• Capitolina Revista

João Silvério Trevisan




A IDADE DE OURO DO BRASIL


romance de João Silvério Trevisan

(Ed. Alfaguara, 2019)


Sobre:

Estamos em 2009. Lula segue no auge do poder, o Brasil compõe o grupo dos BRIC e os poços do pré-sal começam a jorrar otimismo. Em uma mansão no interior de São Paulo, durante os feriados de Páscoa, seis políticos e empresários bem-sucedidos se reúnem para articular a criação de um novo partido. Usando a estrutura partidária, esses homens almejam acesso fácil aos cofres do Estado, com um olho no porvir alvissareiro.

Sonha-se com aquilo que finalmente vai se tornar real: a idade de ouro do Brasil. O encontro tem tudo para dar certo, não fossem dois imprevistos. Primeiro, a visita de um ex-capitão do exército, que os colocará em xeque. Depois, a entrada em cena das Afrodites da Paulicéia, trupe de travestis exuberantes. Sob o comando da veterana Vera Bee – professor universitário durante o dia, que à noite se monta e fornece cocaína à clientela – elas são convidadas para alegrar o final dos trabalhos. Nas noites de excesso que se seguem, os antagonismos se acirram. O poder, disputado a ferro e fogo, apontará para um caminho tragicômico, em que não há heróis, nem inocentes. O Brasil vai acordar do seu sonho esplêndido.



Sequencial 8


Money makes the world go around, the world go around, that clinking clanking sound of money-money-money… No salão de cinema, as Afrodites rodam de um lado para outro, se chacoalham e rebolam acompanhando a canção, em coreografia um tanto desordenada. Money makes the world go around, of that we can be sure… money money money…

Um frêmito de susto percorre os corpos das dançarinas, ao ouvirem berros vindos do salão de reuniões.

— Peraí, peraí, eu errei tudo. Era para entrar com o sapateado…

— Ai, Grinalda, de novo?

Estão todas ofegantes. Dalila Darling desliga o som. Mostra-se impaciente. Maria Grinalda reclama, tentando minimizar seu tropeço:

— Ai, bicha, essa coreografia é muito complicada.

— Não é complicada porra nenhuma. — Gloriosa de Orleans põe as mãos na cintura, com determinação. — Depois do sapateado tem aquela viradinha e então levanta o rabo, para o dinheiro cair dentro do cu. A gente já ensaiou pra caralho. É só prestar atenção, viado.

Dalila interfere, não sem malícia:

— É que hoje a senhora tá toda requenguela, né?

Grinalda ri , conivente, e segreda:— Vai ver eu tô mesmo. Depois do oré de ontem à noite…

— Hummm, exibida. Se aquilo for oré que preste… Um magricelo varapau.

— Brinca não, beeecha. O bofe é um fogo só. Com uma jeba! Meu edi ainda tá pegando fogo.

— Pelo jeito tá é afolozado…

Quando Dalila vai ligar a música de novo, Abelha Rainha irrompe salão adentro.

— E então, bicharéu, como vai esse show?

— Nossa, Abelha, tu não morre mais. Chegou na hora certa. A música que tu me passou é um arraso. Mas a coreografia tá complicada.

— É por causa desse cling clang, tem que virar pra cá, pra lá e depois… Justo quando eu vou dar a volta, caga tudo…

— Essa monga da Grinalda tropeça toda vez e perde o passo.

— Ué, se está complicado, melhor cancelar. Já tem número mais do que suficiente pra hoje à noite.

— Por falar nisso, Abelha, e os home? Já deram notícia?

— Afe, que demora, Abelha.

— Bichas, é pra gente esperar, eles ainda não acabaram a reunião. O dr. Otávio vai me avisar, tá?

Isso dito, decidem repassar o show. Sem o “Money” da Liza Minelli.

