• Capitolina Revista

Jacques Fux (conto) e Rodrigo Lopes de Barros (ensaio)



Ménage à trois 1




A moça do meu “bom dia” surge. Sozinha. À une passante. Num ímpeto de ansiedade, quase me levanto para conversar com ela. Recalco inteiramente meus desejos. Se eu me relacionasse com ela, todo o meu argumento literário se dissiparia. Acalmo meu coração e minha mente. Ela veste uma saia jeans e uma camisa branca. Biquíni preto por baixo da roupa. Cabelos presos. Dormiu bem. Muito bem. Parece relaxada e tranquila. Gozou? Ela não me olha. Não me vê. Está com uma máquina fotográfica ao seu lado. É uma máquina profissional. Possui um zoom gigante. Fotógrafa. Busca a própria beleza refletida no olhar dos outros. Ou apenas a morte. A minha morte de prazer? “A fotografia é uma testemunha, mas é uma testemunha do que já não existe. Um flerte com a morte.” Ela come uma deliciosa tapioca com queijo e presunto. Déjeuner du matin. Toma um pouco de suco de laranja. Bebe uma xícara de café com leite. Minha reinventada musa do poema de Prévert.


Ela, minutos depois, não resiste aos prazeres do doce e decide comer um churro. Um churro, meu Deus! Subo aos céus. Uma linda mulher comendo churros é verdadeiramente uma experiência religiosa. Uma reconciliação do ser humano com o fato de possuir um corpo, que não só é capaz de causar dor, mas de vislumbrar momentos de prazer fugazmente intensos. Sonho. Emociono-me com sua boca. Com seus lábios carnosos. Com a possibilidade de ter e dar prazer com a simples fricção de sua língua. Sinto um tesão incomum. Ela segura esse objeto-desejo com a mão direita, apertando delicadamente o churro com quatro de seus dedos. Apenas o seu dedo mínimo não está em contato direto com o seu objeto de cobiça momentâneo (como eu queria que ela estivesse me acariciando).


Ela busca a melhor forma para dar a primeira mordida enquanto admira a imperfeição imponente do doce que vai abocanhar. Vira o rosto para o lado direito e para o lado esquerdo. Abre levemente os grandes lábios. Ai! No limiar do contato desse néctar com sua língua, ela fecha inconscientemente os olhos. Quer viver a sua religiosa, deleitosa e egoísta experiência de gozo sem a apreensão visual. Apenas com a memória fálica.


Ela dá a primeira mordida no churro de chocolate. O chocolate escorre pelos seus dedos, pela sua boca, pelos seus lábios. Ela, em sobressalto, abre os olhos e esboça surpresa e admiração diante de sua obra. Diante da mordida pecaminosa. Diante do deleite do chocolate. “Come chocolates pequena suja. Come chocolates”. Ela sente um misto de perplexidade e encanto. Passa rapidamente, e com imensa destreza, a língua ao redor dos seus lábios para que o chocolate deixe de escorrer. Lambe urgentemente os dedos, a palma da mão, as unhas. Troca, ansiosa, o churro de mão para lamber o resto do chocolate que insiste em derramar pelo seu braço. Corrige a bagunça que fez com pequenas lambidinhas. Respira fundo, sorri, se acalma.


“Seu corpo anseia por mais um pedaço de prazer. Por mais um momento de delírio trepidante. Por mais metafísica. Ela, excitada, dá mais uma apetitosa mordida e sou eu também que sinto

prazer. Uma vontade excessiva de me lambuzar, de me emporcalhar, de me regozijar com ela e com o churro. Ménage à trois. Ela lambisca o doce empanzinando-se de prazer, de endorfina, de sedução. E eu rezo solenemente. Oro por mim e por todos os voyeurs. Não vejo mais sentido algum para vida. Para a literatura. Para a minha doença. Não me questiono mais sobre filosofia alguma. Somente a sinto penetrar e percorrer o meu corpo. Estou diante do Sublime e da Beleza, e não consigo suportar essas sensações. Choro. Sou um mendigo. Não consigo mais ver o espetáculo que ela, e minhas invenções, me apresentam. Levanto ereto, mirando os céus. Sinto a existência do Brahma. Olhar e desejar assim, tão de perto, ainda que ela seja inacessível, corrompe. Maltrata. Vislumbro o meu pobre gozo. Mendicante, dirijo-me loucamente para o meu quarto. Para meu banheiro. Onã, o pequeno porco. “Weeshwashtkissima pooishthnapoohuck!” Gozo para me reconciliar com a ficção da moça do meu “bom dia”.


