• Capitolina Revista

José Santana Filho

RUBI




A festa começou a esquentar faz pouco, mas é agora que decido sair, porque se fez o que deveria ser feito e a bebida já rolou o suficiente para elevar o som em muitos decibéis, instaurando a histeria no meio da sala, sob o globo de luz fosforescente, para onde se arrastam todos. Faço de conta que vou ao lavabo do lado da porta de entrada, mas em vez de entrar abro a porta agora de saída, me deslocando até o corredor num silêncio minúsculo, eu não sou vista e ninguém me acompanha, desfeito o impacto de minha chegada há uma hora e meia, quando o contrário se deu.

Desce alguém do elevador, eu não me volto, tomo o rumo da escada, apesar do décimo oitavo andar e de estar escuro o vão projetado no lado de lá do corredor. As luzes automáticas acendem na medida dos meus passos ou à altura da cabeça, nunca sei sobre o mecanismo de alarmes e iluminação, porém sigo, desço as escadas com alguma pressa, sem exceder a cadência necessária para acionar as luzes, remetendo-me à voz da comissária de bordo avisando que, em caso de emergência, luzes automáticas se acenderão, e todos os passageiros, nós, estaremos em condição visual de insuflar o colete salva-vidas para flutuar no oceano, ou abrir as asas de isopor antes de despencar terra abaixo. Pois eu sigo despencando terra abaixo, divertindo-me com esse jogo de gato e rato entre mim e a iluminação automática do edifício, aliviada por ter saído daquela sala, a este momento, insalubre.


Quando desço do elevador no décimo oitavo, estou decidida a me fazer notar, e tão logo Alessandra abre a porta, encaro a sala em visão aérea, de maneira acintosa, como se de fato fosse esperada por esta gente em pé, em torno umas das outras, mal iluminadas pelo grande castiçal, onde as velas se dispõem em carrossel. Negro é o que todas vestem, pretinho é como se diz, e digo, embora não vista a cor, porque prefiro as estampas coloridas, os losangos superpostos no vestido de verão descendo-me aos pés calçados pela rasteirinha vermelha. E toda a matilha, com certeza atraída por esta mirada panorâmica, se volta para a porta e me desnuda ali, uma Bethânia invadindo a cena com fôlego, serpenteando na boca do palco essa ondulação longilínea de corpo, apenas para tracejar o movimento de pássaro em voo.

Luana dirige-se a mim, está a dois passos da porta, sorri um riso de aparente surpresa com minha chegada, e digo aparente porque Humberto Henrique, o dono do apartamento que também é meu, informou a ela que eu viria, apesar das solicitações em contrário, e aqui estou. Luana não acredita que tudo o que vivemos, eu e Humberto Henrique, tenha ficado para trás, apenas porque comuniquei a ele a paixão inesperada por Vitor Lee, o instrutor de tiro, e Luana deseja ocupar meu lugar no apartamento, na cama, na conta bancária, na família cindida que ele agora tem, em toda a vida espetaculosa de Humberto Henrique. A vida etiquetada de HH, na qual, para cada assunto corresponde um arquivo. No momento, ocupo o arquivo de contas a receber, embora sua vacuidade insinue não haver lugar para cobranças nessa assepsia ética, entretanto é mentira, a necessidade de cobrar faz parte do caráter desses homens que, por vitoriosos, se recusam a perder, inclusive o que não querem mais. Humberto Henrique, temente ao Deus a quem reservou um arquivo de louvores e rituais, não foge à regra. Pelo que percebo, Luana, apesar da bundinha empinada e dos lábios concebidos para se morder, não ultrapassou o arquivo morto e se rebela.

Humberto Henrique vem a mim com os braços estendidos e o riso na boca, não de surpresa, de gula, eu retribuo, porque também é de fome o movimento que me conduziu da cama do apart-hotel ao chuveiro, do chuveiro ao espelho da sala, dali à calçada, ao taxi, novamente a calçada, o hall do edifício, o elevador, a sala do nosso apartamento e a ele. À Luana. Mas em nenhum momento deixo transparecer a fome; antes, recolho os caninos, simulando a saciedade de quem aporta do banquete de Pantagruel.