Abelha se senta num sofá diante delas. Pronta para assistir, sem esconder o orgulho da trupe que criou. Cada menina toma seu lugar, em pose de grande estrela. Dalila dispara as músicas. As Afrodites começam desfilando, soltando a franga durante os acordes da introdução. Então Maria Grinalda toma a frente sei que eu sou bonita e gostosa e sai chacoalhando frenética todo seu silicone sei que você me olha esfregando bonita e gostosa o peitoral e me quer com gestos lascivos eu sou uma fera e solta olhares de sedução barata eu sou perigosa às vezes correndo atrás da dublagem sem tempo de respiro vou fazer você ficar louco, e não há mesmo tempo pra respiro quando lá vem entrando Dalila Darling e se requebra e roda as mãozinhas espertas de falsa baiana no tic tac que marca o compasso do meu grande amor quase Pequena Notável e o tic tac do meu coração rebola com brejeirice e os dedos no tic tac rebolam enquanto ela remexe as cadeiras é um aviso do meu coração revira os olhinhos morrendo de tanto sofrer e dá um breque no tic tac final, e há um respiro de verdade quando entram acordes majestosos que fazem esmorecer as luzes e Gloriosa surge de rosto lamentoso emprestando seus lábios para a diva Piaf je ne regrette rien nem o passado importa e se despe de tudo suas dores seus prazeres porque je repars à zero e Gloriosa, a ruiva de Orleans, olha o infinito pronta para recomeçar do zero avec toi, ah, mon amour, mon amour, mas nada de lágrimas!, parece dizer Lili, que em seguida irrompe aos pulinhos com sua Beyoncé de perucão loiro dublando all the single ladies com brilho todas solteiríssimas então dá licença you gonna learn sim, nossa safadeza é deslavada porque another brother noticed me, baby e se você gosta mesmo put a ring no meu dedo exigente porque somos all single ladies, baby, cadê o anel, cadê o anel, entram todas dançando com entusiasmo de ladies. E aí Lili tropeça, e quase cai.

Lili se reequilibra, mas insatisfeita com seu número. De repente, pergunta se não seria melhor entrar com aquela música da Etta James em vez da Beyoncé, Etta entrando, com seu traseiro pra lá de avantajado, de tamanho iiii-li-mi-taaa-do, fazendo da bunda o centro da musicalidade em cena e incendiando o público, então Lili mostra o rabo e rebola como se o popozão de Etta James tivesse vida própria. Mas ai, Beyoncé…, ah, Beyoncé, quem poderia resistir à beleza dessa amapô neguinha? Sim, a voz é tudo, mas ah, tem aquele rebolado, safado como só ela, coxas perfeitas, ancas de diaba no cio, porque só Beyoncé tem o que mostrar, verdadeira deusa que é.

Numa disputa que já parece antiga, Maria Grinalda interrompe, com desdém:

— Sem essa, mona, igual o Michael Jackson não tem. Aquilo é que é dançar!

Lili protesta, estonteada ante o atrevimento:

— Qual é, bicha. Como alguém pode dizer que o Malco Jeckso… aquela maricona enrustida… dança melhor que a Beyoncé?

Abelha, um pouco irritada com a interrupção do ensaio, não perde a oportunidade e põe em ação sua naja, quase escandindo as palavras:

— Beyoncé pode ser o máximo, Lili. Mas Malco Jeckso só existe na sua cabeça. A menos que você esteja se referindo ao grande Michael Jackson…

Infelizmente, Abelha interfere na hora errada. A dúvida de Lili é real, e ela percebe a estocada maldosa. Desta vez, não parece disposta a suportar a provocação, não naquele momento, não justamente quando defende sua diva-mor. Está armado um clima de tensão explosiva, longamente adiado e maturado. Começa aí o maior bafão. Lili alarga os peitos, para que baixe uma Beyoncé assim igual Pomba Gira e, decidida a acaralhar mesmo, caminha até Abelha, em passos de diva, movendo ancas não de mera égua, mas de potranca, num gingado de puro ódio, até se postar frente a frente com a Rainha. Trata-se ali de duas majestades, em resumo. Então Lili destampa de vez tudo o que sua alma tem para vomitar:

— Malco Jeckso existe porque eu quero, dona Abelha. Quem a senhora pensa que é? Diga? Só a senhora sabe tudo? Então fica aí botando roupa de mulher pra quê? Nem bonita é, sua monga. Só pode ser frescura de cu preso, porque nunca enfrentou a rua. Enquanto a senhora dá suas aulinhas pra gente fina… quem enfrenta a merda são os viados aqui. A vida inteira comendo o pão que o diabo amassou. É ou não é, beeechas?

Ferina, faz um gesto abarcando as outras colegas. Grinalda se aproxima, solidária. E Lili, sabe quantas vezes fui presa? Perdi a conta, era só uma viatura passar, os alibãs paravam e lá ia a bicha preta, chutada pra dentro feito bicho até a delegacia. As demais sabem do que ela fala. A mágoa guardada solta-se súbita, quase ao mesmo tempo, em catarse coletiva. Não podem calar. Grinalda, fui jogada na rua por minha família, eu ainda nem tinha terminado o grupo escolar, feito cadela. E Dalila, sabe quantos primos me estupraram quando criança? Cinco, sem contar um tio e os vizinhos. E Gloriosa, fiquei mudando de escola em escola porque apanhava dos colegas, era o viadinho da classe. E Grinalda, tem as surras, primeiro do meu pai e depois na rua, já perdi a conta das vezes que fui parar em pronto socorro, aguardando horas no corredor. E Gloriosa, me deram um coió no banheiro masculino, eu queria ir no feminino, mas não podia, então mijava na calça. E Dalila, sabe quando comecei a prostituição? Com doze, doze anos e eu na estrada, sendo comida por caminhoneiro, por uns trocadinhos. E Lili, levei mas também dei muita porrada, fiz os alibã sentir o gosto do meu sangue. Para comprovar, Lili Manjuba estende na cara de Abelha seus dois braços cobertos de cicatrizes de gilete e estilete. É sua melhor escultura.

