• Capitolina Revista

Fernando Molica




Bons tempos


Ismael olhou para o jardim quatro andares abaixo de sua janela, a praça, o círculo gramado que delineia o caminho que, num passado nem tão remoto assim, era percorrido pelos carros pretos até a portaria onde ele seus colegas desembarcavam. O acirramento da tensões, as ameaças e, principalmente, os atentados e as mortes haviam gerado também consequências arquitetônicas. Há muito que a entrada no prédio passara a ser subterrânea, que janelas foram blindadas, que um muro de quatro metros de altura, arrematado por cerca eletrificada e cheia de pontas tivera que ser erguido. O início do Processo de Pacificação e Reconciliação prometia diminuir tensões e riscos, mas apenas houve troca na fonte dos problemas Guerras, afinal, são muito lucrativas, a simples possibilidade de busca de um acordo, mesmo um considerado impossível pela maioria, foi suficiente para despertar a ira de muita gente. Alguns expressavam seu descontentamento em discursos nas sessões no plenário virtual da Assembleia Legislativa – quem iria se arriscar a comparecer pessoalmente? -, em púlpitos de igrejas, em redes sociais, em entrevistas e artigos. Onde se viu o Estado se dobrar a marginais, sentar para negociar com aqueles que provocaram tantas mortes, responsáveis por um número inimaginável de crimes, de ataques, questionavam aqueles indignados que tanto se beneficiavam da situação. Ismael os conhecia muito bem, tinham uma certa proximidade, o uso do mesmo uniforme - o terno, a gravata - acentuava semelhanças formais.


Mais violentos e explícitos, eram os que expressavam seu inconformismo em novos atentados, ameaças, homicídios. Radicais, porém sinceros, como, há uns setenta anos, assim verbalizara aquele ditador com pose de pastor para definir os colegas de farda que não admitiam a redemocratização. Os truculentos não negavam seus propósitos, seus objetivos. Eram assassinos, traficantes, contrabandistas, sequestradores – extorquiam, torturavam, ameaçavam, faziam o que julgavam necessário fazer para manter e expandir seus negócios e territórios. Jogavam às claras, sem subterfúgios, sem vossas e suas excelências. Não queriam saber de pacificação porque viam na iniciativa um risco para suas atividades, algo que poderia interromper uma trajetória de crescimento que, nos últimos anos, colocava em xeque os poderes das organizações dominantes e todos os seus esquemas de apoio velado e institucional. Pacificar seria o mesmo que formalizar o domínio existente e escantear os principais rivais. Um golpe na livre concorrência, como Ismael costumava ironizar em conversas com Alaíde, uma das poucas colegas de Ministério Público com quem se permitia ter aquele tipo de abordagem. Não confiava nos demais, cuidados nunca seriam excessivos, mesmo tendo mandado toda a família para o exterior. Nunca sabia ao certo com quem estava mesmo falando.


Pior que dali a pouco teria que enfrentar questionamentos de jornalistas, de pessoas que se apresentam como tais. Bons tempos em que repórteres eram facilmente identificáveis, trabalhavam para empresas conhecidas, tinham crachá e, eventualmente, um diploma que avalizava algum grau de discernimento, de equilíbrio, apontava para uma imparcialidade. Tempos – pelo menos era o que dizia seu pai, um dos primeiros advogados negros a ter algum sucesso no Rio – em que era possível conversar com donos e editores de jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, explicar objetivos, pedir alguma moderação. Nem sempre os pedidos eram atendidos, mas havia conversa. Isso, no tempo dos jornais e revistas, rádios e TV, tempos em que a imprensa nutria a ilusão de reportar e editar o mundo, de colocar alguma ordem no caos. Agora, sequer havia um conceito determinado de imprensa, tudo se tornara diluído, amorfo, indefinível.


