• Capitolina Revista

Leonardo Villa-Forte



RÁPIDO E FÁCIL


Bum; acordou.

“O que foi, o que houve?”, espantado ergueu o peito – havia dormitado no sofá. De repente nada funcionava: a luminária acima de si, o ar-condicionado, a televisão com sua luz e o seu som, tudo estava quieto, apagado. Era como se ele ainda dormisse e pudesse ver a si mesmo despencando em um negrume sem fim, procurando apoio onde não havia chão, gritando (o quê?) e ouvindo sua voz rebatida em paredes que não podia enxergar. Ouvia-se e ouvia-se; e era só isso: nada além de sua voz, o eco ininterrupto. Debatia-se contra um pesadelo que ele torcia para não ser eterno (pôde pensar nessa possibilidade). “O que houve, a eletricidade cochilou?”, então se recompôs e disse baixinho, como se evitasse insultar um inimigo que podia estar por perto. Parece que sim, as coisas haviam falhado.

“Marcos!”, gritou sua esposa. “Não se preocupe, foi um pico de luz. O prédio inteiro está no breu”, disse Virna, saindo da cozinha com uma vela na mão. Marcos não podia vê-la por conta da divisória alta que recentemente criara dois ambientes, passando a separar sala de televisão e sala de jantar.

Um pico de luz, boa notícia, ele pensou. Não havia sido uma falha das máquinas, não, como poderiam todas falhar ao mesmo tempo? Ora, essa era a ideia mais estúpida que já passara por sua cabeça. Todas as máquinas falharem ao mesmo tempo, ele começou a rir, sacolejando as pelancas, satisfeito e aliviado por saber que havia sido um problema de demanda e oferta: naquela noite o prédio pedia certa quantidade de energia e não lhe foi oferecido o necessário. Era um problema na fonte, não nas máquinas. Esse pensamento o apazigou.

“Já estou chegando”, disse Virna, contornando a divisória. Naquele silêncio podia-se ouvir cada pisada de seus pés no assoalho. Tirou do bolso uma segunda vela, acendeu o pavio. Estava pronta para passá-la ao marido quando a energia, somente para fazer troça da mulher, voltou à toda. As luzes se acenderam juntas feito no palco de um grande espetáculo, o aparelho de ar deu um estalo, bum, e seu rugido contínuo ressuscitou. Um repórter de microfone em punho surgiu na tela falando de um acidente grave e preocupante, enquanto o alarme agudo de uma sirene apitava e a luz do carro na tela lambia a sala e o casal de vermelho perigo. Que maravilha, as coisas voltaram!, suspirou Marcos, achando graça do pisca-pisca que mudava seu corpo de cor. Havia sido apenas uma descontinuação. Agora ele tinha luz, som, ar em boa temperatura, energia. Chegava ao fim o pesadelo das trevas informes. Não ficaria no escuro, muito menos para sempre. Poderia retomar a calma, a quietude, a tranquilidade perfeita da uniformidade dos acontecimentos, e voltar ao

seu repouso, finalmente embalado pela claridade e os ruídos. Virna assoprou a vela, deu de ombros e contornou a divisória. Não deu para ouvir seus passos. Marcos caiu rápido e fácil no sono, um bebê aconchegado em meio ao balanço das saídas de som e de luz.


*****



O AUTOR


Leonardo Villa-Forte é escritor, pesquisador e artista. É autor de Escrever sem escrever: literatura e apropriação no século XXI - ensaio que foi Menção Honrosa no Prêmio Casa de Las Américas 2020, em Cuba –, do romance O princípio de ver histórias em todo lugar e dos contos de O explicador e Agenda. No exterior, publicou ficções na Litro Magazine (Inglaterra), revista 2384 (Espanha) e artigos em Poesia (Venezuela) e Transas (Argentina). Criou o Paginário, série de intervenções urbanas em mais de 60 cidades de Brasil, Portugal e Espanha, e o projeto MixLit – O DJ da Literatura, plataforma de literatura remix. Formado em Psicologia pela UFRJ, é Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RJ, e ministra cursos e oficinas de leitura e escrita. Nasceu no Rio de Janeiro em 1985.

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