• Capitolina Revista

Julia Wähmann




TRISTE CUÍCA


Voo — O garoto esturricado de sol veste camisa pólo rosa bebê, bermuda, chinelos, casaco de moletom cinza, um blazer de alfaiataria, cinco fitinhas do Senhor do Bonfim amarradas no pulso direito. “I believe someone is better than worse / friend than enemy” são os dois primeiros versos que leio do caderno dele, sentado ao meu lado no avião. O poema se configura como uma extensa lista de opostos. Outros são indecifráveis: “Highest heaven / farthest self / nothing is everything / this of that”. Algumas misturam Pokémons, mantras e pedidos de perdão. Tudo que o garoto escreve tem uma aura de culpa. Talvez não sejam Pokémons. Ele só para de escrever para esfregar os olhos e gargalhar baixinho, como quem tenta conter um riso agoniado. Como se soubesse de alguma coisa que ninguém mais sabe.


Caderno — Na minha mochila o caderno de capa amarela, praticamente esquecido durante aquela viagem. Era um diário de um período bem específico, desses que você escreve porque acha que está vivendo algo extraordinário. Eu tinha levado o caderno com a intenção de transformar aqueles dias em uma ficção. Não consigo pensar em nada tão óbvio. O texto ficou pela metade, um atestado tanto da preguiça quanto da falta de fé. Achei que seria interessante ler diários de grandes escritores, achei que seria interessante ler alguma teoria sobre diários. Achei que seria melhor desistir.


No desembarque a sensação de que aquelas horas suspensas tinham aberto um portal para uma nova realidade em que os funcionários do aeroporto e das companhias aéreas vestiam máscaras, luvas e escudos plásticos de proteção sobre o rosto.


Madrugada — É verão, há uma média de sete pessoas por raia. Paloma está na mesma raia que eu e, à vontade neste ambiente cheio, conhece os truques para chegar ao outro lado da piscina sem trombar com ninguém. Ela dispara em direção à outra borda em braçadas precisas. Quando acho que vai fazer a cambalhota para voltar ela para, tira um caderno e uma caneta não sei de onde e começa a fazer anotações. Os demais nadadores repetem o gesto, todos com seus cadernos de páginas impermeáveis. Percebo que sou a única pessoa que ficou naquela margem da piscina. Pergunto a um salva-vidas de plantão qual o sentido daquilo. Ele revira os olhos e balança a cabeça, como se a resposta fosse evidente. Isso foi o que sonhei e o que contei à Paloma, no dia seguinte. Ela me respondeu com um texto de Blanchot: “Escrevemos para salvar os dias, mas confiamos sua salvação à escrita, que altera o dia.”


Gavetas – O clichê da infância em forma de um diário com cadeado e desenhos de ursos na capa. “O pequeno recurso contra a solidão que ele garante.” Eu não tinha lido o Blanchot, claro, mas talvez já intuísse. Ou apenas fazia o que era esperado de uma menina nos anos 1980-90. Os diários, reservados a assuntos íntimos, conviviam com as

agendas, que tratavam do cotidiano, cada dia enfeitado com recortes de revistas, frases, citações. “A vida é um sutiã, meta os peitos” hoje soa como uma sentença cruel.


Os diários da adolescência são um oceano de constrangimento. A maioria das entradas é um melodrama de quinta, focado em pequenos fracassos. As perguntas que me faço hoje sobre aquela época ficam sem respostas, o que me leva a um exercício de futurologia em que me pergunto o que eu acho que gostaria de me lembrar a respeito desses dias de pandemia. O que será que vai fazer sentido reler, daqui a vinte ou trinta anos, que perguntas eu vou fazer daqui a vinte ou trinta anos.


“Que tipo de diário eu gostaria que fosse o meu?”, pensa Virginia Woolf, em 10 de junho de 1919. Era uma terça-feira e ela fala sobre o hábito de reler os próprios escritos Enquanto não me decido sobre que linha editorial seguir daqui pra frente, imploro à Paloma que dê sumiço nos cadernos em caso de fatalidade. A morte por um vírus novo e desconhecido se torna uma certeza tão grande que começo a rasgar páginas e páginas, até finalmente pensar na besteira disso e desistir da queima de arquivos.


1940 – Há uma passagem do diário de Virginia Woolf que sempre me impressionou. Ela diz: “Book flopped. Sales down to 15 a day since air raid on London. Is that the reason? Will it pick up?” Soa lunático que alguém se preocupe com a venda de livros enquanto a Segunda Guerra Mundial bate à porta. Ao mesmo tempo, parece uma medida, ainda que desesperada, de tentar operar em algum grau de normalidade quando isso se torna tão distante.


Gavetas (2) – Tenho as sobrancelhas do meu avô e uma cópia impressa de uma entrevista que ele concedeu ao exército brasileiro em 1978. General-de-Brigada, Comandante da Companhia de Petrechos Pesados do I Batalhão do 11º Regimento de Infantaria, o meu avô começa seu relato dizendo: “Numa ocasião qualquer, aproximadamente em março de 1943, recebemos um radiotelegrama do Ministro da Guerra (...).” Está no oitavo tomo da História oral do Exército na Segunda Guerra.