Diante daquele cenário, lançou algo que só poderia ser levado a sério por falta de qualquer outra alternativa, por mais louca que fosse. Como é que não apareceu ninguém para impedir que frutificasse sua proposta de, em homenagem aos 60 anos do Pacto de Moncloa, apresentar a ideia de costurar uma negociação que, ao mesmo tempo, reconheceria, formalizaria e limitaria os poderes dos que, na prática, mandavam no seu estado? O quase assassinato de seu filho colaborou para sua formulação, para a conclusão de que não havia mais saída dentro das alternativas legais. Quem mandou aquele idiota tentar cruzar limites – aquele limite – sem as devidas autorizações? Como achar que seria possível atravessar a cidade sem dispor de códigos, salvo-condutos? Não faltaram avisos, alertas sobre a existência de tantas divisas, cada vez mais explicitas, sinalizadas, demarcadas. Ainda mais ele, um garoto que era visto com alguma surpresa, um rapaz negro alto, bem-vestido, que não correspondia ao estereótipo que resistia à mudança dos tempos. Tinha que dar merda. Deu. Graças aos seus contatos, o filho imprudente fora salvo, por muito pouco. Foi ao menos esperto para não revelar que seu pai era procurador-geral de Justiça. Não foi de todo idiota. O terror provocado pelo quase assassinato do filho fez com que retomasse devaneios, traçasse alternativas, alinhavasse o que estava tão disperso. Era preciso tentar recuperar a possibilidade de Estado, ainda que para isso fosse necessário completar o processo de virar o atual de cabeça para baixo. As condições, de tão desfavoráveis, abriam caminho para uma busca inovadora e desesperada. Havia muito que não se fazia mais segredo, tudo ocorria de maneira explícita, todos sabiam quem mandava onde e em quê. Quem eram os donos, os chefes, os gerentes, os tantos representantes no governo que controlavam as associações empresariais e de trabalhadores, os partidos políticos, a polícia, o legislativo, o judiciário, o Ministério Público. Tudo estava em mãos de alguém, havia sido conquistado, demarcado, como as regiões vinícolas da Europa.


Vocês tiveram a sua Idade Média, deixe-nos ter a nossa. A frase de Bolívar que lera numa biografia servia como explicação e consolo. Talvez o pior tivesse passado, seria então o momento de superar o feudalismo, de reorganizar fronteiras e poderes, de transplantar o modelo europeu, devidamente tropicalizado. Era preciso pactuar, o Renascimento estava logo ali, pronto para nascer no alto dos morros, das baixadas, das coberturas, prestes a aterrissar nos aeroportos, desembarcar nas praias. Mas para isso era preciso fazer o parto, ignorar sangue, dor, eventuais fezes. Usar fórceps, um pouco de anestesia, apelar para uma cesariana improvisada, carne cortada com gilete e espadas de samurais. Era preciso conversar com bandidos de diferentes posições e cargos, sentar-se com assassinos, genocidas, agentes que não podiam mais ser qualificados de acordo com os crimes que cometiam. Bons tempos em que se podia falar de assaltantes, de traficantes, de milicianos, em bandidos de colarinho branco. Bons tempos em que o Código Penal era suficiente para elencar, classificar e enquadrar, tempos em que ainda não se transformara numa sopa, não de letrinhas, mas de números que se misturavam, que se combinavam, que se rearranjavam. Agora, via-se como o parteiro daquele novo tempo em cuja alvorada nem ele mesmo acreditava. Mas não havia retorno possível. Quem mandou propor uma visão diferenciada da espiral de violência que havia décadas e, aos poucos, tomara conta de favelas, bairros, cidades, do estado e, de maneira menos explícita, do país? Não era mais possível, insistiu, continuar a lidar com a perspectiva de uma coleção de fatos isolados, como se tudo não estivesse misturado. Não dava mais para ficar no se tivéssemos feito isso, ou aquilo, se não tivéssemos permitido a aliança do grupo X com o político Y, se tivéssemos sido menos pragmáticos e mais estratégicos. Não fomos.. Menos por inocência e mais por interesse, deixamos que tudo ficasse como ficou. Agora, não tem outro jeito, é preciso conversar, aceitar a legitimidade de poderes conquistados com muitas armas, com muito sangue, a custa de tantos crimes. Não foi assim em tantos lugares do mundo, na Europa, nos Estados Unidos, na China? Talvez no futuro esses homicidas e traficantes sejam vistos como conquistadores, fundadores de uma nova nação, aquela que finalmente rompera laços coloniais e escravocratas que tanto se adaptavam e se renovavam. Seus filhos serão líderes empresariais; seus netos, acadêmicos, pensadores, artistas, filantropos na velhice. Estamos chegando ao nosso Renascimento, Bolívar. Teremos, enfim, nossos Ticianos, Da Vincis, Michelangelos.


