• Capitolina Revista

Henrique Schneider


AS SOLIDÕES


Às cinco e meia da manhã, ela acorda estranhada neste lugar ainda novo e sempre pequeno, e se assusta num breve ao olhar as paredes que não são as mesmas ao lado das quais, junto a Henrique, dormiu nas últimas dezenas de anos. O que é que estou fazendo aqui, pergunta-se a velha senhora, enquanto fecha e abre novamente os olhos, a fim de certificar-se de que aquilo não é mesmo um sonho ordinário. Dormiu mal, o sono curto e entrecortado, também sem chance de sonhos bons, mas sabe que não é culpa deste apartamento onde vive há poucos meses, desde um pouco antes do início da quarentena: a verdade é que os sonos dos velhos possuem este defeito de serem ruins.



A velha senhora.

Ela se chama Julieta e não quer morar neste apartamento para onde se mudou há pouco e de onde sabe que não sairá.

A vida inteira em casa, pisando a grama, varrendo o pátio, colhendo o manjericão da horta, mandando um pedaço de bolo de milho aos vizinhos, regando as rosas e os crisântemos no canteirinho, cumprimentando os conhecidos que passavam na calçada, olhando os passarinhos se regalarem com as frutas da laranjeira, alimentando o cachorro, dando aulas de piano, molhando o gramado em frente à casa, crescendo os dois filhos, olhando da varanda a chegada das noites, conversando com o marido.

De repente, caído no meio da horta, o marido já não está.

E também de repente decidem que a casa não é mais segura.

Os anos em que o lugar foi fortaleza, ela e Henrique dividindo vida e velhice em palavras e silêncios que se entendiam – estes anos parecem não contar mais. Há uma nova ordem, agora que vive só: a ordem da praticidade, da segurança. Os filhos e as noras entendem que ela não pode mais continuar morando naquela casa, porque é tudo muito grande, muito perigoso, muito trabalho, muito cara é a manutenção. Tudo é muito, nesta hora.

E dona Julieta, aos oitenta e dois anos, é muito velha.



Ela resolve levantar porque, ainda que o dia não tenha amanhecido de todo, sabe que não conseguirá mais dormir. Melhor ficar em pé e pensar em fazer algo do que virar de um lado para o outro na cama, aumentando sem motivo as dores deste seu corpo antigo.

Veste o roupão e, depois de lavar-se e afixar os dentes naquele meio sorriso amplo que lhe acompanha os dias, decide preparar-se um café com leite. Enquanto a água esquenta, aquece as mãos azuladas no vapor que emana da chaleira cujo esmalte azul já desbotou no tempo: depois, coloca duas colherinhas de café solúvel, outras de açúcar, e um tanto igual de leite e água – está pronto. Pode beber em pé, ao lado do pequeno calor que ainda emana da chaleira, pode sentar-se à mesa dobrável da minúscula cozinha do apartamento ou mesmo nas poltronas, no sofá apertado da sala. Pode tomar o café sentada na cama, aproveitando o restinho de calor das cobertas. Não fosse tão frio, tão escuro, talvez até pudesse tomar o café na sacada, olhando o dia que amanhece sem gentes lá embaixo.

Pode escolher qualquer lugar: mora sozinha nesta caixa.

Enquanto bebe os primeiros goles, busca no armário um pacote de biscoitos amanteigados e resolve sentar-se no sofá, para assistir o primeiro telejornal, que começará em breve, e ficar sabendo das novas tristezas da pandemia. Mas vou fazer um bolo hoje à tarde, ela decide, um pouco para adoçar o dia. Assiste o noticiário com a preocupação que seus oitenta e dois anos mandam, e ainda fica na expectativa sobre o anúncio do tempo: seus ossos não querem chuva. Quando o homem da meteorologia aponta os mapas e diz que o dia terá sol e um frio moderado, ela agradece à televisão, sem perceber – apenas se sobressalta com o som amanhecido da própria voz. Termina de beber o café em goles pequenos, mais por costume do que por vontade, e é da cozinha, enquanto passa uma água na xícara e um pouco de manteiga numa fatia de pão, que escuta as últimas novidades do noticiário. Depois, senta-se novamente no sofá, comendo quase sem perceber o pão com manteiga, e assiste um programa de exercícios físicos que ela nem sabe o que é, o casal da televisão parecendo modelos de tão bonitos. Mas se dá conta, Julieta, que o programa deve ser antigo – nem ela e nem ele estão de máscaras, seus sorrisos parecem desafiar o tempo.

