• Capitolina Revista

Helena Machado




O prazer é todo meu



Deitada no colchão com suas pernas abraçando o quadril ossudo dele, ela olhava para baixo e observava os afluentes roxos correndo pelo naco de carne, o movimento vigoroso do membro que aparecia e desaparecia dentro dela, e a cabeça do pau que não saía de dentro, e a cabeça dela que só vagava fora, foder era mesmo aquilo que ouviu quando criança, aquilo que sua amiguinha veio lhe contar quando perdeu a virgindade, foder era como ser invadida por um cabo de vassoura, foder era o choc choc da escova limpando a privada, e ainda havia a espuma, sim, as bolhas nascendo do excesso de fricção até a descarga, era tão esquisito aquilo, bem ali, no mesmo buraco por onde nasce uma criança, aquele entra e sai danado que poderia não ser porra nenhuma, mas é justamente por onde entra a porra que dá origem a tudo, ou quase tudo. Não, não devia ter ido, sabia que não devia ter ido, subiu Santa Tereza sem nem estar a fim, queria mesmo ficar em casa, a casa é sempre o melhor lugar, o lugar mais seguro, mentira, a cabeça fica ainda mais hamster em roda dentro de casa, já ele talvez fosse rato mesmo, não dizem que os pombos são ratos que voam?, mas no caso dele não eram os incisivos os dentes salientes, eram os caninos que saltavam ferozes de sua gengiva, ela percebeu os dentes vampirescos logo que se encontraram, algumas horas antes no bar, se surpreendeu porque em todas as fotos do aplicativo ele estava de boca fechada, e no bar ele não parava de repetir, antes mesmo de pedir sua cerva Império, Sou muito calmo, muito tranquilo, como se isso fosse um cartão de visitas, e ela roendo as unhas que só, ela que, puta merda, estava na aflição de quem tenta parar de fumar, ela puxando o canudo da caipirosca de maracujá azeda à beça, e logo ela disse empurrando o copo, Experimenta!, ao que ele replicou franzindo o testão, Não consigo beber vodca, foi por causa da Smirnoff que fiquei com trauma de agulha, Oi?, Entrei em coma, tenho tanto medo de ser furado que não consigo nem fazer exame de sangue, e então ela sugou com força o canudinho mas o caroço do maracujá entupiu a passagem do álcool, já ele prosseguia em seu trauma, a gente sempre insiste nos traumas, Quando tenho que tomar injeção eu desmaio, as enfermeiras me falam, como pode um homem desse tamanho, um homem que parece um viking com medo de agulha?, e aí ele soltou seu rabo de cavalo revelando as crinas que iam até a altura dos cotovelos, faltava apenas o filtro preto e branco e a máscara negra cercando os olhos bolas de gude para que se tornasse o Zorro da foto do WhatsApp, Sou astrônomo, mas não segui a vida acadêmica, o que me sustenta são as aulas que dou no curso pré-vestibular, Aulas de astronomia?, Matemática, dois mais dois é igual a quatro e fim de papo, e de supetão o caroço finalmente veio com força na goela dela, Mas eu gosto mesmo é de tirar fotos do céu, ufa, isso sim, as imagens microscópicas que lhe saltaram aos olhos enquanto zapeava o aplicativo de paqueras, não se dava mesmo bem com aquele açougue, mas na foto dele o anel de Saturno estava tão perto e tão roxo como ela nunca tinha visto antes, a mesma cor das veias daquele pau comprido e gordo, o tom exato do esmalte de nome Vinho Romântico que cobria as unhas que agora ela enfiava nas costas dele, um cravamento de puro nervoso, havia percebido de cara que a energia dele não valia, pois o viking não acreditava em nada de energia, então ele a suspendeu e a ajeitou no limite da cama colocando o cóccix dela apoiado na beirada, ela sentada com as pernas escancaradas enquanto o astronauta a puxava e a empurrava a fim de que o pau dele fosse encapsulado sem nenhum esforço, e ele gemia, gemia alto, enquanto ela, bem, ela também gemia, e sugando e soltando rápido o ar ela tremia como ninguém, era mole ter seus lampejos de mentira, ele tão ensimesmado que sequer percebia a falcatrua, ela berrava igualzinho a quando foi repreendida pelo seu síndico, soltando urros feito um jegue na época em que namorava o Arnaldo, o Arnaldo que quando pequeno operava lagartixas e depois se tornou cirurgião torácico, imagina, pegar o coração de uma pessoa na mão, arrancá-lo por instantes fora do peito, o Arnaldo que adorava repetir a história de quando tinha tomado ayahuasca sozinho em Itaparica numa pousada chamada Deus, o Arnaldo que a fazia de picolé mas por mais que se esforçasse nunca havia chegado no palito, já esse cavalo tinha problema que lhe enfiassem a agulha e no entanto metia sem nenhuma precaução, o Zorro ia com a espada em riste até cutucar o útero, e quanto mais ela fazia força para expulsá-lo mais prazer ele sentia, ele trazendo ela para si e a afastando com uma agilidade cada vez maior, ela parecia uma boneca de corda infinita, não parava de tremelicar nem gemer alto nunca, e seu clitóris feito lagarta