Ménage à Trois 2


Translated by Vanessa Munford


My “good morning” girl appears. Alone. À une passante. In a rush of anxiety, I almost get up to talk to her. I repress the desire. If I were to get involved with her, my whole literary argument would dissipate. I calm my heart and my mind. She is wearing a denim skirt and a white shirt, with a black bikini under her clothes. Her hair is pulled back. She slept well, really well. She appears relaxed, peaceful. Has she just come? She doesn’t look at me. She doesn’t see me. She has a camera next to her. It’s a professional one with a huge zoom lens. She’s a photographer, searching for her own beauty, reflected in the eyes of others. Or only death. Is it my death from pleasure? “A photo is a witness, but it’s a witness of something that no longer exists. It’s a flirt with death.” She eats a delicious tapioca wrap with cheese and ham. Déjeuner du matin. She has a sip of orange juice. She drinks a cup of coffee. My reinvented muse from Prévert’s poem.


Minutes later, she can’t resist the sweet temptation and decides to eat a churro. My God, a churro! I’m on cloud nine. A beautiful woman eating a churro is truly a religious experience. It is human beings’ reconciliation with the fact of having a body that is not only capable of causing pain but also of glimpsing fleetingly intense moments of pleasure. I’m daydreaming. I get excited by her mouth. By her plump lips. With the possibility of her feeling and giving pleasure with a simple flick of her tongue. I feel unusually horny. She is holding the object of desire with her right hand, delicately squeezing the churro with four of her fingers. Only her little finger is not in direct contact with her object of momentary desire. How I wish it were me she was caressing.


She looks for the best way to take the first bite whilst admiring the grand imperfection of the sweet treat she is going to bite into. She turns her face to the left and to the right. She opens her great lips slightly. Oh! About to feel the nectar on her tongue, she unconsciously closes her eyes. She wants to feel the religious, delightful, selfish experience of coming without visual apprehension. Only with the phallic memory.


She takes the first bite of the chocolate churro. The chocolate runs down her fingers, her mouth, and her lips. With a jolt, she opens her eyes and shows a look of surprise and admiration at her work. At the sinful bite. At the chocolate delight. “Eat your chocolates, little girl, eat, dirty little girl, eat.” She feels a mixture of confusion and delight. With great dexterity, she quickly passes her tongue around her lips to stop the chocolate from running. She urgently licks her fingers, the palm of her hand, her nails. Anxiously, she shifts the churro from one hand to the other to lick the chocolate that keeps on dripping down her arm. She cleans up the mess she made with little licks. She takes a deep breath, smiles, and calms down.


Her body longs for another bite of pleasure. For another moment of rapid delirium. For more metaphysics. Excited, she takes another tempting bite, and I, too, feel pleasure. An excessive desire to smear myself, to smother myself, to fill myself with her and her churro. Ménage à trois. She licks the sweet treat, stuffing herself with pleasure, endorphins, and seduction. And I solemnly pray. I pray for me and all the other voyeurs. I don’t see the point in life anymore. In literature. In my illness. I no longer ask myself any type of philosophical question. I only feel it penetrate and run through my body. I am faced with the Sublime and the Beautiful, and I can’t support these feelings. I cry. I am a nobody. I can no longer watch the spectacle that she and my inventions present. I stand up erect and look up at the sky. I feel the existence of Brahma. Watching and desiring in this way, so close, when she is still inaccessible, spoils everything. It’s mistreatment. I visualize my pitiful ejaculation. Like a beggar, I rush to my room. To my bathroom. Onan, the little pig. “Weeshwashtkissima pooishthnapoohuck!” I come to reconcile myself with the fiction of the “good morning” girl.



Ensaio

RODRIGO LOPES DE BARROS

Fragmento do Ensaio “Jacques Fux, um Pierre Menard tropical”


[...]


A tarefa de um diretor de cinema é muitas vezes subverter o que lhe é presenteado, como um mau hóspede que muda sorrateiramente a disposição de objetivos decorativos na casa onde o hospedam. Quando recebi o convite de Maria Eduarda de Carvalho e Jacques Fux para transformar em filme o conto “Ménage à trois”, fiz dois pedidos que, a meu ver, poderiam levar a coisa mais adiante do que uma simples tentativa de repetição audiovisual. Não sei se no fim das contas cheguei a executar uma subversão, mas acredito que o saldo deve dar aos espectadores e às espectadoras mais pano pra manga. Primeiramente, desejava hibridizar o projeto, ou seja, que o objetivo final ficasse entre a ficção e o documentário, num limiar. Eu deveria designar o filme como obra documental e, em seguida, encontrar o olhar atônito das pessoas, as quais assim não o considerariam, e vice-versa. A peça cinematográfica resultante, intitulada Ménage literário: uma investigação sobre a escrita de Jacques Fux, teria também de constituir uma pesquisa audiovisual sobre o método criativo que está por trás de um conto que,