Depois do programa, busca numa caixa de papelão a manta de lã que vem tecendo há semanas, tanto quanto lhe permitem a impaciência e os dedos trêmulos, e baixa um pouco o volume da TV, apenas o suficiente para não ficar sozinha. Tricota até a metade da manhã, enquanto o dia se instala e o sol se estende generoso sobre a cidade silenciosa – o homem do tempo não mentira.

Quando os filhos e as noras vieram conversar consigo, meses atrás, os ares preocupados e as mãos tensas de quem não sabe como iniciar, todos achando que seria melhor mudar-se para um apartamento (menor, mais prático, mais seguro, disseram todos, em sorrisos nervosos), dona Julieta não respondeu nada: eram tantos anos morando naquela casa, pátio e verde sob os pés que já não tinham idade para acostumar-se a escadas e corredores frios, que ela achou que a conversa se encerraria com o silêncio, que todos conseguiriam entender que aquilo era uma negativa.

Mas ninguém entendeu assim, nem dona Julieta conseguiu negar-se com mais força. A verdade é que os filhos tinham mesmo razão, que lhe queriam o melhor: uma velha não é para estar aí, morando sozinha, jogada um pouco à sorte ou azar, pronta para ser assaltada mesmo no claro dos dias. Estavam certos - o triste é que estavam certos. Por isso, não soube dizer que não. Apenas achou que talvez, na hora em que lhe fossem anunciar o apartamento encontrado, percebessem a aflição de seus olhos e desistissem da ideia.

Só que ninguém percebeu seus olhos. Prestaram atenção apenas à resposta que, mecânica, dizia a eles que bom que haviam resolvido tudo. Nenhum sorriso no comentário – mas os filhos e as noras também não perceberam isso. Um apartamento de dois quartos e sala, no sétimo andar de um prédio mais antigo, bem no centro da cidade, perto de uma praça bonita e cheio de lojinhas ao redor – mãe, a senhora vai gostar. A segurança, a praticidade, o conforto, a economia – diziam eles, olhando para o lado.




A fotografia de Julieta abraçada em Henrique no dia em que completaram quarenta anos de casados parece desaparecer em cima da cristaleira. Julieta não gosta dela ali; o problema é que há poucos lugares onde colocá-la neste apartamento de poucos respiros. Já a tinha acomodado em cima do piano, mas também não funcionara: por que atrapalhar a alegria de um minueto com a tristeza da saudade?

Na sala, talvez. Tentará novamente na mesinha da televisão. Levanta-se com a dificuldade e a dor no corpo com que lhe pesam os anos e deposita ali o retrato: ela e o marido, ambos velhos na casa que construíram e que também os construiu, sorridentes para um futuro que chegou incompleto. Enxuga o começo de lágrima que se forma nestes olhos que já enxergam tão mal, porque decidiu não chorar mais – se não, não faria outra coisa. Durante uns segundos, fica olhando o retrato em cima da mesinha, ao lado da TV, até que decide que talvez também não seja um bom lugar. Mas irá deixá-la ali por um tempo, pode ser que consiga acostumar-se.

Rega o vasinho com cravos na mesa de canto e percebe que estes já estão murchos, pétalas caídas no tampo de vidro, mas sabe que não conseguirá pedir ao Julio que lhe traga flores novas quando, sem passar do marco da porta de entrada e sem abraço, vier lhe alcançar as compras da semana – seria uma impertinência pedir este luxo no meio da quarentena.

Volta ao sofá ainda um pouco. A manta cresce tão devagar, e o fato é que Julieta nem sabe ainda para que ou a quem servirá: se a der a uma nora, a outra terá que receber um presente igual, e a velha se senhora provavelmente não terá a paciência e a força sutil que lhe demandará este novo tricotar. É possível que ela mesma a use, alegria pequena em seus dias velhos, mas o mais certo é que a manta se destine ao fundo esquecido das prateleiras do armário.