O meu avô fala na segunda pessoa do plural o tempo todo. “Devo esclarecer que fiz um Diário de Guerra, um Diário de Campanha, em que registrava os eventos principais”, ele diz, numa das raras passagens em que se coloca assim, destacado de outros. “O Diário de Campanha é uma coisa íntima e sagrada, um confidente nas alegrias e tristezas. Nele surgem, a par de episódios alegres e passagens divertidas, nossas esperanças e ideais, enfim, o sentimento dos instantes que passam e são fixados com toda a franqueza possível, configurando, portanto, documento inestimável, principalmente quando se trata de fatos que dizem respeito à participação ativa do Brasil na Segunda Grande Guerra. Hoje, o Diário de Campanha é recordado com grande vibração porque nos faz reviver os momentos emocionantes em que foi escrito. Faz relembrar nomes que em outras ocasiões significavam mocidade, entusiasmo e ações. Hoje, suas matérias, seus

corpos estão fragmentados pela ação do tempo. No entanto, seus nomes e suas imagens já não pertencem às famílias e aos amigos. Permanecem na gratidão da História.”


Tento imaginar o meu avô, que não conheci, abrindo suas gavetas, mais de trinta anos depois.


Monte Castelo – O diário começa em 21 de setembro de 1944, uma quinta-feira. O meu avô descreve a partida, fala em “alegria”, comenta sobre apostas bobas – cem dólares para quem primeiro avistasse a Linha do Equador, causa de um pequeno motim à bordo do navio General Meighs: “(...) houve quem jurasse ter visto a Linha do Equador toda cheia de bandeiras verde-amarelas.” Há piada, também, em relação ao Comandante do Pelotão de Sepultamento, chamado por todos de “Tenente Caju”, auxiliado por “Sargento São Francisco Xavier” e “cabo São João Batista”, em alusão a três cemitérios do Rio de Janeiro. Não sei como reagir.


Meu avô não poupa críticas à precariedade das condições da ida do Brasil à guerra. A falta de preparo psicológico dos combatentes, a má qualidade dos uniformes brasileiros e seus tecidos inadequados para o inverno europeu, a semelhança do nosso fardamento ao dos inimigos, a mobilização militar, o desaparelhamento das Forças Armadas, o desconhecimento de boa parte do armamento utilizado no front e até a falta de uma legislação “capaz de atender às necessidades de uma guerra moderna, sobretudo no exterior”. A história que me venderam era diferente. Envolvia condecorações, heróis, o País com maiúscula. E não é que as glórias não estejam no relato, de alguma maneira. Mas o que gosto de encontrar ali é o avesso. O meu avô julgava que nem mesmo a guerra lhes havia sido explicada convenientemente. Aos poucos as palavras “amargura”, “dor”, “precariedade” tornam-se constantes no relato. O meu avô chora suas baixas, e eu choro também.


Praça Onze – O Batalhão dele ficou rapidamente conhecido como “Laurindo”. Segundo meu avô, um apelido pejorativo ligado a um samba popular cuja letra, em determinado trecho, dizia: “Laurindo desceu o morro pra dizer que a Praça Onze tinha acabado”. Em uma operação complicada e atabalhoada, descrita em pormenores no diário, o Batalhão tinha debandado ao ser ver sob risco, descendo o morro dos Apeninos de forma não muito correta. Era uma das primeira movimentações do Batalhão em solo italiano. Faço um desvio para procurar a música.


O primeiro Laurindo que encontro é um tocador de cuíca que aparece num samba de Noel Rosa. Outro Laurindo, de Herivelto Martins, faz o contrário do que pensava o meu avô, e sobe o morro gritando “não acabou a Praça Onze, não acabou”. O personagem se consolida numa trilogia de Wilson Batista. Diretor de bateria da Mangueira, Laurindo larga o carnaval para lutar na Segunda Guerra. Volta pra casa fazendo comício, “o cabo Laurindo falou / toda a escola de samba aplaudiu”. A responsabilidade do meu avô com seus Laurindos é tocante. Os que voltaram e os que não voltaram.


Voo (2) – Em 1945, como se sabe, a Força Expedicionária Brasileira retorna vitoriosa da Europa. Venceram a batalha e os 18 graus negativos do inverno italiano. Ao final do seu relato, meu avô diz que ainda era cedo, historicamente, para uma avaliação do que representou a participação da FEB na Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, ele faz inúmeras observações tanto no que diz respeito ao desafio do desenvolvimento do país quanto aos métodos de enfrentamento dos horrores da guerra por seus Laurindos, reproduzindo poemas galhofeiros publicados anteriormente em edições do Exército.


Por alguma razão, nunca vi os diários originais do meu avô. Sei que eram escritos a lápis. É provável que já estejam se apagando.


Penso no garoto esturricado de sol, “yin than yang”. Seus versos estranhos, seu figurino desconjuntado, seus desejos amarrados ao pulso, a caligrafia em letra de forma, traços feitos com força a caneta, daqueles que marcam a página seguinte, registrando duas vezes o que quer que seja. A risada talvez fosse a certeza de poder rasgar tudo um dia, à conveniência do tempo. Apagar os vestígios. Ou pregar uma peça em quem por acaso os encontre, em escombros de uma outra Praça Onze.


*****


A AUTORA


Julia Wähmann nasceu em 1982, no Rio de Janeiro. É autora dos livros: Manual da demissão (Record, 2018 - semifinalista dos prêmios Oceanos e Jabuti, na categoria romance, em 2019), Cravos (Record, 2016) e os zines André quer transar (Pipoca Press, 2015) e Diário de Moscou (Megamíni/ 7Letras, 2015). Teve textos publicados no jornal O Globo e na revista Granta em Língua Portuguesa, entre outros.

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