• Capitolina Revista

ESQUISSE

Godofredo de Oliveira Neto


morcego de duas orelhas


1

   

Encontro o parente  na entrada  da Saint Patrick’s Cathedral, em Nova York . Foi ideia dele. Às 14 horas ele deve chegar. Porque exatamente neste lugar não sei. Parece filme policial. É que ali não tem erro, num café poderia gerar confusão, são parecidos, a catedral todo mundo conhece, explicações dele no whatsapp , eu ainda no Rio de Janeiro.  Examino as torres, li  terem cem metros de altura, comparo as portas e a rosácea com as de Veneza , que visito em breve pela mesma razão da vinda a Nova Yok :  herança. A Saint Patrick’s Cathedral  se embaralha , a minha visão se turva, pode ser pelo fato de ter levantado a cabeça  para olhar detidamente as torres, não sei, traços de quadros de  Jheronimus Bosch debruam as quinas da igreja, morcegos entram e saem indecisos e histéricos pela porta central,  o céu escurece, a cidade escurece, os prédios em volta escurecem, a catedral se incendeia, rubra entre o breu , entre trevas, entre o nada, o inferno, me puxam para dentro , alguém me toca as costas, não, não quero ir, diabo, não me empurra , acho que desmaiei, de baixo para cima vejo rostos próximos ao meu, vários, órbitas de várias cores, bocas , narizes, sempre me perguntei como um nariz, uma boca e dois olhos podem construir rostos tão diferentes, me disseram que a combinação de palavras  também, agora era o caso, quantas caras distintas umas das outras me olham? Um braço  mais amigo me levanta, fala em português, está melhor? Es tou, obr igado, a língua me acalma,  até então naquela posição subjugada só ouvia oh my God. Claro, era o parente. Reconhecível  pela barba aparada, os olhos esverdeados, o cabelo liso alourado da minha avó, cara de meio perdido, me lembrou alguém do Brasil , claro, a nossa família toda vem do Vêneto, não lembra, sim, sim, lembro, Belluno, Veneza, Trento, Bérgamo, por ali. Claro, Sordi. Digo o nome dele pela primeira vez, como o ator de cinema italiano da minha época , ele diz o meu, sim primo  Luiggi. A semelhança com certas pessoas do meu país não me cai bem, sinto azia, por que desmaiei? Ele abre o celular, minha cara no visor, reconheci você na hora, me diz, abro o meu aparelho, custo a me concentrar nas teclas, Sordi aparece afinal, sorridente, parece franco na foto, ele é honesto? Examino-o como examinei as torres da catedral, ele olha para o chão, tímido até agora, propõe logo um café nas cercanias. Antes o  clássico aperto de mão , o jogo começa, segura meu braço, tapinha nas costas. Ator italiano dos anos 60  caricaturado. Quer ir ao Hospital? Não, não, estou ok, de vez em quando tenho isso, já estou acostumado.


 2


            Atravesso a rua no sinal fechado, uma mulher de cabelo curto, loiro, ao volante de um carro de marca japonesa me acena, retribuo o gesto algo hesitante, ela põe o indicador na orelha e gira, louco eu? Me dou conta que ela limpava o para-brisa embaçado, o lenço servia para isso, termino a travessia constrangido, entro num café perto do terminal de ônibus, na calçada a  placa Veneza- Noale,  o último cheiro de gasolina e escapamento, logo só gôndolas, lanchas e o  vaporeto  de transporte público. Daqui a pouco o  hotel na rua Mandola, perto do Campo Sant’Angelo.  No café o conhaque desce tal uma barata se arrastando devagar no esgoto, é assim que me vejo, no esgoto, caído na sarjeta. Escrevo algumas linhas no guardanapo de papel, será meu epitáfio ou minhas memórias? Confissões de um derrotado moralmente, profissionalmente, eticamente, o esboço do Bosch como a minha vida, um looser, um projeto rudimentar de vida que não se concretizou, um esboço de existência, uma esquisse de quadro. Grandioso em alguns sonhos. Só em sonhos. O que estou fazendo aqui, meu  Deus? Por que alimentar a esquizofrenia da família?

            A quem estou enganando? O encontro será em Veneza, não rolou com o Sordi em Nova York, agora tem que continuar, Luiggi. Um dos tios ainda diz a frase chavão e de mau gosto  “se só tem tu vai tu mesmo “. O parente desconhecido, desta vez,  que cara terá? As fotos nas redes sociais são dele mesmo? As feições regulares, o bigode fino,  cabelo ruivo,  enferrujado se dizia na minha escola, tinha vários no colégio, ele vai me passar  a esquisse do Bosch assim? A gente permuta um apartamento de duzentos e cinquenta metros quadrados na Avenida Beira- Mar Norte em Florianópolis,  três quilômetros de terra na beira da BR-470 entre Navegantes e Blumenau,  um quarto e sala quase esquina da praia do Leblon no Rio de Janeiro e um apart hotel de trinta metros quadrados em Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, todas propriedades de meu avô deixadas para  a família, pela esquisse . Olho as escrituras, tudo em dia, já passadas para o seu nome, um nome longuíssimo, Alessandro De Angelis Palumbo Marchetti de  Santis Marini Coutinho,  só falta minha assinatura , o inventariante. Em troca ele passa o Bosch com uma declaração de que a obra lhe foi ofertada de boa-fé por um contraparente, obra que estava com a família dele desde 1901. Alessandro se compromete a assinar, no cartório de Veneza, a devolução aos verdadeiros proprietários, a família Coutinho  Sorrentino Caruso, nomeadamente os herdeiros Matilde, Alberto ,Gianfranco e Júlio. Sei o script de cor e salteado, repito ele há semanas . Os advogados das duas partes já resolveram  o contencioso jurídico.