Tece meia hora, mais como obrigação que por prazer, enquanto assiste sem atenção o programa culinário em que um mestre cozinheiro de imaculadas roupas brancas ensina como fazer um peixe com molho de mostarda e mel, acompanhado de batatas com creme de queijo gorgonzola e manjericão, que deve até ficar muito bom, mas que talvez não caia muito bem a um estômago de oito décadas. O que a atrai nestes programas é a beleza dos ingredientes, a limpeza das cozinhas, a modernidade dos equipamentos, a quantidade de recipientes, a alegria fácil dos cozinheiros, a rapidez silenciosa dos auxiliares. Minha cozinha nunca era assim tão limpa nos almoços de domingo, pensa ela, enquanto se dá conta de que já são quase onze horas e é tempo de providenciar algo para comer.

Uma sopa de legumes bastará.



Tiveram o cuidado de leva-la ao apartamento novo apenas no final do dia, quando a mudança já estava feita, os móveis nos lugares que ela não havia escolhido e a maioria dos apetrechos mais leves ainda nas caixas – Julieta mesma tinha pedido que os deixassem assim, a fim de que tivesse coisas a fazer nos primeiros dias e desse modo pudesse ambientar-se com mais facilidade àquela nova solidão.

Augusto a havia levado. Tinha assumido uma espécie de liderança pela condição de filho mais velho e às sete e meia da noite os dois estavam pela primeira vez tomando um café naquele lugar ainda sem cheiro de morada e onde os móveis, ainda que acompanhassem Julieta e Henrique há décadas, agora pareciam estranhos. O filho tentava emprestar a aquele café um certo ar de alegria e depois buscara um filé com batatas fritas e salada verde, para que a primeira noite da mãe no apartamento tivesse jeito de celebração. Julieta tinha apenas provado uns bocadinhos da comida, mas a companhia do filho a havia animado um pouco, ainda mais quando ele não aceitou a frágil negativa da mãe e disse que passaria aquela primeira noite junto a ela, dormiria facilmente no sofá – e apontou o estofado sobre o qual repousavam duas caixas de papelão, cheias de toalhas e cobertores. Julieta pensou naquele homem alto e de cinquenta e seis anos deitando com as pernas encolhidas no sofazinho, mas não teve coragem de dizer que não, porque a verdade é que tinha medo de passar aquela primeira noite sozinha num lugar que não era o seu.

Ela foi se deitar pouco depois do jantar e Augusto ainda ficou um tempo assistindo baixinho a televisão. Uma hora depois, olhos apenas fechados nesta noite que seria insone, Julieta o escutou desligar o aparelho e andar pé ante pé até a porta meio encostada de seu quarto, apenas para ver se a mãe estava bem. Fez isso várias vezes durante a noite e em todas elas encontrou a mãe fingindo um sono tranquilo.

No outro dia pela manhã, tomando café, ambos comentaram que haviam dormido bem a noite inteira.



Enquanto a sopa cozinha no fogão, Julieta assiste mais um pouco de televisão e, óculos na ponta dos olhos, folheia desatenta umas revistas. Não consegue ler durante muito tempo, porque o esforço faz com que lhe doa a cabeça, e esta é mais uma tristeza que carrega em sua velhice – tantos livros lidos, ainda tantos por descobrir, e seus olhos cansados já não a ajudam mais. Na TV, em todos os canais os programas são parecidos. Olha novamente a mesinha de canto e os cravos murchos lhe despertam certa compaixão, mas acha que não irá substitui-los quando fenecerem de vez: os móveis lhe parecem tão apertados que uma flor a mais poderia ser exagero.

Sorve a sopa sentada à mesa da cozinha, a toalha dobrada emprestando certa solenidade ao almoço, e nesta hora o telefone soa. Ela se assusta um pouco, porque é estranho o telefone tocar justamente àquela hora; os filhos têm horários mais ou menos fixos para ligar: Julio telefona sempre por volta de uma e meia da tarde e Augusto, à noitinha.

Mas é mesmo Julio ao telefone, explicando que terá uma reunião logo mais, e por isso resolvera chamar mais cedo. Tudo bem, ele pergunta.

“Sim, filho. Tudo bem.” – Julieta apenas concorda; se dissesse que não, o que mudaria?

“Dormiu bem?”

`Sim.”

“Está se sentindo bem?” – a pergunta de sempre, a mais importante, o termômetro do dia.

“Sim, filho.”

