• Capitolina Revista

In Other Words / Em outras palavras: Juan Manuel Terenzi traduz Telma Scherer




Hoje o sol não saiu. Sumiu de mim meu outono. Hoje o sol abriu suas areias nas veias da minha cama. Tão tristonho tão sem vez. Sumiu de mim o eco do deserto. Hoje o sol chorou um choro antigo violado. Não mirou de lado. Nem andou no céu. Hoje o sol é de papel. Arrepio de luz no epicentro do silêncio.

Hoje o sol é um som de dentro.




Hoy no salió

el sol.


Se me fue

mi otoño.


Hoy el sol

abrió sus arenas

en las venas

de mi cama.


Tan tristón

tan sin vez.


Se me fue

el eco

del desierto.


Hoy el sol

lagrimeó

un tango antiguo

olvidado.


No miró a un lado

ni bailó por el cielo.



Hoy el sol

papel e hielo.


Escalofrío de luz

en el epicentro

del silencio.


Hoy el sol

es un sonido

de adentro.


(SCHERER, Telma. Depois da água. Florianópolis: Nave, 2014).








****


Porque tua voz fala outra língua,

mas tua boca não.

Tua boca profere

o que há nas entrelinhas

e não se precisa.

Tua boca, do outro lado da fronteira

perfeitamente minha.

Porque tua boca fala de viés

e não fala em línguas.

Não precisa de subtexto

nem de trocos trocados.

Tua boca de trocadilhos, é loba.

O contexto é o lobo da fala, ladrão.

Porque tua boca é igualzinha à minha

e nós falamos, entretanto nossos olhos

se beijam. Porque teus olhos vieram de outro mar

e são meus. Teus olhos

filisteus, navegantes, estrelinhas,

teus olhos dizem tudo o que vês no escuro.

Somos nós. Somos nós. Nosotros.


Porque tu voz habla otra lengua,

pero tu boca no.

Tu boca profiere

lo que hay en las entrelíneas

y no se precisa.

Tu boca, del otro lado de la frontera

perfectamente mía.

Porque tu boca habla de sesgo

y no habla en lenguas.

No necesita subtexto

ni de vueltos devueltos.

Tu boca de vuelos, es loba.

El contexto es el lobo del habla, ladrón.

Porque tu boca es igualita a la mía.

Y nosotros hablamos. Sin embargo, nuestros ojos

se besan. Porque tus ojos vinieron de otro mar

y son míos. Tus ojos

filisteos, navegantes, estrellitas,

tus ojos dicen todo lo que ves.

Somos nosotros. Nosotros. Nós dois.


(SCHERER, Telma. Depois da água. Florianópolis: Nave, 2014.)


****




porque a partir dos parquets se vai longe. a partir dos parquets se percorrem parques nunca imaginados. porque debaixo dos sapatos vive um mapa complicado de aspirações a outros mundos. quem imprime a poeira do tempo é Deus. e ele está sempre distraído, atrás dos passos tropicados, das prostitutas, de quem se possa proteger só com palavras.


porque a partir de los parquets se va lejos. a partir de los parquets se recorren parques nunca imaginados. porque debajo de los calzados vive un mapa complicado de aspiraciones a otros mundos. quien graba el polvo del tiempo es Dios. y él está siempre distraído, detrás de los pasos a los tumbazos, de las prostitutas, de quien se pueda proteger sólo con palabras.


(SCHERER, Telma. Squirt. São Paulo: Terra Redonda, 2019.)


****


isso aqui é Brasil, meu querido, aqui não se bebe sangria. aqui as frutas são mais que doces, e o que consome nossas têmporas é o mesmo que os diamantes: o corpo forte e azulado que não teme o riso das crianças. isso aqui é Brasil, meu querido, erigido pelos braços e pernas, pela musculatura tênue dos que não têm atenuantes. isso aqui é ferida, querido, é mina, é umbigo do mundo e de suas desgraças: as que não dão graças e que só sambam de graça na cara do sábado, quando não há outro aval. É aqui que se consome o sangue escuro sem cupinchas, é o balão que desincha de graça, querido, quando não há carnaval.


esto acá es Brasil, mi querido, acá no se bebe sangría. acá las frutas son mucho más que dulces, y lo que consume nuestras sienes es lo mismo que los diamantes: el cuerpo fuerte y azulado que no teme la sonrisa de los chicos. esto acá es Brasil, mi querido, erigido por los brazos y piernas, por la musculatura tenue de los que no tienen atenuantes. esto acá es herida, querido, es mina, es ombligo del mundo y de sus desgracias: las que no dan gracias y que solo bailan samba gratis en la cara del sábado, cuando no hay otro aval. es acá que se consume la sangre oscura sin compinches, es el globo que se deshincha gratis, querido, cuando no hay carnaval.


(SCHERER, Telma. O sono de Cronos. São Paulo: Terra Redonda, 2019.)


****


A AUTORA

Telma Scherer é artista e professora de literatura brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Tem trabalhos na área das artes visuais e da performance. Publicou, entre outros, os livros de poesia Squirt (Terra Redonda, 2019), O sono de Cronos (Terra Redonda, 2019), Entre o vento e o peso da página (Medusa, 2018) e Depois da água (Nave, 2014) e o romance Lugares ogros (Caiaponte, 2019).



O TRADUTOR

Juan Manuel Terenzi cresceu em um ambiente bilíngue (espanhol AR – português BR). Pesquisador, tradutor e poeta, finaliza seu doutorado sobre a obra de Samuel Beckett na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Publicou suas traduções, artigos, contos e poemas em diversas revistas nacionais e internacionais. Membro do corpo de tradutores da revista Longitudines (UK). Possui um livro de poesia no prelo, Fis(s)uras (Caiaponte, 2020).

44 views0 comments

Recent Posts

See All