Os incomodados com a minha presença olham-me de baixo para cima. De cima para baixo, os que se envergonham por Humberto Henrique, e à altura dos olhos os que reconhecem e se rendem à indigência nos acometendo a todos, os humanos. São estes os que se encaminham em minha direção, e vêm os abraços, cortejos, sorrisos, são tantos perfumes.

Luana se intromete num desses abraços e me conduz, deslizando comigo para o centro da sala, os efeitos da iluminação traçam riscos coloridos na cara dela e na minha, sem nos permitir distinguir se convocam à guerra ou sinalizam alguma tribo comum, é tão leve o corpo de Luana quando dançamos Grace Jones afirmando La Vie en Rose em acordes pulsantes, vibrando tudo por aqui e entre nós.


As únicas criaturas com as quais cruzo enquanto desço as escadas são os fantasmas da minha própria produção. Apenas em condições especiais, moradores destes prédios de luxo optam por escadas e angulações de joelhos, apesar das advertências contra o sedentarismo de automóveis, controles-remotos e elevadores. Não cruzo com ninguém em sentido contrário, porém, à altura do terço final da descida, ouço ruídos se aproximando, alguém desce atrás de mim, um, no máximo dois andares acima, obrigando-me a acelerar o passo, porque se é alguém me chamando de volta, não me fará voltar, se algum convidado tiver interesse em pedir meu contato, perde o tempo e desgasta as panturrilhas ao descer, não havendo testemunha para o que aconteceu na suíte de casal, a não ser Humberto Henrique, porém ele não desceria as escadas, não a esta hora, não atrás de mim.


Eu e Luana seguimos dançando pelo corredor circundando os quartos na sequência da sala de dois ambientes, sob a mira de Humberto Henrique encostado na parede, os braços cruzados, uma perna fletida sobre a outra, cigarro, e dentro dos olhos dele, emoldurada pelas sobrancelhas grossas, intuo a presença antes inexpressiva da garota, expande-se Luana, porque foi contaminada pelo meu contato, e é certo que a partir deste momento ele verá ali mais do que a menina pronta a lhe oferecer os lábios túrgidos, como se depositária da fome africana.

Deslizamos até o quarto do casal e agora é a mim que são oferecidos os lábios de Luana, os beiços de Luana, eu começo a lambê-los com a ponta da língua, avaliando com o dedo indicador a umidade íntima de Luana, e começo a chupar sua boca, os cantos da boca, as comissuras de um lado, do outro, a mandíbula, ela tenta sorrir com lábios e olhos, mas eu silencio a língua dessa menina, explorando o fosso de mucosas, onde a integridade física da juventude confere sabores adocicados à saliva. É quando cometo o crime, para Humberto Henrique crime, fechando a porta na cara dele, e despencamos no colchão apenas as duas, Luana em decúbito dorsal, a saia subindo aos peitinhos, os peitinhos de Luana escapulindo da camiseta ao meu encontro, pernas e braços arreganhados, ilíacos pontiagudos, os ossinhos do quadril emoldurando a pelagem que vou alcançar logo mais. Por enquanto, mantenho-a submissa pelos punhos numa espécie de crucificação, cobrindo-a feito um touro, roçando, moendo, fazendo ranger o colchão, e deve haver algum Deus nessa regência litúrgica, porque é com facilidade que a língua faz piruetas no céu da sua boca ao mesmo tempo que somos tragadas pelo incêndio magnífico de nós duas.