Há um silêncio de instantes do outro lado, o filho saboreia aquele duplo alívio de saber que a mãe segue sem os sintomas da peste e também por não precisar agir – não sabe muito ao certo o que faria se ela tivesse algo. Tantas as informações, guias de procedimentos, protocolos, orientações – quando fossem necessárias, o medo e o desalento talvez não deixassem recordá-las.

“E o que a senhora fez hoje pela manhã?”

“Nada de especial. Assisti televisão, li um pouquinho, fiz tricô.” – mas Julieta acha melhor não dizer que desde as cinco e meia está de pé, cansaço dolorido em seus oitenta e tantos anos.

“E como está sendo enfrentar a quarentena?”

A velha senhora apenas suspira, não há o que dizer. Está se cuidando, como a maioria das gentes – tirante os idiotas que teimam em acreditar que tudo isso é apenas uma febre. Mas depois acha melhor dar uma resposta qualquer, algo tranquilizador, apenas para que não fique sem dizer nada:

“É difícil, mas não posso me queixar. Dou um jeito de passar o tempo e vocês não deixam me faltar nada. E não está sendo fácil para ninguém.”

“Mas a senhora está cumprindo bem o isolamento, não?”

“Sim, filho. Estou me comportando bem.” – e Julieta, ainda outra vez, acha melhor não contar que precisara da ajuda do zelador na semana passada, por conta de um probleminha na pia da cozinha – até porque ficara distante do moço, cuidadosa. Não vai dar esta preocupação desnecessária aos filhos.

“É, mãe. Tem que se comportar, mesmo. A gente se preocupa...” – e depois, renovando a proposta tantas vezes já feita. – “A senhora tem certeza de que não quer vir passar este período conosco?”

Julieta pensa ainda outra vez nos apartamentos dos filhos, talvez menores que o dela - e Julio ainda tem consigo um dos próprios filhos, Miguel, o neto de vinte e tantos anos e que ainda não conseguiu a coragem de sair de casa. Mesmo que nunca dissessem ou sequer pensassem, ela seria sempre um estorvo. E, ainda que este apartamento onde há poucos meses colocara os pés pela primeira vez não tivesse o jeito e o tempo de sua casa antiga, acabava por ser ele hoje o seu canto.

“Não, filho. Obrigado, mas fico melhor aqui. Gente velha é cheia de manias...”

“Claro, eu sei.” – Julio já sabe a resposta, pergunta apenas porque acha importante perguntar. – ´Mas deixe o telefone sempre perto da senhora.”

“Sim, pode deixar.” – ela responde. Depois pergunta, mudando o assunto: - “E os móveis da casa?”

“Colocamos num depósito bom, mãe. A senhora sabe.”

“Pois é. Se tivesse lugar aqui no apartamento...” – e ela olha em volta, como se este olhar tivesse o poder de encontrar espaços inexistentes.

“Mas não dá, mãe. Nós combinamos isso, lembra?”

“Claro, claro.” – ela concorda.

Há uma breve mudez no telefone, na qual ambos pensam no acordo tácito que acreditam ter: não se fala muito na casa antiga, nestes tempos de pandemia, para que ninguém precise dizer além do que for preciso. Os silêncios necessários.

“E agora. o que é que a senhora está fazendo?”

“Almoçando. Tomando uma sopa.”

“Isso mesmo, tem que se cuidar bem. Não comer muita bobagem.”

“Claro, eu me cuido.” – ela ressalta, um pouco na defensiva. Mas hoje à tarde vou fazer um bolo, pensa.

“Então está bem, mãe. Telefonei para saber como estavam as coisas. E hoje à tarde, o que é que a senhora vai fazer?”

“Talvez eu dê uma saída.” – há um diabinho que se acende na resposta de Julieta.

Do outro lado, o filho parece alarmado.

“Como assim, mãe?” Sair? Onde?”

Ela espera um pouco antes de responder, goza aquela provocação com certo prazer:

“Vou sair até a sacada do apartamento. Olhar as ruas desertas lá embaixo.”

Julio dá uma gargalhada curta, e é fácil adivinhar o alívio naquele riso.

“Ah, bom! Esta saída até pode ser. E mesmo assim, é preciso tomar cuidado.”

`Pode deixar, não se preocupem. Estou bem.” – e ela pensa que os desconfortos que sente tem motivos com nome: a idade, a mudança, a saudade, a solidão.

