sr. Timóteo João Lemes colocou na fenda da caixinha de doações que davam direito a se acender uma vela na Igreja Maior de Nossa Senhora do Acanho. Nem a decepção que se aproxima ao percebermos que aquela conversa comprida comprida infinita cheia de detalhes não terminou com uma piada pra descontrair. Nem a solidão indevida do peixe citado acima quando se perde a coragem. Um de um cardume. (Um de uma manada; uma de um enxame). Quando se perde a razão por perceber que nunca se teve razão alguma. Nem nas frases. Sobretudo não em frase nenhuma.






A filha que implora a atenção da mãe. A mãe está ao piano. É um piano alemão excelente. As mãos daquela que é a mãe parecem nervosas mas seu semblante, principalmente os olhos, não revelam agitação. Talvez revelassem tédio mas não dá pra afirmar isso com certeza absoluta. À mãe resta-lhe pouco mais de um mês de vida. Sim, está com uma doença terrível, foi o que lhe disse um médico e também, posteriormente, uma vidente. Não sabemos se a mãe contou isso à filha. A banqueta do piano é original. A filha tem filhos (na idade de sete e nove anos) e ainda mendiga a atenção da mãe. É importante que se diga. A filha tem dois filhos mas a mãe só teve uma. A mãe está ao piano e a filha fala sobre coisas e mais coisas que já aconteceram. Depois fala de coisas que poderiam ter acontecido. Depois fala de coisas como deveriam ter acontecido. É um amontoado de situações barulhentas que demandariam silêncio maciez e agrado. A filha repetiu a mesma história sobre um abacateiro na infância. Mas sobre ter ficado pra final em geografia na 6ª série nada se disse. A mãe tenta se concentrar na partitura, dedicada que está a resolver o dedilhado dos quatro últimos compassos daquela peça aparentemente de Felix Mendelssohn Bartholdy. Pode-se notar, caso necessário, que o assento da banqueta do piano é de palhinha. A filha mendiga a atenção da mãe e por fim diz quase gritando Você está mais preocupada com essa porra de música idiota do Felix Mendelssohn Bartoldy que com a tua própria filha! E a mãe responderia: Não é dele. É uma composição própria.






Pode ser a Fátima ou o filho do Sr. Emerenciano que tenham pensado isso. Não, o assistente do Dr. França não poderia ser. Nem a Cândida, você está cometendo um erro de julgamento. Fiz esse comentário apenas por obrigação, para manter profissional a minha conduta; por favor, não se constranja.

Na próxima segunda-feira atirar-se-á da janela. De um andar bem alto pra não sobrar nada mesmo. Porque seria repugnante não estar ali para afastar animais, sobretudo aves de rapina ou insetos de proporções inimagináveis ou curiosos. Já escolheu a vestimenta a ser usada, cortou as unhas do pé, cancelou a conta de luz, decidiu qual janela e qual horário é o mais conveniente. Prenderá a cortina com a fita larga, cor de musgo, que veio enfeitando aquele presente de Páscoa – para evitar coisas esvoaçantes na cena. Vendeu aquele par de luvas novinho e deixou o dinheiro de gorjeta para alguém desconhecido em um café desconhecido. Nunca gostou de pôr de sol. Aquelas bebidas exóticas dentro de um abacaxi sempre lhe pareceram medíocres. Ficar assistindo a filmes de quinta categoria madrugada adentro também nunca lhe disse coisa alguma. Sexo é uma trabalheira danada e depois tem-se que fingir muito (87% do tempo). Cachecóis coloridos, meias coloridas, blusas de listras coloridas, lençóis ou jogos de mesa com excesso de colorido nunca lhe disseram muita coisa. Não deixará cartas nem bilhetes de despedida e não foi uma decisão difícil de ser tomada. Sequer cogitou em procurar papel ou caneta pelo apartamento. Durante a vida inteira jamais usou uma caneta que não fosse emprestada. É importante que se diga: devolveu todas sempre.

Com enorme alívio pensou que não terá que aceitar aquele trabalho insuportável à noite para terminar de pagar o tratamento de canal. Dentes são o maior mistério.