Pensando melhor, não duvido que seja Humberto Henrique em meu encalço, é possível sim, pelo mesmo motivo que me deixou no contas a receber após ser informado da paixão pelo instrutor de tiro, o Vitor Lee de pontaria exemplar, sua arma tesa esporrando projéteis em minha boca. Vem tirar satisfação, conheço os homens, em especial os habituados a alinhar vaidade e insegurança, tentando se equilibrar na corda que eles mesmos esticaram sobre suas cabeças, a corda da qual não conseguem descer nem deslizar com os movimentos capazes de embelezá-los ou apascentar nossa miséria comum.

Agora não há dúvida, Humberto Henrique vem atrás de mim, quer explicações, e de onde a idéia de distinguir essa menina que só tem os beiços para oferecer, que desconhece Grace Jones, La Vie en Rose, depila a virilha em asa delta, não come carne por solidariedade aos animais, toma suco detox no café da manhã, hein? De onde o desejo de comê-la sozinha, feita prato principal, no máximo acepipe essa Luana capaz de abrir a boca para dizer “estou de boa”, enviar beijinhos de luz no Facebook, abraçar tronco de árvore para se energizar, já não basta o instrutor de tiro, quanta atração pela mediocridade, você enlouqueceu ou o quê?

De fato não era esse o combinado, a menina seria o petisco para o prato principal, nem mesmo a sobremesa seria, pois nos fartaríamos um do outro ao ponto de não termos apetite para mais nada, então só pode ser este credor quem agora me segue e já quase me alcança, as pisadas se aproximando, mais perto, mais perto, acelero os passos engolindo os últimos degraus com as sandálias, não quero dizer nada, não tenho o que explicar, não desejo vê-lo, Humberto Henrique.


Mas não é Humberto Henrique quem finalmente me alcança, aperta-me o ombro, fala meu nome e me retém, fazendo-me estancar, indelicado, inoportuno. Não esperava meus olhos de repúdio esse instrutor de tiro da pontaria exemplar, Vitor Lee no jeitão concêntrico, surpreso com minha saída no momento que ele chegava à festa, eu mesmo o convidei e ele veio, e veio apenas para estar comigo, por que não o esperei, não queria vê-lo, sou tão leviana, que pressa é essa? Eu tenho pressa, Vitor, é o sono, o trabalho, não moro mais neste apartamento, mas ele segura os meus braços com ambas as mãos e me puxa para si, quer minha boca, aperta o meu corpo contra o dele, aperta mais, eu sinto o pau do Vitor pulsando no meu umbigo, atrás dele Luana esbarra ofegante, eu tiro o revólver do cós da sua calça no instante que não estamos favorecidos pela iluminação

automática, e o deixo cair ao chão, mas Vitor não tem tempo de recuperá-lo, Luana já pegou o revólver e o volta para ele tão logo me desfaço dos seus braços, é quando escuto o tiro único, seco, na cabeça do instrutor de tiro, e Vitor, vergando e contorcendo a cara, rola os últimos degraus a caminho do térreo.


É Humberto Henrique quem chama a polícia, liga dali mesmo, acabou de chegar, e Luana é conduzida ao camburão algemada, de lá se volta para nós, está muda a garota, está pálida, enquanto Humberto Henrique passa o braço pelo meu ombro, eu descanso a cabeça no ombro largo que ele tem e aspiro a fragrância do colarinho engomado por Edileuza, porque tenho sono, estou exausta, a noite esteve longa demais.

A viatura sai, as luzes girando no teto têm o brilho do rubi indissociável do meu anelar esquerdo desde que HH sacralizou em vermelho o nosso matrimônio, trancafiando-o no arquivo onde armazena os blocos de ferro e os documentos invioláveis.

Permanecemos em pé na calçada, juntos e dois, sólidos e verticais, porque o que Deus uniu o homem não separa.



O AUTOR

José Santana Filho nasceu em Balsas, interior do Maranhão, e vive em São Paulo desde 1982, quando se formou em medicina. É psicoterapeuta. Autor de O rio que corre estrelas, O beijinho e outros crimes delicados, A casa das marionetes e Flor de algodão.

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