‘Certo, mãe. Mas agora eu preciso desligar, tenho que me preparar para a reunião. Um beijo.”

“Um beijo, meu filho.”

Julio e Augusto, os filhos. Bons garotos. Haviam crescido sem maiores problemas e levavam com relativa tranquilidade as suas vidas, os dois bem casados e com famílias em ordem. A vida segue o seu rumo sem nos notar, pensa Julieta, olhando as paredes ainda brancas do apartamento.

Volta à sopa, na cozinha. Está fria. A primeira vez a falar com alguém durante o dia foi o tempo suficiente para esfriar seu almoço.



Quando surgiram as primeiras notícias, ninguém se assustou muito: não era mais do que um vírus novo, problema qualquer por conta de morcegos ou sapos, e que meia dúzia de pessoas havia morrido e outra meia dúzia estava morrendo naquele lugar tão longínquo que era a China. Nada para se preocupar muito, pensaram.

Mas era para se preocupar, sim, e talvez tenham todos feito isso tarde demais. Quando as autoridades enfim entenderam que aquela tristeza invisível ia além do que imaginara o mundo, as mortes em cada cidade já eram contadas em dezenas, e as leis de isolamento, as mãos e pulsos cheios de álcool, as máscaras escondendo os hálitos, as proibições de abraço, os cafés solitários, as vidas virtuais e as portas fechadas serviram apenas para atenuar um pouco as curvas da ceifa.

E então Julieta estava naquele isolamento há um tempo cuja conta já se perdera, no qual os dias só não se misturavam às noites porque essas eram mais longas e sofridas, e também no qual a solidão deste apartamento que nunca seria o seu e a solidão da quarentena pareciam se multiplicar e ao mesmo tempo se transformarem numa só, imensa e intransponível, sem prazo para terminar.

Desde os primeiros dias, os filhos e as noras a haviam convidado, com insistência gentil e repetida, para que fosse passar este período nas casas deles. Mas Julieta sabia que era um convite de coração dividido, porque ao mesmo tempo em que ficariam todos um pouco mais tranquilos, também ficariam mais e mais apreensivos, porque sentariam à mesma mesa, dividiriam sem perceber algum talher e uma maçaneta mal higienizada poderia fazer estragos sem volta naquele corpo tão velho. Julieta sempre conseguiu dizer não a este convite que tanto lhe agradaria aceitar.

A cada semana, desde então, um dos filhos se encarregava das compras cotidianas, comida quase em exagero para sua fome de passarinho, e da porta da entrada do apartamento, sorrisos comovidos por baixo das máscaras, Augusto ou Julio lhe alcançavam com luvas as sacolinhas higienizadas que traziam do mercado. Eram uns minutos apenas, cheios de abraços imaginários, nos quais distanciados por quase dois metros, mãe e filho trocavam os carinhos possíveis, dispostos em olhares e lembranças e recomendações e até a próxima semana. Julieta esperava aqueles minutos como quem aguarda visitas raras – e eram.



Ela devolve a sopa fria à panela, para requentá-la, mas então se dá conta de que não tem qualquer fome. À noite, o caldo estará melhor e então será um bom jantar. Tampa o vasilhame e lava lentamente o prato e a colher, a faca de serra que usara para cortar os legumes, um pouco porque não tem nada mais especial a fazer, outro tanto porque lhe doem as mãos e as juntas, talvez uma artrite tardia.

E depois disso, cansada, ela quer deitar-se um pouco, talvez dormir.

Não vai mais fazer o bolo, decide.

Quando passa pela sala em direção ao quarto, percebe outra vez a fotografia abandonada ao lado da televisão e tem a nova certeza de que ali não é mesmo um bom lugar, ela e o marido parecem desaparecer ao lado da largura retangular do aparelho. Precisa achar um local de verdade para aquela fotografia. Só não pode ser ao lado de sua cama – a mesinha de cabeceira que seria naturalmente a sua primeira escolha – porque já tentou e não há como dormir quando sua insônia encontra o brilho ainda carinhoso dos olhos de Henrique.

Talvez novamente em cima do piano. Quem sabe agora consiga gostar.

