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Frases como tapa

RESENHA: Todos os abismos convidam para um mergulho (Editora Patuá), de Cinthia Kriemler




Com narrativa crua e contundente, Cinthia Kriemler parece querer nos despertar para a urgência de temas que insistimos em minimizar


Por: Carla Bessa | Berlim


Diz a teoria do desamparo aprendido que um organismo forçado a suportar estímulos aversivos, dolorosos ou desagradáveis se torna incapaz de evitar (ou não deseja fazê-lo) encontros posteriores com tais estímulos, mesmo que seja possível evitá-los. Presumivelmente, o organismo aprendeu que não pode controlar a situação e, portanto, não toma ações para sair dela. Essa tese, desenvolvida e comprovada em experimentos pelos psicólogos Martin Seligman e Steven Maier nos anos sessenta – e em parte posteriormente corrigida –, procura explicar a passividade de pessoas em situações que lhes fazem mal. Ou seja, por conta de uma experiência traumática na qual a pessoa é exposta a violências que estão fora do seu controle, como o que acontece, por exemplo, com crianças que são violentadas por aqueles que deveriam protegê-las, o ser adulto ficaria condicionado a acreditar que não tem como reagir em cenários similares, mesmo que o ambiente à sua volta evidencie o contrário.


O primeiro romance de Cinthia Kriemler com o impactante título Todos os abismos convidam para um mergulho, finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura 2018, conta a história da assistente social Beatriz, que precisa lidar diariamente com casos de violência doméstica e abuso contra mulheres e crianças, vítimas presas nesse emaranhado de desamparo – para o qual muitas vezes retornam. A narradora, ela mesma marcada por diversas situações de opressão e de perdas, realiza um trabalho que por vezes se assemelha ao de Sísifo e é atraída irresistivelmente para os abismos como Narciso pelo lago. A cada mulher salva, é como se salvasse um pedaço de si mesma, cada criança resgatada sublima a mão não dada à própria filha, que sofria de uma depressão profunda e acabou cometendo suicídio.

Já na primeira frase, “Uma pessoa sozinha precisa pensar na própria morte”, somos empurrados impiedosamente para o fosso que circunda a protagonista. Estão aí

dois tópicos centrais do livro: a morte e a solidão. Na sequência, mergulhamos com ela no despenhadeiro da sua sexualidade, o terceiro alicerce temático deste livro-soco: a busca obsessiva-compulsiva pelo sexo anônimo e “sem beijo”, arriscado e por vezes violento, como forma de purgação e aniquilamento.


No decorrer da narrativa, vão se abrindo outros precipícios, questões paralelas interligadas ao mote central como elos na corrente de violências: machismo, medos, depressão, não-pertencimento e, sobretudo, o fantasma da culpa, que segue Beatriz a cada passo como uma sombra. A culpa quase intrínseca que carregamos, nós, mulheres e mães, quando delegamos a criação dos filhos para os seus devidos pais, desistimos de relações falidas, impomos nossas vontades e profissões, quando não renunciamos à nossa solidão, encaramos nossos vícios e vivemos livremente nossas fantasias. Mas é sobretudo quando algo de ruim acontece com os filhos que a culpa nos açoita e atormenta a ponto de nós mesmas nos martirizarmos e autopunirmos, num processo de interiorização do mesmo papel opressor do qual pretendemos nos libertar.


Beatriz é uma figura bélica, forte e reflexiva e sua dor cresce na mesma medida que sua capacidade de reconhecimento. Ela precisa proteger-se da própria clareza e seu caráter aparentemente duro é apenas a outra ponta da sua fragilidade. As escapadas sexuais com o único intuito de anestesiá-la por um instante não tornam a sua vida mais fácil, mas são a sua maneira de tomar as rédeas da própria miséria.


A narrativa crua e contundente de Cinthia Kriemler é violenta e não poupa o leitor. São frases curtas e diretas que, como tapas, parecem querer nos despertar para a urgência de temas que, por medo ou ingenuidade, insistimos em minimizar.

A guerra pessoal de Beatriz com o mundo e consigo mesma nos é contada de forma lacônica, sem uma palavra a mais ou a menos e, paradoxalmente, a personagem parece crescer com as baixas que vivencia durante toda a extensão da história.


No último capítulo, estamos novamente diante da morte. O romance termina no cemitério, onde Beatriz, depois de mais uma perda, vê-se entre (re)começo e (outro) fim, e conversa com as lápides. Mais uma vez, Cinthia Kriemler condensa numa frase o dilema de quem vive muitas vidas e, consequentemente, morre muitas mortes:


“E me sento aqui, entre as sepulturas, para decidir em que lugar desta superfície de pó eu prefiro estar morta. Acima. Abaixo.”


Todos os abismos convidam para um mergulho é um livro incômodo e necessário, implacável e comovente para qualquer leitor, mas é sobretudo para quem teve ou tem alguma ligação com os temas ali dissecados sem pudor, que produz efeito catártico.



Sobre CINTHIA KRIEMLER:

Cinthia Kriemler é romancista, contista e poeta.

Publicou, entre outros: Exercício de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2018; Na escuridão não existe cor-de-rosa (Conto, 2015), semifinalista do Prêmio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014) e Do todo que me cerca (Crônicas, 2012).

Carioca, mora em Brasília.

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