• Capitolina Revista

Itamar Vieira Júnior

FAROL DAS ALMAS




Em 1842, num espaço de três meses, dois navios com origem no porto de Uidá, Benin, carregados de homens e mulheres que seriam escravizados na Bahia, encalharam quase no mesmo ponto da costa, três léguas ao norte de Salvador. A região, pouco povoada, não dispunha de iluminação para navegação noturna. Soube-se que havia poucas embarcações que pudessem resgatar o contingente embarcado: os da primeira, logo foram ocupadas de salvar a tripulação e alguns homens escravizados, talvez os mais fortes, sendo que a maior parte, incluindo-se todas as mulheres, morreu em alto mar; o segundo navio não tinha sequer embarcação para toda tripulação, e os ocupantes de diferentes etnias morreram sem que a Armada Nacional fizesse qualquer esforço para salvá-los. Esses incidentes levaram o presidente da província da Bahia a considerar a urgência de se construir um farol que guiasse o transporte marítimo com segurança até o porto da capital. Dois anos depois, foi concluída a construção do Farol da Pedra do Peixe Duro.


Sob ordens da Armada, desembarcamos as peças vindas do estrangeiro e que seriam usadas para a casa de luz a ser erguida na Pedra do Peixe Duro, como o povo Tupinambá chamava o lugar. Eram peças grandes de metal, pesadas, desembarcadas próximo à costa em pequenos barcos, mas carregadas por nós, homens cativos. Aos poucos, levantamos uma base de concreto por cima das pedras em que o mar quebrava, onde ficaria a casa de luz. Estávamos atentos às ordens dos engenheiros e cuidando dos movimentos certos para que não ocorresse nenhuma avaria que prejudicasse o trabalho.

Estávamos também cansados, mas havia em muitos de nós uma grande alegria por estarmos contribuindo com esta tarefa. Dia após dia a casa de luz que construiríamos foi crescendo em meio ao mar e à areia, numa região onde nunca havíamos estado, mas que enchia os nossos olhos das cores dos muitos pássaros e da vegetação rasteira. Fazia dias e dias que não víamos a cidade, porque estávamos distantes. Éramos vinte e dois homens e uma mulher, que tinha sido levada para cozinhar somente para os homens cativos. As noites eram quase frias, de grande vento, e teve uma noite muito bonita quando vimos osupa surgir imensa e amarela no horizonte das águas. Quando os engenheiros viram a grande luz disseram que a que construíamos seria como osupa.

Tínhamos o corpo marcado pelo trabalho. Alguns de nós tinham cicatrizes na pele, nas costas, nas pernas, nos rostos. Quase todos tinham também feridas na alma. Apenas um de nós havia feito a travessia de navio de lá para cá. Ele nada contava, quase não falava, mas tínhamos a certeza de que havia enlouquecido ao ver corpos sendo atirados ao mar – era o que os africanos diziam - e ao perceber também que não pertencia mais a lugar algum.

E nossos pés descalços caminhavam todos os dias até as pedras, e as subiam na maré baixa para com nossas forças levantarmos a casa de luz.

Quando ela ficou pronta, já não éramos vinte e três, dois homens haviam morrido de exaustão, não por este trabalho, mas por tudo que tinham feito na vida. À noite, quando a casa de luz estava acesa, também não parecia em nada osupa, como os homens da armada haviam falado. Era uma luz pequena que surgia e sumia, surgia e sumia, sem fazer diferença para nós que estávamos na terra. Mas eles estavam entusiasmados. Deixaram tudo pronto para a visita do presidente da província e alguns de nós permanecemos por lá para ajudar na manutenção e nos primeiros tempos em que o homem quis clarear a noite.

Foi a mulher que cozinhava para nós que nos perguntou, em segredo, quem acendia a casa de luz. Os homens da armada, dissemos. Ela lamentou não achar justo que aquele monstro de ferro que cuspia luz à noite servisse para guiar as embarcações que traziam os nossos para morrerem de maus-tratos e trabalho. Não era só para isso, dissemos, mas também era. E vimos, cada um a sua maneira, que de dia ela espreitava pela janela de onde estava e era capaz de nos dizer quais embarcações abrigavam almas aflitas, e que buscavam nela conforto. Era como se ela mesma fosse um emissário no alto da casa de luz a nos informar sobre o que os navios traziam.

Ainda vimos osupa surgir grande e enfeitiçando os homens na terra, até que a cozinheira da armada voltou para cidade. Foi quando aquela mulher, que nos assombrava com sua magia, que encontrava e falava além do vento com as almas embarcadas, passou a cozinhar para eles. Nunca esquecemos desse dia, porque logo depois da ceia eles caíram num grande sono. Mesmo nós, que não dormimos, andamos como se em sonho estivéssemos. Não sabemos dizer ao certo quem apagou a casa de luz, nem quem nos ordenou que seguíssemos com os barcos para o mar em direção ao pequeno lume no breu da noite. Nem soubemos dizer também por que os homens brancos a quem estendemos a mão para os nossos barcos foram afogados também por elas. Nem mesmo sentimos culpa, porque nossos corpos eram guiados por tudo o que sonhávamos, e foram os nossos braços marcados que conduziram nossos irmãos do mar para a terra, e da terra para as veredas da liberdade.



Itamar Vieira Júnior é baiano de Salvador. É geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. É autor de Dias ( Caramurê Publicações, 2012), A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017) e Torto Arado (vencedor do Prêmio Leya, 2018)

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