            Do  Campo Sant’ Angelo  pego uma ruela e vou até o Campo San Fantin, do Teatro  La Fenice .  Em cartaz  Fausto , dirigido por Frédéric Chaslin.  Amanhã será o encontro com Alessandro no Ristorante al  Theatro,  ali pertinho. Mensagem para Ana Júlia, conversa afetiva dessa vez, querida, amável,  produtiva, se diz mergulhada nos versos de Paul Éluard,  Breton e Augusto dos Anjos , estou torcendo aqui por você aí  em Veneza, meu amor,  pergunto a ela porque ela não veio comigo, como eu poderia, Luiggi? E o trabalho? E além disso não quero me meter nessa história de herança da família de vocês, não tenho nada com isso e essas coisas sempre dão rolo, é briga na certa, o teu irmão podia ter te acompanhado, isso sim, é verdade, mas ele nunca quer nada, Ana Júlia, está sempre deprimido, pois é, Luiggi, a família de vocês é desse jeito. Não gostei da observação negativa sobre a minha família, não disse a ela, mas não gostei, desliguei.            

 Ligo para a Fabiana , colega da Universidade Federal de Santa Catarina, ela organizou uma conferência para mim na universidade Ca ‘ Foscari, falo sobre pintura brasileira do século XIX, vou dar força ao   quadro A Primeira Missa no Brasil, do Victor Meirelles.  Sordi insistiu, em Nova York,  que eu deveria sempre realçar  Victor Meirelles, Cruz e Sousa, Anita Garibaldi, o monge João Maria e o naturalista Fritz Muller como  grandes expoentes catarinenses da história do Brasil, e agora, com a posse do Bosch, vocês serão a sexta referência brasileira. Não desgostei dessa proposta, à noite senti a culpa cristã de sempre pela vaidade e narcisimo.  A sexta personalidade cultural só por sermos proprietários de uma quadro do Bosch, que nem terminado está, é apenas uma esquisse, que vergonha pensar isso, o que que os meus camaradas de esquerda pensariam?  Tomo aperol em cima de aperol no bar Brasilia , não poderia não ir com esse nome, perto do hotel, já tinham me recomendado, Sestieri San Marco 3658, antes passei na livraria na mesma ruazinha,  mais um depósito de livros do que uma livraria, consegui uma edição antiga, de 1901,  em super bom estado,  de La Divinna Commedia, Dante me persegue desde o Ensino Médio . Leio o canto  XXV  do Paraíso - Vinca la crudeltà che fuor mi serra/ Del bello ovile ov’io dormi agnello,/ Nimico ai lupi che ci danno guerra. As esferas, a oitava,  as visões de Cristo e da Virgem Maria me sossegam, a Igreja triunfa, com Dante os remédios para as minhas aflições funcionam mil vezes mais.

 Posto mensagem carinhosa para Ana Júlia. Como agirá Alessandro? Será como o Sordi?   No bar do aperol uma mesa de brasileiros discute a política do Brasil,  aplaudem  o esforço para pôr no seu devido lugar o exagero  do espaço do saber universitário, a arte esquerdista hipervalorizada, a ciência dimensionada equivocadamente, devia-se realçar, isso sim,  a sabedoria popular haurida não nos livros, mas na experiência própria, menos livros e mais saber, esse é o meu lema, gritou uma senhora de Ribeirão  Preto, secundada por Deus acima de tudo, completou o marido gordo de bochechas arroxeadas , quase do  tom das duas garrafas de vinho engolidas.

  No calçadão à beira mar entre a praça San Marco e Giardini – conto vir com Ana Júlia na próxima Bienal de Veneza  - andorinhas do mar   passavam umas para as outras, em pleno voo, pedaços de  peixe numa experiência de comunidade surpreendente. Os brasileiros comiam caviar , as andorinhas do mar me fizeram lembrar deles.  Arlequins voam nas minhas retinas. Não vou desmaiar.  Ainda tenho que telefonar para os herdeiros, inclusive a minha mãe.  Talvez também ao Aldo, mas o meu irmão vive em outro planeta.    


( Os dois capítulos desta publicação fazem parte do livro Esquisse, ainda inédito)



Godofredo de Oliveira Neto é um escritor e professor universitário brasileiro, formado em Letras e Altos Estudos Internacionais pela Sorbonne. Atua, como docente, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

É autor de vários ensaios e romances, entre eles Ana e a margem do rio: confissões de uma jovem Nauá, O Bruxo do Contestado, Amores Exilados (originalmente Pedaço de Santo), Cruz e Sousa: o poeta alforriado, Grito, A Ficcionista, O menino oculto, publicado na França e segundo lugar no Prêmio Jabuti.

                                       

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