O apartamento tem dois quartos e sala, Julieta dorme no quarto maior. No menor, jeito um pouco triste de abandonado, o piano se resigna ao aperto em que o instalaram. Há ainda duas poltronas pequenas na peça e uma cômoda, colocada ali à falta de lugar melhor. Ela deposita a fotografia do marido na caixa superior do piano, onde não há nada, e súbito ela e o marido parecem solitários. Pensa outra vez que não gosta da fotografia ali, mas também sabe que tão cedo não tocará músicas alegres e talvez seja só uma questão de verdadeiramente acostumar-se. Acostumar-se a tudo, pensa, enquanto se deita para o sono curto da tarde.

Acorda sobressaltada algum tempo depois e é novamente como se estivesse num lugar que não é o seu. São quase cinco horas, não costuma dormir tanto. E foi um sono escuro, meio tormentoso. Mas o dia vai passando, ela pensa, enquanto levanta com dificuldade, como se não houvesse descansado e, depois de lavar o rosto e escovar os dentes, decide sentar-se na sacada e folhear alguma revista ou livro, enquanto certa luz do dia ainda reste lá fora.



Eles foram companheiros por mais de cinquenta anos. Cinquenta anos não são cinquenta dias: são um tempo incontável. A vida inteira juntos.

E naquele mais de meio século, os dedos das mãos de Julieta eram suficientes para contar as noites em que dormiram separados: o colchão, ao final, tinha já os formatos de ambos, os contornos e o peso dos corpos que foram diminuindo com o passar dos anos, envelhecendo um pouco sem se dar conta e que adormeciam, no mais das vezes, de mãos dadas.

Cinquenta e tantos anos.

Sabiam um do outro pelo olhar. Nenhuma palavra, e ambos sabiam – sempre. Henrique arqueava as sobrancelhas de um modo desigual e ela tinha a certeza: irritação. Ela assoviava baixinho, fazendo suas coisas ou olhando o nada, e ele sabia: melhor ficar longe por umas horas. Quando de um lado as sobrancelhas voltavam ao normal e do outro não se escutava mais o assovio, pronto: dormiriam de mãos dadas naquela noite.

Saíam sempre à tardinha para dar a volta no quarteirão e ir à padaria, todos os dias os mesmos caminhos e os mesmos assuntos, mas quem poderia dizer que aquilo era chato? As frases se renovavam com os dias, a pergunta da quarta-feira não era igual à de terça, o próprio caminho se renovava em nuances. Os passinhos velhos de ambos, a vizinhança cumprimentando com seus sorrisos serenos, os cães dos pátios latindo apenas por latir, os cuidados maiores nas lajotas mal colocadas em frente à loja de pães. Paravam e compravam dois, às vezes três pãezinhos. Depois tomavam café em casa, com dois tabletes de manteiga na mesa: ela preferia tudo bem lisinho, ele esburacava a pasta com a faca de ponta arredondada, e não era necessário brigar por tão pouco. Ninguém precisava transformar em grandes os problemas pequenos, tinham ambos descoberto com a passagem dos anos.

Os anos, mais de cinquenta.

E agora a dor era maior que este meio século. Ainda procurava a mão do companheiro no outro lado da cama, e ela não estava; não saberá dormir assim sozinha, nunca.



Poucas vezes Julieta chegara ao varandim do apartamento. Quem pisou na terra firme a vida inteira e se acostumou ao tamanho dos pátios, tem certo temor àquela estreiteza tão distante do chão. Ela se aproxima com alguma lentidão da balaustrada, como se esta não fosse suficiente para protege-la do espaço, e igual às vezes anteriores se assusta com a distância que a separa do térreo, quase uma tontura. Enxerga lá embaixo as calçadas vazias, as ruas sem carros, letreiros apagados e toldos recolhidos, os edifícios parecendo mais cinzas do que realmente são e um cachorro solitário, com jeito de perdido e sem saber o que fazer com esta cidade que agora parece ser só sua. Ao longe, escuta o grito tristonho da sirene de uma ambulância, barulho comum e que vai se distanciando, distanciando até sumir de vez, como uma agonia que morre aos poucos.

Ninguém na rua, todos amedrontados em suas casas. A cidade nunca mais será a mesma, pensa ela. E qual cidade emergirá quando o pior da pandemia passar? Como serão as pessoas quando saírem de suas casas? Julieta imagina: quem tem o olhar solidário será ainda mais generoso; o egoísta se tornará mais egoísta.

