• Capitolina Revista

HILDEGARTEN* (Recriação de verbetes do livro Physica, de Hildegard von Bingen)

Maria Esther Maciel




ARRUDA


A arruda se nutre mais do vigor da terra que do ardor do sol. Ligeiramente quente, tem uma umidade implícita, indicada para a cura do amargor das pessoas ressentidas. Quanto mais crua, mais incisiva. A quem tem olhos pretos e turbulentos, embaçados por uma nuvem esquiva, recomenda-se misturar a seiva da erva com duas medidas de mel líquido e um pouco de vinho branco, para depois embeber com a mistura um pedaço de pão de centeio, colocando-o sobre os olhos durante as noites de lua cheia. Já as pessoas que têm no sangue uma paixão desmedida podem conter seus furores se comerem a erva pura em manhãs alternadas durante duas semanas seguidas. É boa também para atenuar as asperezas da melancolia, por suprimir desta o frio intrínseco.


MALVA


A malva tem um frio moderado. É recomendável para quem sofre da melancolia que aflige o cérebro durante as febres esparsas. Basta esmagar a erva com o dobro de sálvia num almofariz, pingar algumas gotas de azeite de oliva e, depois, pôr sobre a cabeça (entre a testa e a nuca), amarrando com um pano. Repetir isso por três dias alternados, refrescando o pano, à noite, com óleo ou vinagre. Já as pessoas que querem clarear o olhar, devem colher, nas manhãs ou nas noites calmas, o orvalho da malva (desde que as folhas estejam tenras) e esfregar com ele os olhos e as pálpebras. Depois, dormir por algumas horas, sem pausas.


CANELA


A canela tem um calor intenso, e sua umidade exígua não dura muito tempo. É ótima para eliminar os maus fluidos do corpo de quem a come em dias de neblina ou nas horas de silêncio. Pode estimular também o ânimo das pessoas sem viço, sobretudo se polvilhada sobre o leite quente misturado com farinha de aveia. Para as febres intermitentes, sugere-se pôr lascas da madeira e algumas folhas da árvore da canela (ainda com seiva) no vinho tinto, ferver a mistura em fogo brando e depois tomá-la num copo de aço, antes do sono. E se alguém com a cabeça entorpecida comer, de forma assídua, canela pulverizada sobre uma fatia de pão ou lambê-la na mão, sentirá o torpor se dissipar junto com os humores daninhos.


CÂNHAMO

O cânhamo tem uma calidez tímida e cresce quando o ar não está muito quente, nem muito frio. Sua semente é salubre e serve como alimento para pessoas tranquilas. Suave e benéfica para o estômago, diminui os maus humores e fortalece os positivos. No entanto, se alguém fraco da cabeça e com um cérebro oco ingerir cânhamo, ficará aturdido. Já quem sofre de estômago frio deve cozinhar o cânhamo na água e, após espremê-lo, envolvê-lo num pano que deverá ser colocado, ainda quente, sobre o abdômen, em noites serenas. Além disso, um pano feito de cânhamo, com um calor ameno, ajuda a cicatrizar úlceras e feridas por vezes tidas como perenes.


URTIGA


A urtiga tem um calor ímpar. Por ser áspera e pungente, não deve ser comida crua. Cozinhe-a assim que ela brotar da terra, para que fique tenra no estômago. Quem tem vermes deve tomar suco de urtiga picante com verbasco (planta-de-veludo), acrescentando folhas ou cascas de nogueira, tanto quanto houver. Deve acrescentar ainda um pouco de vinagre, um tanto de mel e levar para ferver numa panela nova, removendo a espuma do topo. Após a fervura, tirar do fogo e, por 15 dias, beber um pouquinho da mistura antes do desjejum e uma quantidade maior depois do almoço. Os vermes vão morrer. Já para as pessoas esquecidas, é só pôr urtiga picante no azeite e, à noite, ungir com a mistura o peito e as têmporas. Em alguns dias, a memória ficará nítida. A erva também cura os cavalos com tosse e de cujas narinas sai uma indesejável espuma.


