• Capitolina Revista

Gabriela Silva - As personagens da minha vida

coluna de Gabriela Ruivo Trindade.



Pessoas de livros que habitam o meu cotidiano

O que fica de uma leitura? Respondo essa pergunta com o elemento narrativo que considero mais interessante: a personagem. Sem a personagem a ficção não acontece, é ela que dá movimento às ações, permintindo que exista uma sequência de ações e desencadeamento de destinos. Mesmo quando uma personagem não está, ela é motivadora da narrativa. E existe personagem para todo o tipo de leitor. Há personagens que, desde o momento inicial de um texto, conquistam o leitor e roubam seu coração para todo, todo sempre. Há personagens que odiamos, são intragáveis, rangemos os dentes quando entram em cena. Somos conquistados pelas figuras literárias que nos comovem, angustiam, alegram e, muitas vezes, permintem-nos uma paixãozinha qualquer.

Vivemos em busca de identificação, precisamos do outro para que ele seja nosso intelocutor, nosso objeto de atenção, espelho da nossa própria alma. Muitas vezes, essa identificação com outro indíviduo acontece na literatura. Existe no universo da literatura, desde os tempos mais antigos, determinadas personagens que marcam a história da humanidade. Quais? Comecemos por Aquiles, herói mítico da Ilíada, de Homero. Ora, vejamos o que Ulisses nos diz quando começa a narrar a Guerra de Troia: “E digam que vivi no tempo de Aquiles”. A grandiosidade de Aquiles foi vaticinada e perpetuada por essa fala. Que personalidade tão estupenda que se pode dizer ter sido seu contemporâneo. O herói se tornou imortal na literatura. Tanto ele, quanto Ulisses, são personagens repletas de muitas significações que perpetuam, ressurgem, renascem em cada novo leitor da Ilíada.

Somos, portanto, descendentes de Ulisses, desejamos viver ou vivemos no tempo de personagens grandiosas, homens e mulheres das mais diferentes formas de pensar o mundo e a vida. As personagens habitam nosso imaginário, se movimentam, participam de forma indireta ou direta em nossas decisões, nos espelhamos em suas ações, preferências e sentimentos. Desde a nossa mais tenra infância, elas nos acompanham e se alinham com o nosso próprio destino.

Nossas “pessoas de livros” correspondem aos nosso anseios, medos, desejos e posturas frente aos problemas da vida. Muitas vezes nos mostram caminhos a seguir, discutem os axiomas que nos incomodam e chegam a apontam uma solução para as nossas confusões particulares. Somos um conjunto de vozes e comportamentos que assimilamos ao longo da nossa existência como leitores.

Posso, como leitora, listar muitas personagens que me acompanham desde menina. A começar pelo Gato de Botas, de Charles Perrault. O que me fascinava (e ainda fascina, confesso) era a capacidade sedutora do bichano. Adorava ler e imaginar a personagem convencendo o rei e articulando ideias. E eu me identificava com a personagem que é o filho mais novo, a narrativa revelava algo sobre o meu destino. Era a identificação que me aproximava da obra.

Minha vida de professora de Literatura me permite conhecer figuras que me comovem e conquistam o tempo todo. Há, claro, algumas que ocupam muito espaço no meu imáginário: Hamlet, de Shakespeare; Lord Henry, de Oscar Wilde e João da Ega, de Eça de Queiroz.

Hamlet exerce sobre mim um fascínio que se renova a cada leitura. Li pela primeira vez em 1997 e nunca mais nos separamos. Meu imaginário é alimentado pela presença do princípe. Shakespeare criou muitas personagens, das mais diferentes constituições psiquícas e ideológicas, figuras que passeiam pela história do mundo e deixam para o leitor um rastro de ideias. Percebemos o mundo através de Shakespeare.