A velha senhora senta-se na poltroninha de palha que coube com alguma dificuldade naquela área estreita e tenta ler um pouco, algo leve que apenas lhe faça passar o tempo, até que o sol já é apenas uma espécie de arremedo de luz e ela começa a sentir frio. Vai anoitecer em breve e, quando some o sol, o clima não é amigo das carnes velhas. Sente na nuca e nos ombros um calafrio estranho, diferente dos frios comuns, e resolve entrar.



Seria exagero dizer que Henrique tivesse uma saúde frágil. Mesmo o golpe no coração, que o deixara sem vida no meio da horta e da tarde, havia sido uma surpresa que talvez só tenha descoberto naquele instante em que seu rosto se enchia de terra. Nos seus bem comportados e semestrais exames de saúde, nenhum médico lhe dera qualquer alerta maior. Mas não havia inverno em que não pegasse uma ou duas gripes fortes, carregando lenços e comprimidos nos bolsos dos casacos, e a febre que durasse mais de um dia era suficiente para deixá-lo de cama.

Os meninos igualmente não tinham maiores problemas. Julio passava ao largo das doenças e teve apenas a catapora e o sarampo tão comuns à infância, além do braço quebrado quando caiu no meio de um jogo de futebol na escola. Mas também as febres o pegavam de vez em quando, sem que sequer pensasse em interromper a brincadeira em que estava, o que só acontecia quando a mãe lhe enxergava o rosto afogueado e o levava aos protestos em direção a um banho e remédios.

Augusto teve bronquite até a adolescência, mas o problema terminou depois de um tratamento cheio de pequenas agulhadas e que durou mais de dois anos. Além disso, parecia ter herdado do pai a facilidade para as gripes, que às vezes o deixavam prostrado, os olhos lacrimosos e o nariz vermelho por dias.

Julieta cuidou de todos, quando necessário. Tinha uma espécie de corpo fechado às doenças. Se fosse preciso, atravessava a noite sem dormir, velando o sono intranquilo e suarento do marido ou dos filhos, e na manhã seguinte aquela vigília não lhe faria maior diferença. Era jovem e forte, a mulher.

Só começara a sentir alguns probleminhas nos últimos anos. Mas nada que preocupasse muito. Coisa de gente velha, comentava. E além disso, se algum dia for preciso, meus filhos vão cuidar de mim.



Toma a sopa requentada do meio-dia e esta lhe aquece o corpo com certo calor desconfortável, que parece pressionar um pouco as articulações. Doem-lhe um pouco os braços, o pescoço, os ombros, a respiração arquejante. Coloca a palma da mão na testa, a ver como anda a temperatura, e acha que está bem. São estes dias frios chegando, que deixam ainda mais pesados os dias dos velhos. Nada que não melhore assistindo a novela, pensa a esperançosa Julieta.

Mas quando o programa termina, está exausta. Estranho, não fez nada de mais durante o dia e sente-se cansada como se houvesse carregado pedras. Doem os músculos dos braços, as pernas querem repuxar, certa ponta fina ameaça romper-lhe a testa, e no fundo das narinas parece existir um tufo atravessado de cabelos, a dividir pela metade o ar que lhe alimenta os pulmões. É cansaço de gente velha, Julieta pensa, esta ânsia incomum que só deve acalmar na hora em que deitar - mas também percebe que hoje ela parece redobrada.

Levanta-se do sofá e tosse um pouco antes de desligar a televisão. Vai até a sacada um instante, apenas para vislumbrar as luzes mortas da cidade, e depois, meio sem saber a razão, tranca aquela porta. Apaga as luzes da sala e, na passagem ao quarto, dá outra olhada na peça onde dorme o piano – a foto solitária está mesmo no lugar errado. Preciso achar onde colocar este retrato, ela decide. Algum bom espaço para colocar a fotografia deve existir neste apartamento.

Mas fará isso talvez amanhã. Agora vai dormir, repousar deste cansaço estranho. Acalmar esta tosse seca, que começou há pouco, do nada.

Olha o relógio e vê que já são quase nove e meia. É tarde, não vou incomodar meus filhos à esta hora, pensa Julieta. Amanhã de manhã, se não estiver melhor, telefono para eles.


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