Até como reflexo do caos, a proposta acabara aceita, não havia nenhuma outra disponível, por que não permitir a tentativa daquele procurador tido como honesto, neto de famílias pobres, primeiro de sua cor a chegar àquele cargo? A ideia teria o efeito adicional de gerar notícias, fatos, discussões, mobilizaria autoridades, opinião pública, provocaria debates parlamentares – enquanto isso, todos os negócios correriam do mesmo jeito. O problema, confidenciou a Alaíde, foi quando aquela maluquice começo a ameaçar dar certo, quando três dos quatro principais donos do estado mandaram recados dizendo que aceitavam conversar, discutir um processo de pacificação que preservasse patrimônio e atividades empresariais, tudo fora construído com muito trabalho, centenas de milhares de pessoas dependiam de seus negócios. Num primeiro momento, tudo seria feito em sigilo, era fundamental não assustar. Mas seu encontro com um deles, logo com ele, Palhares, vazou. Antes que voltasse para casa, as imagens circulavam em todas as redes, em todas as telas. Olegário e Noronha mandaram interlocutores dizer que se sentiam traídos; Elias, o que se mantivera afastado, viu mais motivos para ficar longe, e tratou de matar umas poucas dezenas de rivais para sacramentar sua posição. Os chefes de territórios independentes promoveram matanças mais modestas, apenas para marcar posição. E tome de editorais, discursos, manifestos, acusações de traição cívica. A conversa com os jornalistas seria uma tentativa desesperada de se contrapor ao massacre, de tentar salvar o projeto. Conversa virtual, seus interlocutores sequer saberiam de onde ele falaria, há muito que não ia ao seu gabinete. A chance de salvação era mínima, mas tentaria, ao menos, preservar sua reputação – houve quem pedisse sua saída imediata do cargo, um procurador-geral não podia se encontrar às escondidas com um dos principais assassinos do estado.


Faltava pouco, mas ainda tinha uns 15 minutos antes do início da entrevista. Subiu o olhar, viu o aeroporto, a baía, o reflexo do sol na água, os barcos, os poucos veículos que percorriam aquelas avenidas largas. Daria tempo de fazer algo que, de tão arriscado, seria até seguro, pelo inusitado. Ninguém imaginaria que o procurador-geral fosse, sozinho, sem a companhia de seguranças, dar uma volta pelo terraço, pegar um pouco de ar. Havia uns seis anos que não se arriscava a subir até lá para contemplar o Rio de um ângulo parecido com o desfrutado, séculos atrás, pelos moradores do morro que lá existia, que fora arrasado para arejar o Centro, torná-lo menos suscetível a doenças, outro motivo para sua eventual descrença: não poderia dar certo uma cidade que destrói seu sítio original.


Atingido por um único tiro logo depois de chegar ao teto do prédio, ele não teve tempo de pensar que subestimara a imaginação e a persistência de tantos possíveis algozes - a queda de um homem de 75 quilos do 14º andar é rápida demais.



O AUTOR


Carioca, Fernando Molica é autor de cinco romances, entre eles, ‘Uma selfie com Lenin’ (Record). Foi duas vezes finalista do Prêmio Jabuti. Dois de seus livros – ‘Notícias do Mirandão’ (Record) e ‘Bandeira negra, amor’ (Objetiva) – foram lançados na Alemanha e na França. Tem contos publicados em diversas coletâneas.

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