— Porque aqui não tem Afrodite mais verdadeira do que eu, tá sabendo? Olha só! — Lili arranca da cabeça o picumã loiro de Beyoncé e mostra seu picumã real, com a mecha rubra ressaltando de um lado. — Eu sou Afro, porra! Afro-Dita de nascença. E foi assim que enfrentei tudo, e vou enfrentar você, Abelhuda de merda.

Ofegantes, as outras Afrodites não se sentem usurpadas, apenas constatam com admiração, ou espanto, a Pomba Gira que baixou em Lili, agora nem Manjuba, nem Holiday, mas tão somente Lili Negona, a apoplética Necona.

Após pequeno silêncio, Abelha pergunta:— Já acabou seu discurso, Lili Holiday?

— Ainda não, madame. — Lili se encontra tão senhora de si que decide, como promessa pública: — Vou dublar Beyoncé mesmo. Foda-se a bunda da Etta James. Vou ser uma mulher linda, pra colocar de joelhos os homens que eu quiser.

Lili resfolega, triunfante.

Abelha fica parada, lívida. Mas não ostenta arrogância nem raiva, menos ainda ressentimento. Há em seu rosto algum traço de compaixão legítima. Talvez admiração. Ou talvez fosse súbito afeto, porque seus olhos cintilam mais do que o normal. Paira um silêncio reticente no salão. As Afrodites se entreolham. A voz de Abelha soa com determinação:

— Eu quero pedir perdão. Vem cá, Holiday.

Lili titubeia. Depois se aproxima, desconfiada. Abelha a abraça apertado e beija-lhe o rosto. Lili sorri com certa insegurança, mas condescendente:

— Sua abelhuda horrorosa…


Antes de ligar o som, Dalila Darling consulta:

— Tudo certo para o encerramento do show, amigas?

— Colocadíssimas, querida! — todas quase numa só voz.

Alinham-se. A música dispara. Dos céus desaba então a vertigem final, ah, porque está muito úmido e a previsão do tempo indica get ready, all you lonely girls é chuva pesada chuva como nunca se viu mas deixem as sombrinhas em casa o melhor é sair pra rua, e sacodem peitos bundas braços e saltam se contorcendo e voltam aos velhos tempos em que for the first time in history aconteceu e é motivo para dançar e rebolar porque, meninas, it’s raining men, hallelujah! e celebram it’s raining men, amen! no meio da abençoada chuva de homens clientes amantes não importa estão ensopadas celebrando God bless Mother Nature e nos clubes noturnos seu público se solta it’s raining men o entusiasmo se multiplica no momento culminante it’s raining men soltam a franga hallelujah! verdadeiro galinheiro quando entra o duelo final de bate-cabelo amen! dançar e celebrar porque chovem homens hallelujah! em alegria genuína, tudo é pretexto para o juízo rodar hallelujah! os picumãs em transe, todas girando as cabeleiras, Lili com seu perucão loiro à Beyoncé sacudindo, sim, picumãs chicoteados que produzem o transe diretamente nos cérebros hallelujah! drogadas de felicidade inacessível aos ingênuos e pobres de espírito hallelujah! picumãs que zoam no ar fustigando apoteoticamente as dores, porque o céu se abre, Deus abençoa a natureza e faz cair homens às pencas, homens de todos os matizes, pobres homens felizes por alguns instantes, tantos e tantos machos anônimos hallelujah! mas tão próximos tão íntimos nas ruas nos carros nos motéis, e elas se sentem deusas dos mocós, e suas cabeleiras zoam e zunem e celebram it’s raining men, amen! É assim, com uma batalha de valquírias despudoradas, que as Afrodites pretendem encerrar o show dessa noite.



O AUTOR


João Silvério Trevisan nasceu em 1944. Ativista na área de direitos humanos, fundou em 1978 o "Somos", primeiro Grupo de Liberação Homossexual do Brasil. Tem catorze livros publicados, sejam ensaios, romances ou contos. Entre outros, é autor do romance Pai, Pai e do já clássico estudo multidisciplinar Devassos no Paraíso. Realizou também trabalhos como roteirista e diretor de cinema, dramaturgo, tradutor e jornalista. Recebeu três vezes os Prêmios Jabuti e da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA). Em 2018, foi finalista dos Prêmios Jabuti e Oceanos.


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