• Capitolina Revista

FAMÍLIA

Rodrigo Novaes de Almeida.



Química

Rio de Janeiro, primeira quinzena de abril de 2020.


Se gritar comigo, vou gritar de volta, se me empurrar, vou bater, a pessoa que me batia e gritava comigo está morta, não vou deixar ninguém mais fazer isso comigo, entendeu?, ela me disse e saiu do quarto; ela tinha toda a razão, e na mesma hora lembrei das histórias sobre o seu pai, que não era realmente seu pai, e isto ela só descobriu no final da adolescência, como a que, bêbado, a levou para o quarto dos fundos da casa, o quarto de empregada, para bater nela com o cinto, sem motivo, ou rigorosamente pelo motivo de ela não ser a filhinha morena dele, mas a de outro homem, desconhecido e até hoje sem nome, os dois irmãos mais novos e de pele clara, como a dele, porque seus filhos biológicos, não viam nada disso, o medo do pai bêbado limitava-se aos gritos dele, às ameaças e aos prantos da mãe, que nunca teve naqueles anos todos coragem de revidar — agora estava na casa da sogra, em uma cidade que não era a sua, cuidando do marido doente, após a primeira sessão de quimioterapia, sob uma quarentena inédita, global, em que as pessoas deviam evitar sair de casa, ela indo apenas à farmácia e ao supermercado, ou comigo ao hospital, sempre usando máscara e luvas cirúrgicas para se proteger, debilmente, desse novo vírus, não admitiria portanto que essa velha má, ciumenta, que preferia naquele momento detestá-la a amar o filho, dissesse a ela impropérios e, pior, a agredisse, como o pai; eu tinha consciência de tudo isso para amá-la ainda mais, eu teria forças para suportar os enjoos, as dores e os pesadelos também por ela, e assim estas páginas, que já foram ensaio, depois depoimento, depois ensaio novamente e outra vez depoimento, as páginas deste romance, se tornam também as de uma história de amor, mais uma história de amor, em pleno fim do mundo.

A mãe não percebe que perderá o filho de uma forma ou de outra.


(Fragmento do romance inédito Ensaio sobre a paisagem, com previsão de lançamento em 2021.)


Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e editor. Formado em Comunicação Social — Jornalismo, com pós-graduação em Publishing e passagens pelas editoras Apicuri, Saraiva, Ibep, Ática e Estação Liberdade. Em novembro de 2016, criou a Revista Gueto, portal de literatura que publica, divulga e lança escritores e poetas. É autor dos livros de contos Carnebruta (Editora Oito e Meio e Editora Apicuri, 2012) e Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos (Editora Patuá, 2018), finalista do 61º Prêmio Jabuti, em 2019, e do livro de poesia A clareira e a cidade (Editora Urutau, no prelo), entre outros.

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