Abri mão de tudo que eu tinha pra fazer e fui até a delegacia. Não era tão perto. Ainda bem que o ônibus estava relativamente vazio, embora tenha demorado para chegar. Consultei uma policial que se encontrava no guichê da recepção – era loira, chamava-se Jinny ou Dinny, não vi bem, e usava um batom exagerado, mas sem perfume − e ela me deu instruções suficientes para que eu me dirigisse às cadeiras do que era uma espécie de sala de espera. Aguardei ali naquele ambiente das cadeirinhas plásticas. Aguardei em pé porque as cadeiras apresentavam detritos de sujeira ou secreções não identificáveis mas absolutas. Pensei ter visto um dedo no chão perto da lixeira. Mas pode ter sido um dente canino. Não havia revistas ali. Não havia nada ali para ajudar alguém a passar o tempo distraidamente. Às vezes vinham gritos do final de um corredor e passavam pessoas muito agitadas. Não consegui discernir nenhuma frase inteira, nenhum diálogo, portanto. Muitas criaturas aqui usam bonés. Duas delas mascam chicletes. Três usam o mesmo modelo de armação de óculos. Na parede havia uma mancha muito estranha que ainda deve estar lá porque aquilo ali não vai sair assim tão facilmente.

Contei ao superior encarregado, quando chamaram o meu nome, contei-lhe que havia um corpo guardado no freezer da minha casa. Ele disse gentilmente (agora fiquei em dúvida, se foi mesmo gentilmente, se foi indiferentemente, se foi com certo cansaço) Sente-se. Perguntou-me se eu me lembrava se era um freezer vertical ou horizontal. Perguntou-me se eu sabia algo sobre o movimento de translação da Terra. Perguntou-me se eu tinha noção de semeadura de orquídeas a partir de matrizes clássicas. A tudo eu respondi não.





Sempre achou que há qualquer coisa de heroico naquilo de pular de volta no caminhão de lixo e dar aqueles gritos curtos e às vezes assobios como um pequeno código pro motorista saber se pode ir arrancando. Mas é o momento do salto, às vezes com o caminhão em movimento (nada é perfeitamente sincrônico à noite nem mesmo os abraços na escuridão), o mais incrível e insubmisso. Por isso escolheu aquilo pro resto da vida. (Ainda não tem certeza de que morrerá cedo

porque isso, é importante que se diga, é o detalhe e todos os detalhes sabem ao imponderável). Quando chegar em casa depois do trabalho desse dia (noite) o dentinho de sua filha Priscila terá caído e a mãe dela, Catarina, já terá colocado a moeda da fada sob o travesseiro. Seu vizinho, Sr. Arnoldo Genésio de Lima (Seu Gene) terá recebido a notícia de que o Sales, seu melhor amigo, sofreu um atropelamento. Sua tia Tilde (Clementildes), irmã de sua mãe Josinaura, já terá ido dormir porque amanhã acorda cedíssimo para passar café pro povo todo da casa. E o Púqui não consegue pegar no sono porque tem um tumor na bexiga que incomoda muito mas ninguém sabe, nem ele mesmo, porque é um cachorro e ficou muito velho.

Como é sempre agradável fazer esse trabalho porque você tem toda a autonomia do mundo e tudo é rápido e ninguém se importa se você existe e se chove e se faz sol (noite) e se você está cansado ou com uma cárie medonha e se você existe. Ele tem uma dor horrível na perna logo abaixo do joelho desde que errou o salto e estraçalhou as calças verdes e o osso contra o asfalto. Não comentou nada em casa. Não comentou nada nem consigo mesmo.

Quando era menino – de dentro do carro do pai, do banco de trás do fusquinha – viu aquele salto dado por um homem com roupas verdes e uma faixa fosforescente nas costas. Em forma de X. Aquele homem com uniforme verde e capaz de dar aquele salto, é importante que se diga, foi o único grande homem que conheceu na vida. Naquele salto percebeu que quem trabalha com a remoção do lixo, dos dejetos, do refugo, do resto do que quer que seja é tornado livre como um gato. Um gato jamais conservará um enredo.



(Dedos impermitidos, contos, SP: Iluminuras, 2021)



A AUTORA

©Rafael Dabul

Luci Collin é ficcionista, poeta, educadora e tradutora. Tem mais de 20 livros publicados entre os quais Querer falar (Finalista do Prêmio Oceanos 2015), A palavra algo (Prêmio Jabuti 2017) e Rosa que está (Finalista do Prêmio Jabuti 2020). Na USP concluiu o Doutorado e dois estágios pós-doutorais em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês.

107 views3 comments

Recent Posts

See All

STAY CONNECTED

  • Facebook Clean