• Capitolina Revista

In Other words / Em outras palavras

Updated: May 31

Iniciamos uma coluna com traduções de trabalhos em português para uma outra língua, toda e qualquer língua. Na estreia, Manuel Barrós traduz Marta Chaves


Palabras sin voz. Diez poemas de Marta Chaves


Selección y traducción de Manuel Barrós


O som das palavras sem voz.

Marta Chaves. Varanda de Inverno (2018)




BANQUETE


Sento-me sozinha à mesa

e obrigo-me a pensar no absurdo.

Não faço perguntas.

Elas sentam-se a meu lado,

com um à-vontade cruel.



BANQUETE


Me siento sola a la mesa

y me obligo a pensar en lo absurdo.

No hago preguntas.

Ellas se sientan a mi lado,

con un gusto cruel.



TRAPEZISTAS


Palavras em movimento

executam na folha

magia e assombro.


Fazem e desfazem

a justaposição desejada.


Fixam através do som

matéria inexplicável.


São hóspedes

na casa em que vivemos

e que nunca nos virá a pertencer.



TRAPECISTAS


Palabras en movimiento

ejecutan en la hoja

magia y asombro.


Hacen y deshacen

la yuxtaposición deseada.


Fijan a través del sonido

materia inexplicable.


Son huéspedes

en la casa en que vivimos

y que nunca será nuestra.



GOLPE DE VISTA


A minha sombra descansa

como um cão a meus pés.


Abro e fecho os olhos

o teu cabelo surge por trás

de uma cortina sem vento.


Vejo uma paisagem nova

e criaturas que me perguntam

se quero companhia.


Respondo com as mãos

num aceno de flores

que logo ficam quietas e luzentes


e tudo começa outra vez.



GOLPE DE VISTA


Mi sombra descansa

como un perro a mis pies.


Abro y cierro los ojos

tu cabello surge detrás

de una cortina sin viento.


Veo un paisaje nuevo

y criaturas que me preguntan

si quiero compañía.


Respondo con las manos

saludando con flores

que luego siguen sosegadas y lucientes


y todo comienza de nuevo.



LIBRETO


Andamos de ária em ária

a ver quando é que se morre,

quem é que primeiro morre

ou sai de cena.



LIBRETO


Vamos de aria en aria

viendo cuándo llega la muerte,

quién es el primero que muere

o deja el escenario.



RÉPLICA


Nada te impede de sentir frio na cabeça

e ainda assim saber que a perdeste.



RÉPLICA


Nada te impide sentir frío en la cabeza

y aun así saber que la perdiste.



CREDO


Será que

meu deus

está doente?



CREDO


¿Será que

dios mío

está enfermo?


IDADE DE OURO


Esfreguei os olhos

na esperança de que o mundo

surgisse diferente.


Sucedeu ver

uma miríade de pássaros

levantar voo.


Estendi as mãos ao céu

e ordenei ao vento

que me semeasse.


É nesta terra que quero habitar.



EDAD DE ORO


Me froté los ojos

con la esperanza de que el mundo

emergiera distinto.


Sucedió que vi

una miríada de aves

alzar el vuelo.


Extendí las manos al cielo

y le ordené al viento

que me hiciera germinar.


Es en esta tierra que quiero vivir.



TRANSCRIÇÃO


Pode parecer impossível

mas vi a casa desaparecer.


Sobrou um lugar emocionante,

memória para colorir no papel

a ruína do texto.



TRANSCRIPCIÓN


Puede parecer imposible

pero vi la casa desaparecer.


Quedó un lugar emotivo,

recuerdo para colorear en el papel

la ruína del texto.



LUZ DE PRESENÇA


O som

das palavras

sem voz.



LÁMPARA INFANTIL


El sonido

de las palabras

sin voz.



MORDAÇA


Palavra que não falo.



MORDAZA


Palabra que no digo.



Marta Chaves (1978) nasceu em Coimbra e vive em Lisboa. É psicóloga clínica e psicoterapeuta. Desde 2008, os seus poemas têm vindo a ser publicados em diversas antologias e revistas de poesia. Publicou em Portugal os livros “Onde não estou, tu não existes” (2009), “Pensa que deixou de pensar nela” (2010), “Dar-te amor e tirar-te a vida” (2012), os três pela editora Tea for One; “Pedra de Lume” (Paralelo W, 2013), “Perda de Inventário” (Alambique, 2015) e “Varanda de Inverno” (Assírio & Alvim, 2018).




The translator / O tradutor.

Manuel Barrós, Lima, 1993. Sociólogo, investigador y traductor. Licenciado en sociología por la PUCP (Pontificia Universidad Católica del Perú). Ha publicado la traducción Doze noturnos da Holanda / Doce nocturnos de Holanda (Ediciones Andesgraund, 2016; 2018) de Cecília Meireles en Santiago de Chile, además de versiones al español de distintos escritores y poetas en revistas.

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