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Entrevista Ana Maria Machado


Ana Maria Machado

Incontestavelmente uma das mais celebradas e conhecidas escritoras brasileiras, Ana Maria Machado, de acordo com a fonte do seu site oficial, tem mais de cem livros publicados e já vendeu mais de vinte milhões de exemplares. Ganhadora de importantes prêmios literários em reconhecimento à obra para crianças, seu trabalho segue sendo referência em escolas e casas brasileiras. Por mais que Ana Maria Machado já tenha compartilhado opiniões e reflexões sobre temas que vão da política até os que geram polêmica como a obra de Monteiro Lobato, há curiosidade em ouvir uma das autoras nacionais comtemporâneas mais reconhecidas sobre esses temas que estão em constante debate. Aqui, Nara Vidal propõe algumas questões à autora que respondeu, gentilmente, por email.



Nara Vidal - Ana, você passou pela ditadura dos anos 60 e 70 no Brasil, se exilou na Europa, trabalhava como jornalista na época.

Eu era criança e me lembro da apreensão dos meus pais durante o período. Ainda assim, minha mãe tinha preocupação em nos explicar o que se passava. No entanto, em muitas casas não se falava a respeito. Ditadura, política eram assuntos silenciados. Você concorda ou não que essa espécie de blindagem em relação à conscientização política tem consequência hoje?

O período pelo qual passamos, a polarização política e a completa falta de discussão pautada em argumentos, seriam resultado da falta de interesse e envolvimento com política no passado?


Ana Maria Machado- Isso é tema para um simpósio e, pelo menos, um livro inteiro. Escrito por um bom cientista poilítico, de preferência. Não dá para responder assim.


NV - É papel do escritor falar de política nos livros?


AMM- É papel do escritor falar do que ele bem entender. Pode falar de tudo. Não tem dever de falar de nada. Mas, mesmo que não queira, a política acaba se revelando e aparecendo.


NV - Há pouco tempo, houve nas redes sociais uma mobilização sobre a reprodução não autorizada de livros infantis por pais e professores. Livros para crianças inteiros disponibilizados em PDF e compartilhados entre grupos diversos. Seria esse comportamento um reflexo da falta de política pública em investimento na leitura, nas bibliotecas, nas escolas? Ou, por outro lado, seria o caso de sempre denunciar o uso de reproduções por questões de direito autoral e defesa do trabalho do autor, ilustrador, editor?


AMM- A intenção até pode ter sido inocente, mas fazer isso é inconstitucional . Pela Constituição de 1988 , o direito autoral é inalienável. E como a escravidão foi abolida no país em 1988, todo trabalho deve ser remunerado. Inclusive o do escritor, do editor, do ilustrador. Ainda que muita gente faça isso sem maldade e não se toque.





NV - Outro ponto polêmico é a obra de Lobato. É possível uma adaptação levando em conta as questões levantadas sobre racismo? Ou seria o caso de uma contextualização?


AMM- Tudo é possível. Agora que caiu no domínio público, há inúmeras versões/adaptações nesse sentido. Algumas contextualizam, outras adaptam.


NV - Você faz parte da ABL. Há quem imagine a Academia como sendo um lugar fechado para questões em constante mudança na nossa literatura. Como se a ABL estivesse parada no tempo com discussões que envolvem seus integrantes, exclusivamente. Quais a iniciativas você destacaria da ABL que se comprometem com a inclusão da literatura brasileira contemporânea?


AMM- No momento, com a pandemia, está fechado. Mas é só entrar no site da ABL que se encontram inúmeros exemplos. De atividades regulares e constantes abertas ao público. Quando eu estive na presidência, por exemplo, fizemos parcerias com a FLUP, Festa Literaria das Periferias, demos curso de formação de profissionais para bibliotecas nas comunidades (durava um ano e formamos 98 técnicos). Temos também um programa de distribuição de livros em comunidades indígenas e em presídios.


NV - Como tem sido este ano para você, Ana? A pandemia que vivemos tem facilitado seu empenho para criar ou ao contrário?


AMM- Estou recolhidíssima, lendo, relendo, escrevendo, pintando. Mas não acho que esse recolhimento tenha facilitado nem atrapalhado diretamente minha relação com a criação.


NV - Você foi aluna de Roland Barthes, deu aulas em instituições renomadas como a UFRJ, Sorbonne, Berkeley - Califórnia, publicou ensaios, pesquisas. Você sente falta de dar aulas, das universidades? Gostaria de fazer alguma observação em relação à frequente perseguição e ao constante sucateamento sofridos pelas universidades públicas brasileiras sob o atual governo?


AMM- Eu às vezes sinto alguma falta de ter contato com alunos, o diálogo em sala de aula era algo de que eu gostava muito. Mas dou graças a Deus por ter me livrado da burocracia que emperra as universidades. Uma perda de tempo e de energia inacreditável, parceira da mediocridade sempre. Essa é uma das coisas que mais detesto no mundo, e isso sempre contribuiu para me manter à distiancia quando tive qualquer tentação de voltar, por saudade dos alunos.

Quanto ao sucateamento e a perseguição à cultura e aos meios acadêmicos, científicos e culturais em geral, claro que isso é algo inadmissível e lamentável. Pagamos um preço altíssimo por isso. E ainda vai nos custar muito mais.


NV - O que você tem lido ultimamente? Pode citar 3 leituras favoritas de todos os tempos?


AMM- Tenho relido muito . Poesia, sempre (sobretudo Drummond e Pessoa, meus inseparáveis). Nesta pandemia aproveitei para reler alguns autores de minha especial predileção como Guimarães Rosa, Albert Camus, Garcia Marquez. Philip Roth, Julian Barnes, John Banville, Margaret Atwood. Joy for ever.

Também reli uns ensaios seminais sobre o Brasil, que andava com muita vontade de revisitar : Os Donos do Poder (Raymundo Faoro) e O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro). E gostei muito de um conjunto de reflexões que não tinha ainda lido, Uma certa ideia de Brasil, do Pedro Malan.

Andei lendo um pouco de Historia (Lilia Schwarcz, Heloisa Starling, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral e o ultimo do Laurentino Gomes ), alem de algumas reflexões teóricas identitarias mais contemporaneas, bem variadas, sobre feminismo e racismo..

E , como sempre faço, procuro seguir de perto a ficção contemporanea brasileira, tão variada e com tanta coisa boa : os novos livros de Sérgio Rodrigues, Eliana Alves Cruz, Paulo Scott, Jefferson Tenório. Michel Laub. Excelentes, sem favor algum. Acho que estamos num momento de muito vigor nessa área, temos do que nos orgulhar. Sou capaz de apontar uns quinze ótimos autores atuais nesse terreno, o que é uma bela explosão criadora.


Três leituras favoritas de todos os tempos? Muito difícil escolher. Acho que no Brasil ficaria com Memórias Postumas de Brás Cubas, Poesias Completas do Drummond, 200 Crônicas escolhidas de Rubem Braga. Podia levar para a tal ilha deserta e reler sem parar.

No exterior, fico com Philip Roth, Italo Calvino e Garcia Marquez – mas não consigo selecionar os títulos. Amo quase tudo deles, embora tenha alguns preferidos.


Nara Vidal e Ana Maria Machado em Londres

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