• Capitolina Revista

Isabel Rio Novo




Quatro dias guardados

ou

Quatro histórias de fim



O primeiro dia


Sentiu-se melhor quando o caixão desceu à terra, escondendo para sempre a face desfigurada do homem que amara, num processo que lhe parecia agora muito mais demorado do que na realidade fora, apenas porque ela própria sentira sucessivamente, e aprendera a sentir: medo, impotência, cansaço, tristeza, alívio. Então, tudo lhe pareceu recolhido sob o pequeno monte de terra húmida, e foi como se a parte concreta da doença, dos cobertores grossos como os dos velhos, da casa toda a cheirar a suor, dos tratamentos começados com esperança ansiosa e no fim cumpridos por obrigação, dos abraços compassivos das pessoas que tinham feito questão de aparecer, sumisse debaixo das flores que o coveiro amontoava desajeitadamente, para a deixar sozinha, inteiramente sozinha com a dor funda, límpida, aguda, da sua perda.

Partiu nessa mesma tarde para a casa velha que tinham herdado nos arredores rurais da cidade, a casa que agora era só sua e mal conhecia por dentro. Chegou quando já fazia escuro, embora fosse primavera e os dias estivessem a crescer. A casa era fria e estava quase despida. Cadeiras desirmanadas, a louça da cozinha estalada, os azulejos cobertos de bolor. Em cima da mesa da sala, tapados por um lençol de flanela, os cadernos antigos dele. A lareira deitava fumo, e rapidamente desistiu de a acender.

Mas a primavera chegou em força logo no dia seguinte. O sol estendeu-se pelo quintal e revelou subitamente malmequeres, jarros, narcisos. Dias secos e quentes demais para o início de abril.

Habituou-se a passar as tardes estendida sobre a relva, de bruços, sentindo o calor a pesar-lhe nas costas, observando as moscas, que não eram negras como

sempre pensara, mas na realidade verdes e azuis, e pairavam sobre ela atraídas pelo aroma e pela luz ainda jovem dos seus cabelos ao sol. Habituou-se a sentir o silêncio, porque havia silêncio dentro de si. Prometeu que iria abrir os cadernos e ver os desenhos antigos dele. Começou, lentamente, a sentir os dias.



Um dia depois


Desviou o olhar, dobrou maquinalmente o programa do congresso e, por uma estranha associação de ideias, lembrou-se de quando temos o primeiro desgosto de amor e queremos porque queremos escrever sobre o assunto, mas somos no fundo tão inexperientes e sabemos tão pouco e o tom que assumimos é tão definitivo, que tudo o que dizemos soa a pesado e balofo. Achou o pensamento interessante e procurou no bolso interior o moleskine, para o anotar.

Quando acabou de escrever, não sentiu a confiança habitual. O coffee break prosseguia, entre os risos ponderados e as frases de circunstância. Não o reconhecera ou não o vira? Deveria ir ter com ela? Três conferencistas jovens, não muito bonitas (nem com muito bom currículo, sabia-o ele, que pertencia à comissão organizadora) mas jovens, com aquela juventude absurda que começa na exata magreza dos braços e se prolonga no brilho dos cabelos sempre lisos, rodeavam-na num grupo afastado.

Reconhecera-a logo. Tinha o mesmo sorriso largo, a mesma cintura estreita, o mesmo jeito elástico de se mover, que lhe davam uma maneira de frescura.

Para dizer a verdade, não era o primeiro reencontro deles. Tinham-se visto noutro congresso, um ou dois anos depois da separação, e tinham conversado uma vez. Ele perguntara-lhe, então, o que achava que distinguia o homem dos outros animais. Ela respondera, a imaginação, ou outra coisa qualquer. Ele retorquira, o remorso. Não se recordava agora se o dissera com sinceridade ou porque lhe parecesse um pensamento interessante para se registar.





Dia claro


Depende do dia, naturalmente, se é verão, se faz calor, se há mais ou menos nuvens altas no horizonte, mas o sol apresenta-se mais luminoso quando reverbera nos cabelos loiros cor de palha de uma rapariga que esteja sentada numa esplanada, algures numa cidade mediterrânica, um vestido de algodão claro, o gesto de escrever momentaneamente suspenso nos dedos esguios, os olhos distraidamente azuis apontados à rua animada de passeantes, restaurantes e bares, gatos a espreitarem do cimo dos muros de pedra, enredados em buganvílias e parreiras, com aquele ar próprio dos gatos, entre o sonolento e o manhoso. O vento seco de agosto levanta espaçadamente o cheiro a mosto e uma poeira muito fina, que faz arder os olhos.

Podemos imaginar que a rapariga escreve uma carta de amor. Ou um poema. Ou uma lista dos locais visitados e a visitar. Eu, que a observo atentamente, imagino que o caderno dela diz isto.

Para onde vão as paixões que morreram, para onde vai a vida, para onde vão as emoções? Tudo é tão simples no presente. Uma brisa corre, um pássaro de que nunca quisemos saber o nome levanta voo, a pele arrepia-se sem saber se sente frio ou calor. Os instantes triviais enchem os dias claros, e são esses instantes que levamos agarrados a nós.



Os dias guardados


Dois meses depois da morte da mãe, escreveu o seu primeiro poema. Tinha estado a remexer nas coisas dela e emocionara-se, naturalmente. O poema continha palavras como saudade, dor, ternura, memória, e pareceu-lhe, quando o releu, um pouco tonto.

Só fotografias, havia-as às centenas. As mais bonitas, ou pelo menos as que a mãe achava mais bonitas, eram aquelas que tirara consigo e com os irmãos. Havia também, num álbum reservado para o efeito, uma coleção de recortes, mostrando a figura pública discreta, mas relevante, que a mãe também fora. Lançamentos, saraus, festas, a mãe vestida de preto, os olhos maquilhados. Sem saber por quê, nessas fotografias achava-a muito parecida consigo, embora nunca se pintasse e não tivesse os olhos castanhos da mãe.

Outras fotografias mostravam a mãe em casa. Gostava especialmente dessas, porque lhe lembravam coisas que mais ninguém conhecia, como a mãe de pijama a contar-lhe histórias, a mãe de rosto cansado e cabelo mal penteado. Mas desconfiava que ela arranjaria maneira de vir do outro mundo puxar-lhe as orelhas, se apenas suspeitasse que não as rasgava. A hipótese era absurda, mas fazia-a sorrir. E a outra coisa que ela tinha parecida com a mãe era o sorriso.

Não achou, pois, necessário consultar o pai ou os irmãos. Juntou as fotografias de casa e começou a rasgá-las devagarinho, sentindo que o seu poema, provavelmente empolado e pouco original, soava inteiramente a verdade.


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A AUTORA

Isabel Rio Novo (Porto 1972) graduated in comparative literature and has an MA in History of Portuguese Culture. She teaches creative writing, literary studies, history, aesthetics and cinema, and has produced several academic publications on these subjects. Her works include O Diabo Tranquilo (2004), a fantastic narrative based on the poems of Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Histórias com Santos (2014), a short story collection, and the novels Rio do Esquecimento (2016, shortlisted for the Prémio LeYa and longlisted for the Prémio Oceanos), Madalena (winner of the Prémio Literário João Gaspar Simões) and A Febre das Almas Sensíveis (2018, shortlisted for the Prémio LeYa). In 2018, she was awarded a bursary for literary creation from DGLAB to write her fourth novel, Rua de Paris em Dia de Chuva, to be published soon. In 2019, she published O Poço e a Estrada, a biography of the Portuguese writer Agustina Bessa-Luís.


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