à primeira vista, aborda um tema demasiado mundano, indigno de maiores elucubrações. Seria um conto a ser abandonado aos escombros da história, se Jacques não escondesse no texto pequenas armadilhas para leitores e leitoras. No conto, estão entrincheirados fragmentos de outros autores, todos canônicos. Mas essas inserções de obras de terceiros não estão acompanhadas de referências claras e determinantes. Não há bibliografia ou notas de pé de página. Não se indica a quem pertencem as passagens que, por meio da voz do narrador, entram em diálogo com aquela mulher observada, com a própria personalidade do voyeur que a espia, e com aquele objeto fálico que irradia o seu encanto sobre ambos.


Em segundo lugar, pedi que a própria personagem do conto, que seria interpretada por Maria Eduarda, também coprodutora do filme, se colocasse a entrevistar Jacques. Ou seja, a atriz seguiria incorporando a personagem e Jacques entraria no filme como ele mesmo, numa performance de si, e responderia às perguntas elaboradas por Maria Eduarda sem a minha interferência. Isso cumpre as funções da tomada de voz pela mulher, rompendo com o que poderia ser criticado como a sua total objetificação, e inverte os lugares da ficção e do documentário: causei a documentarização de um ente fictício e a ficcionalização do escritor real. Durante as rodagens, acabei pedindo que se perguntasse mais uma ou outra coisa que me pareceu relevante à conversa e à elucidação de alguns aspectos da obra de Jacques para uma audiência mais abrangente, mas foi só. Em grande medida, me “voyeurizei”. Afinal, era eu quem carregava a câmera, filmava os atores e o escritor, os quais desempenhavam os papéis que lhes cabiam. Eu falava pouco, muito pouco. Decidi seguir uma linha de direção mais similar à de Woody Allen: cada um fazendo o seu trabalho, com interferências mínimas. O processo de requisição e instrução da música para a trilha sonora, elaborada por João Verbo, parece ter permanecido também sob algo de uma atmosfera alleniana, pois não é à toa que buscamos criar uma peça jazzística. Mas essa minha pouca intervenção no trabalho alheio foi possível graças à qualidade técnica dos envolvidos. Gustavo Machado, por exemplo, precisou de apenas uma tomada para acertar a narração. Fez de primeira, deixando Jacques e eu atônitos. Gravamos mais tomadas da sua voz. Foi, porém, mais por precaução e para ter um leque de escolhas na edição do que por real necessidade. Poderíamos ter ficado apenas com a primeira versão mesmo.


Com a inclusão de uma entrevista no filme, fato que não consta obviamente no conto, ele deixa de ser um ménage à trois stricto sensu. Ou seja, não é mais uma história sobre um simples arranjo sexual entre uma tríade de envolvidos, que no conto tem um caráter até homoerótico: alguém poderia argumentar que o desejo do narrador está tão ou mais ligado ao objeto fálico em contato com a mulher, isto é, ao churro, do que à pessoa observada. E vejam que o narrador, em outros momentos, fixa-se em mais e diferentes elementos pontiagudos ou cilíndricos relacionados à personagem feminina: temos o tamanho da lente fotográfica que ela carrega e também o seu penteado, esse último perdido no filme, mas que no conto está provavelmente preso em rabo de cavalo. Com a entrevista, a peça audiovisual passa a ser um ménage à trois lato sensu: o arranjo triplo é elevado ao campo da metáfora, ao reino do literário.


[...]


Essay

Rodrigo Lopes de Barros

Excerpt from the Essay “Jacques Fux, a Tropical Pierre Menard”

. . .


The task of filmmakers is often to subvert what is presented to them, as if they were a bad guest who sneakily changes the disposition of decorative objects in the house in which one is being received. When I was invited by Maria Eduarda de Carvalho and Jacques Fux to turn the short story Ménage à Trois into a film, I made two requests that in my view could take the entire project to a different level. It would not be just a simple attempt at an audiovisual reproduction of a written piece, but I do not know if I was ultimately able to subvert anything. In any case, I believe that the end result should give spectators more material for discussion. First, I wanted to make the project a hybrid; that is to say, the final product must be somewhere between fiction and documentary, inhabiting a threshold. I would define the film as a documentary and, as a response, would see the bewildered looks on the faces of other people, people who thought the film was actually a work of fiction, and vice versa. The resulting cinematographic piece, titled Literary Ménage: An Investigation into the Writing of Jacques, should also be an audiovisual research on the creative method behind a short story that, at first glance, addresses a theme that is too mundane to be worthy of deep speculation. One would most likely abandon the short story to the shadows of history had Fux not hidden in the text small traps for his readers. The short story actually includes fragments from the works of other authors, all of them canonical. However, those insertions of third-party works do not carry clear and decisive credits. There is no bibliography; there are no footnotes. It is not indicated to whom those passages belong. Moreover, through the voice of the narrator, those passages enter into dialogue with the observed woman, with the very personality of the voyeur who spies on her, and with that phallic object that weaves its spell over both of them.