ARNICA

A arnica é muito quente e possui um calor nocivo para quem tem humores instáveis e precários. Se alguém carente e com pouco viço tiver a pele tocada por arnica fresca, mesmo que por pouquíssimos segundos, sentirá no corpo uma lascívia irreprimível, adoecendo de amor e luxúria por quem tocar a mesma erva nos três dias seguintes, sobretudo se isso acontecer numa tarde de domingo. A pessoa se inflamará de tanto desejo que, sob os arroubos da paixão lúbrica, ficará completamente tola e rendida.


LAVANDA

Quente e seca, a lavanda tem uma seiva escassa. Não existe para ser comida, e sim para ser cheirada. Sua potência está no aroma. Se alguém com muitos piolhos inalar a lavanda todos os dias, seus piolhos morrerão por não suportarem os eflúvios da planta que impregnam o couro cabeludo. O seu cheiro depura os olhos, por conter tanto o poder dos odores mais fortes quanto a utilidade dos mais amargos. Ela também refreia muitas coisas perversas e, por conta disso, os espíritos malignos ficam aterrorizados quando, ao invadirem uma casa, deparam com um arranjo de flores dessa erva. Eles fogem depressa, sem chance de regresso.


MIRRA

Se quiser levar mirra consigo, aqueça-a primeiro ao sol, ou sobre uma telha quente, para que fique um pouco derretida. Depois, segure-a junto ao corpo, de forma que ela absorva o calor ou o suor de sua pele. A mirra espanta fantasmas, demônios, feitiços, pragas e invocações malignas. Se espalhada no peito ou no abdômen, ela subtrai os excessos de luxúria de quem está com o desejo à flor da carne. Por outro lado, se o odor da mirra tira a luxúria de uma pessoa, esta não ficará feliz, já que o cheiro da erva oprime e entristece a alma. Assim, junto com a mirra, é sempre bom levar uma peça de ouro, que neutraliza as impurezas e aviva a mente. Já para as febres intensas, recomenda-se beber mirra misturada com vinho quente.


TREVO


O trevo tem tanto calor quanto frio em suas folhas. Além disso, é seco. Seus efeitos são benéficos para os animais de rebanho. No entanto, tem pouca serventia como remédio para os humanos, a não ser em casos de visão obscura. Quando isso acontece, recomenda-se pôr suas flores em azeite de oliva, mexendo-as até que fiquem impregnadas, mas sem cozê-las. Depois, esfregue-as nas pálpebras e ao redor dos olhos nebulosos. Tão logo estes estejam ungidos, jogue as flores fora, já que elas logo perdem seu poder e perecem ao contato demorado com o óleo. Se a pessoa fizer isso várias vezes, a neblina nos olhos se desvanece.

COMINHO


O cominho é seco e de calor comedido. É sempre saudável para uma pessoa com incômodos no estômago, não importa a forma como é comido. Por outro lado, é um veneno para quem tem dor no peito, por não aquecer por completo o coração, que precisa estar sempre quente. Para quem tem náuseas reincidentes, esta é uma receita infalível: misturar um pouco de cominho com um terço de pimenta e um quarto de pimpinela moída, acrescentar farinha de trigo pura, gema de ovo e um pouco de água. Com essa mistura, fazer uma leva de biscoitos assados no forno ou sobre as brasas da fornalha. Outra possibilidade é comer o cominho em pó no pão, pois isso anulará os humores quentes e frios do intestino, que provocam as náuseas.


(* Hildegarten integra O Livro das Sutilezas, que abre o volume Longe, Aqui. Poesia incompleta 1998-2019)


Longe, aqui. Poesia incompleta 1998-2019

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Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas e vive em Belo Horizonte. Além de escritora, é professora de literatura e crítica literária. Publicou 17 livros, entre eles O livro de Zenóbia (Lamparina, 2004, semifinalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura); A memória das coisas – ensaios de literatura, cinema e artes plásticas (Lamparina, 2004, finalista do Prêmio Jabuti); O livro dos nomes (Companhia das Letras, 2008, menção especial no Prêmio Casa de las Américas, finalista dos prêmios São Paulo de Literatura, Jabuti (categoria romance) e Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa); A vida ao redor - crônicas (Scriptum, 2014, semifinalista do Prêmio Oceanos), Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, 2016), e Longe, aqui. Poesia incompleta 1998-2019 (Editora Quixote, 2020). Tem textos publicados em vários jornais, revistas e antologias brasileiras e estrangeiras. É colaboradora da Folha de S.Paulo e edita, com outros escritores, a revista literária Olympio.

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