Gosto do modo como Hamlet se expressa, do que diz sobre a humanidade, sobre o que nos constitui como seres sociais e políticos. Suas articulações, pensamentos, e o jogo de palavras sempre arranjado na lógica de tese e antítese, são uma excelente provocação ao nosso senso crítico. Aprendemos a ser desconfiados com Hamlet, a observar, medir, contemplar. Ele espera, calcula e pensa muito (até demais) sobre qual deve ser seu próximo passo. A angustiante espera pelo momento certo para executar a vingança exigida pelo fantasma do pai; a amizade fiel e conselheira de Horácio; o amor da juventude mal vivido e acabado com Ofélia; a relação edipiana com a mãe e o ódio pelo tio assassino do irmão, condicionam as ações de Hamlet. Há, nas suas “palavras, palavras, palavras”, um profundo conteúdo filosófico a respeito da vida, da morte e das consequências de nossas ações. Hamlet foi assimilado de diferentes maneiras pelo cinema, por outras obras literárias, pela filosofia e pela psicanálise. O hamletismo é uma forma de comportamento que apresenta semelhanças com o modo de agir e pensar do princípe.

E, pelas provocações, há outra personagem que me desperta “certa paixão”, Lord Henry, de O retrato de Dorian Gray, obra de Oscar Wilde. Não que eu deixe de gostar de Dorian, é uma personagem rica em detalhes, mas Lord Henry, para mim, tem uma fagulha que

incendeia todo o romance. Sua maneira sedutora de conquistar o desejo de Dorian, de mostrar-lhe o caminho para conhecer tudo, querer tudo e poder viver todas as experiências possíveis, acabam por me seduzir também. Gosto de vê-lo esgueirar-se pelos cantos da alma de Dorian, sugerindo, incitando, jogando com palavras e imagens. Há, nas suas falas, preciosidades filosóficas que se tornaram aforismos constantemente lembrados pelos leitores, sobre os mais diferentes temas, como desejo, Deus, arte, amor e amizade.

E as relações de amizade me levam a João da Ega, melhor amigo de Carlos da Maia, do romance Os Maias, de Eça de Queiroz. Não consigo esconder minha alegria quando João da Ega entra em cena. A verve política, crítica, repto que perpassa todas as suas falas; “homem exagerado” nos seus ditos; Ega, com seus bigodes de pelos arrebitados, é um amante incansável, sempre apaixonado, por mulheres impossíveis. Irreverente, contestador, representa a burguesia portuguesa do século XIX. Desiludido do amor pela Cohen, esposa de um banqueiro, Ega afasta-se de Lisboa para escrever O lodaçal. É um grande defensor da modernidade, do realismo e naturalismo, opondo-se ao romantismo. Figura de paixões, herético, provocador, e de uma fiel amizade por Carlos da Maia. Os amigos estão sempre juntos em confissões e partilhas. O “Mefistófoles de Celorico” reúne em si inúmeras caracterísicas interessantes.

A designação “personagem” vem do teatro da antiguidade, das máscaras que os atores usavam, “as personas”, que representavam as expressões faciais de alegria, tristeza, riso e espanto. Constituem-se em pessoas da literatura, habitam um mundo de palavras que se projeta a partir do mundo real. Assim como são as pessoas, são as personagens, vivas, repletas de paixões, medos, angústias e vivências.

É difícil escolher, também estão aqui comigo Jane Eyre, Alberto Soares, a mulher do médico, Holden Caufield, Sr. José, Gabriela, Bernardo Soares, Aquiles, Iago, Macbeth, Capitão Nemo, Alice e tantos outros, andando pela minha casa, compartilhando a grande aventura que é a vida.


A AUTORA


É natural de São Paulo, formada em Letras, especialista em Literatura Brasileira (2003), Formação de Leitores (2005), mestre (2009) e doutora (2013) em Teoria da Literatura pela PUCRS. É professora de literatura e escrita criativa nos gêneros poético e narrativo. Tem pós-doutorado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no Centro de Estudos Comparatistas (novas identidades de escrita portuguesas) e na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e Missões (romance de Almeida Faria). Tem artigos e ensaios publicados sobre escrita ficcional, escrita criativa e literatura portuguesa. É colaboradora do Jornal Rascunho. Participa de diversos grupos de pesquisa, entre eles o Figuras da Ficção, coordenado pelo Prof. Dr. Carlos Reis, da Universidade de Coimbra. É autora de Ainda é céu, livro de poemas (Editora Patuá), e tem poemas publicados em antologias.

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