• Capitolina Revista

Julieta Monginho - As personagens da minha vida

coluna de Gabriela Ruivo Trindade





ORLANDO – Virginia Woolf


«Embora pareça estranho, a verdade é que, até então, pouco se tinha preocupado com o seu sexo».

«Foi, pois, numa situação extremamente ambígua, sem saber se estava morta ou viva, se era homem ou mulher, duque ou coisa nenhuma, que partiu apressadamente para a sua casa de campo, onde, à espera da decisão legal, tinha permissão para residir incógnito ou incógnita, de acordo com o que se esclarecesse».

Bastariam estes excertos. A ousadia de Virginia Woolf ao criar esta personagem e ao colocá-la em movimento seria hoje um espanto. Um século atrás, uma vertigem. Continua a ser uma vertigem ler aqui e ali, como agora faço, enquanto escrevo. Tempo, verosimilhança, coerência, tudo é desafio neste texto. A ambiguidade, narrada sem angústia, antes com leveza, senão mesmo entusiasmo. Orlando, um ser nascido da plena liberdade, sujeito apenas aos constrangimentos da condição que metamorficamente vai tomando, não aos que resultariam da experiência narrativa.

A transgressão e o carácter precursor da questão do género – Orlando nasce homem e um dia acorda mulher conservando a sua essência – tornam a personagem uma figuração do ser humano resistente ao estereótipo, ao preconceito, à simplificação, ao desgaste do tempo, à apropriação por discursos lineares sobre identidade(s). Uma transfiguração que Tilda Swinton, em todo o seu poder andrógino, tão bem soube interpretar no filme de Sally Potter.

Como assinala Cecília Meireles no prefácio à sua tradução de «Orlando uma Biografia» (Livros do Brasil), «É nessa atmosfera de generalidade e ilimitações que Orlando se move, ora livre, ora indiferente, ora submetido ao tempo. A sua existência começa a ser relatada no ambiente da rainha Elisabete, como o poderia ser muitos séculos antes ou depois. E termina arbitrariamente em 1928 como podia também terminar antes ou nunca».

Posso imaginar o prazer de Virginia enquanto escrevia Orlando. Uma leveza diferente do sobressalto que sentiu ao iniciar a escrita de «Mrs. Dalloway», tal como a vimos no livro de Michael Cunningham e no filme de Stephen Daldry - «As Horas». O prazer de biografar Orlando como aproximação a Vita Sackville- West, com quem manteve uma longa relação. O prazer de tornar a personagem uma multiplicidade de seres, sob um único nome, num movimento que se diria o oposto ao da criação dos heterónimos de Pessoa.

Ninguém nasce mulher, torna-se mulher, disse Virginia através de Orlando, antes de Simone de Beauvoir, mas com uma fluidez quiçá mais próxima da época actual do que aquela que presidiu à afirmação feminista de meados do século passado. Muito antes das teorias queer e de Judith Butler ter escrito Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity.

Orlando é uma personagem que o tempo reflecte mas não tem o poder de aprisionar. Nada, nem a leitura tem esse poder.

*


A MENINA DOS FÓSFOROS – Hans Christian Andersen


Que idade teria eu quando li os contos de Andersen, num livro de capa dura, bem ilustrado, que se perdeu pelo caminho? Não me lembro.

Sei que já tinha lido os contos compilados por Perrault e pelos Irmãos Grimm. E os contos tradicionais portugueses, que são para mim uma fonte de inspiração contínua.

Então, naquele livro, entre um soldadinho de chumbo apaixonado por uma bailarina, uma princesa incomodada por uma ervilha debaixo de múltiplos colchões e sapatos vermelhos que dançam sozinhos, deparei-me com A Menina dos Fósforos.

É certo que já estava preparada para finais pouco felizes. Mas esta menina confrontava-me com a total desolação. Nenhuma das histórias que lera até ali terminava com a morte da protagonista inocente – a figurinha desamparada e só, a vaguear pela cidade gelada na noite de Ano Novo, por quem se torce desde

o início, primeiro desejando que alguém lhe compre um fósforo, depois que alguém a convide para partilhar a ceia, por fim que o último fósforo fique aceso a noite inteira. Um a um os sonhos acendidos pelos fósforos vão sendo apagados e desfeitos. Nenhum caminho, nenhuma redenção, nenhuma reviravolta, nenhum milagre. A menina só encontrará consolo na sua própria morte. Não existem outras personagens que a ameacem ou lhe queiram mal, alguém que o leitor deseje castigar. O que existe à volta da menina são vultos indiferentes. A indiferença e a desigualdade são os seus inimigos.

É um conto de nenhum exemplo, sem qualquer ensinamento evidente nem escondido, a não ser o confronto com a injustiça em estado bruto.

Esta menina viajou comigo através da vida e continua a vender fósforos, ou a tomar um copo de leite na escola por pequeno-almoço, ou a fabricar pequenas peças apenas manuseáveis por mãos infantis, ou a vestir uma farda e a empunhar uma arma, ou a desfalecer de fome no chão árido, em latitudes longínquas, tão próximas do nosso olhar. Nós continuamos a ser vultos apressados, não por maldade, mas porque a impotência se cristalizou numa indiferença que preferimos não admitir.

Contaremos ainda histórias como esta aos nossos filhos e netos? Caberão elas no novelo de algodão doce em que, por amor e medo, os envolvemos?

Não sei responder. Penso que a aprendizagem da justiça e da energia necessária para a repor é tão importante como a da matemática, da história, das línguas. O estímulo da imaginação é tão importante como o do olhar atento. A menina dos fósforos pode um dia vir a ser uma personagem tão extravagante como a Bela Adormecida. Por enquanto é apenas real.



A AUTORA

Escritora e magistrada do Ministério Público.

Publicou o primeiro romance - Juízo Perfeito - em 1996.

Seguiram-se-lhe outros livros de ficção, dos quais se destacam

- À Tua Espera (2000) - Prémio Máxima de Literatura

- A Terceira Mãe (2008) - Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB

- Um Muro no Meio do Caminho (2018) - Prémio Fernando Namora e PEN Clube Português

- Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio (2021).

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