enfiada na terra, um botãozinho que não dá na vista, e o pau que se exibe como uma cruz no terço, um penduricalho sempre à vista, ele que ereto vai na frente do homem, não, não podia deixar aquele corcel continuar metendo na vulva dela, ela suspira e sente que o ar não lhe chega até o pulmão, o pneumologista disse que ela tinha que parar de fumar, não podia nem mesmo o cigarro eletrônico, No vaping!, No vaping de jeito nenhum porque o óleo de propilenoglicol associado à vitamina E gruda nos alvéolos e para a respiração, e ela que precisa tragar, ela que tem que soltar fumaça, ela que passou a usar o canudo fingindo um careta imaginário mas não dava conta, queria tanto um trago mas não tinha vontade nenhuma de saciar sua oralidade chupando aquele pau, o falo que açoitava suas cordas vocais arranhando impiedoso a garganta, e o vaivém dentro de seu esôfago era pior do que o tubo de endoscopia metido na goela, e então ela se lembrou da sua cadela que estava com a bexiga frouxa, cistite, ó, cistite, lembre-se que sua cachorra já é uma senhora, o rim não funciona direito, e começou a ter medo de panicar, tremeu de antemão pelo que já supunha que viria, o medo de despersonalizar, de se ver de fora, de sentir que seu corpo já não era mais o seu corpo, e então cuspiu o pau, Eu não quero mais!, Como não?, tá tão gostoso, e ele lhe puxou o rosto com cobiça e a cabeça grossa do pau arranhou a garganta já inflamada, e logo o aguaceiro nos olhos quando ele apertou com ânimo seus mamilos, Parecem uma escultura esses peitos, e sem pestanejar ele empurrou o tronco dela e deu uma descida e enfiou de novo o pau buceta adentro, Olha como eu te fodo gostoso, e enquanto o cavalo relinchava ela fez força para escutar o som dos anjos, a harpa que sempre a comovia, esse instrumento que nasceu das cordas dos arcos de caça, e seu professor, ah..., seu professor, a maior de todas as platonices, o professor de harpa e seus dedos precisos nos acordes da salvação, o harpeiro viciado na valsa de despedida e aquele estúpido ali com a voz no mesmo verso, Que bucetinha mais apertada a sua, e então ela tentou se concentrar nas lições da clave de sol e de fá, Isso gostosa, me estrangula com a sua buceta, e de olhos fechados soluçou para dentro a fim de que ele não notasse suas lágrimas, e ele com a boca feito desentupidor enquanto ela fazia força para imaginar que era a língua do harpeiro, o harpeiro que também tinha olhos de gude mas sabia que isso não bastava para meter na caçapa, a língua dela e do professor tão sintonizadas que pareciam colchões de ar se acomodando um no outro, e então ela esqueceu que estava em Santa Tereza, fez de conta que engolia o amor no futon onde tinha aulas na Gávea, a Gávea onde faz domingo todos os dias, e ela e o professor e suas melancolias encaixadas de dia santo, mas aí veio a pressão monstruosa dentro do útero, Tá vendo como o meu pau arromba gostoso sua buceta?, e a bexiga dela afrouxando e a urina escorrendo pelo lençol cheio de bolinhas de quem tá usado demais, Eu detesto Golden Shower, você tá de sacanagem!, Quem tá de sacanagem é você, EU NÃO QUERO MAIS, PARA, PARA!, e junto com o esgarçar das vísceras ela pressionou com força uma perna contra a outra feito uma tesoura que se enferruja e nunca mais se abrirá, o cheiro do próprio mijo ardendo os olhos já embaçados, e eis que, molhada e nua, rolou por cima da cama enquanto o astronauta prosseguiu tocando uma punheta no espaço sideral, ela catou suas roupas, se vestiu num pulo e disparou para a porta, os pés em corrida pelos sete andares da escada, o desequilíbrio nos degraus próximos demais um do outro, a queda feito pena que cai no desfiladeiro e vira asa, e comboiou mancando pela portaria afora rumo ao zigue e zague dos trilhos do bonde, os trilhos do bonde e aquele sobe e desce danado de Santa Tereza, e avançou ladeira abaixo para enfim dar de cara com o túnel escuro, o subterrâneo onde ouviu o eco das próprias pegadas.



A AUTORA

Helena Machado nasceu no Rio de Janeiro. Graduada em Comunicação Social pela UFRJ e formada pela CAL, é escritora, dramaturga, roteirista e atriz. Foi uma das vencedoras do Prêmio Toca Literária 2021 com seu romance de estreia, “Memória de Ninguém”, que será publicado pela editora Nós. Em 2020, o primeiro capítulo do romance saiu na sexta edição da Revista Granta de Língua Portuguesa (InMemoriam). Participou da antologia de contos pandêmicos Parapeitos, organizada por Marcelino Freire, e teve contos publicados nas revistas portuguesas Pessoa, InComunidade e Mapas do Confinamento. Para o teatro, escreveu as peças “Sexton” , vencedora do Brasil em Cena, concurso nacional de dramaturgia (MINC e CCBB) , e “Aos peixes”, vencedora do Festival de teatro do Rio. Participou da equipe de roteiro de filmes e séries brasileiras.

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