Second, I asked the female character depicted in the short story to interview Fux. The character should be interpreted by Carvalho herself, also the co-producer of the film. In other words, the female actor would continue embodying the character while Fux would appear in the film as himself, in a performance of himself, and he would reply to the questions posed by Carvalho without my interference. With this gesture, the woman now has her own voice, breaking with something that could be criticized as her complete objectification. At the same time, it inverts the locus of fiction and documentary. I caused the documentarization of a fictitious being and the fictionalization of a real writer. During the shooting of the film, I ended up asking Carvalho to question Fux about a few more things that seemed relevant to the conversation and to the elucidation of some aspects of Fux’s work for a broader audience. But that was it. To a great extent, I voyeurized myself. All in all, it was I who held the camera and shot the actors and the writer—actors and a writer who were performing their roles as intended. I did not talk much, just a little. I decided to follow a directing methodology similar to Woody Allen’s: Each person does his or her job with minimal interference. The process of requesting and guiding the

production of the song for the soundtrack, which was composed by João Verbo, seemed to have also remained under a somewhat Allenian atmosphere. It is not by chance that we sought to create a jazzy piece. However, such an approach of low intervention in the work of others was only possible thanks to the technical quality of those involved. Gustavo Machado, for instance, needed only one take to excellently record the narration—only one take for Fux and I to become amazed. We recorded more takes of his voice. We did so, however, more as a precaution and as a way of having more choices when editing than out of real necessity. We in fact could have walked away with just the first version.


With the inclusion of an interview in the film, something that obviously does not exist in the short story, the piece ceases to be a ménage à trois sensu stricto. In other words, it is no longer a story about a mere sexual arrangement among a triad of people, which in the short story even has a homoerotic nature: Someone could argue that the narrator’s desire is more (or at least equally) linked to the phallic object in contact with the woman (namely, the churro) than linked only to the observed person. Moreover, it is important to note that the narrator, in other moments, stares at different elements that are pointy or cylindric and are related to the woman. He talks about the size of the photographic lens that she carries and about her hairstyle. This last comment does not appear in the film, but is in the short story, where the woman most likely has a ponytail. With the interview, the audiovisual piece becomes a ménage à trois sensu lato: The triple arrangement is elevated to the field of metaphor, to the realm of the literary.



O conto, o ensaio e o filme fazem parte do livro Ménage Literário, publicado pela Relicário Edições.



Para assistir ao curta click aqui.





OS AUTORES


Jacques Fux é escritor, pesquisador, professor e tradutor, nascido em Belo Horizonte em 1977. Formado em Matemática, Mestre em Ciência da Computação, Doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Université de Lille 3, na França, foi pesquisador visitante no Departamento de Romance and Languages em Harvard, entre 2012 e 2014. É também Pós-doutor em Teoria Literária pela Unicamp e pela UFMG. É autor de várias publicações, entre elas Antiterapias (Prêmio São Paulo de Literatura, 2013) Brochadas: confissões sexuais de um jovem escritor e Meshugá: um romance sobre a loucura e Nobel.



Rodrigo Lopes de Barros é crítico, cineasta, escritor e atualmente Professor Assistente de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Boston. É graduado em Direito e mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina (título obtido com o apoio financeiro do CNPq), e doutor em Literatura Hispânica pela Universidade do Texas em Austin, com trabalho nos campos das culturas cubana e brasileira. Fez pós-doutorado pela Universidade de São Paulo com uma bolsa da FAPESP e foi docente convidado em Harvard e na Universidade Federal do Espírito Santo. Dirigiu o documentário Chacal: proibido fazer poesia, pelo qual recebeu o Prêmio de Mérito Cinematográfico da Associação de Estudos Latino-Americanos (LASA). Foi coorganizador do livro Ruinologias: ensaios sobre destroços do presente. Como escritor, foi um dos vencedores do Concurso Cultural “Caderno 2” nos 450 anos de São Paulo, promovido pelo jornal O Estado de São Paulo.


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