• Capitolina Revista

Em conversa com Morgana Kretzmann


A atriz e escritora Morgana Kretzmann


Em seu romance de estreia, a escritora gaúcha Morgana Kretzmann toca em temas difíceis como abuso infantil, e apesar de desenvolver o crime na sua narrativa, a autora ressalta que sua obra não tem uma natureza panfletária e que a literatura e a arte só podem ser criadas se houver liberdade completa.



CAPITOLINA BOOKS: Por favor, fale um pouco do começo da linha que te levou a escrever. 


MORGANA KRETZMANN: A escrita sempre esteve presente na minha vida. Desde que eu era pequena, minha imaginação fazia malabarismos experimentais sobre pessoas, situações, objetos, bichos que iam cruzando a minha frente, muitas vezes misturava isso tudo numa única história que ficava apenas acontecendo na minha projeção mental, podendo durar horas, às vezes, até dias. Lembro do primeiro livro que escrevi, ilustrei e editei (risos) quando tinha 9 anos.

Como atriz sempre estive enredada em processos do imaginar, envolvida com a criação de personagens. Mas isso, de escrever para os outros, para fora das minhas gavetas, fora do meu círculo fechado de amigas e amigos, escrever para um determinado público, começou a ficar sério quando adaptei para o teatro o livro “Big Jato”, do escritor e jornalista Xico Sá, em 2012. O espetáculo foi bem recebido, teve uma bonita carreira, prêmios, o que acabou me levando a ter coragem, confiança (a confiança que vem daquele lugar pelo qual você se sente acolhida, respeitada, quando seu trabalho é bem recebido), para começar a escrever roteiros de cinema e de séries, algo que já vinha fazendo amadoramente há algum tempo. Em 2014, enquanto estudava Roteiro Cinematográfico na PUC - Rio, na Gávea, comecei a escrever as primeiras cenas do que viria a ser um roteiro, este roteiro nunca ficou pronto, virou um livro, uma novela, “Ao pó”. Seis anos depois, seis versões diferentes, estudos, pesquisas, recomeços, algumas leituras e observações de amigos do meio literário, certezas, inseguranças, o livro veio a ser publicado e, apesar da pandemia do covid-19, lançado em São Paulo. Os outros lançamentos programados foram todos adiados para quando o mundo renascer. Espero.

CB: Ao pó é o seu romance de estreia e aborda uma tema difícil. Você acredita na literatura como forma de exposição e debate de temas amplos através de histórias particulares?


MK: Primeiro eu gostaria de dizer que acredito em liberdade quando se trata de criação literária. Dentro da arte não há certo ou errado, as pessoas fazem aquilo que acreditam que precisa ser feito. Então se alguém faz literatura engajada e crê naquilo como uma ferramenta para chegar às pessoas, para passar o que ela considera importante, eu acho incrível. Porém a minha arte, a que escolhi fazer até hoje, seja dentro do teatro, cinema ou agora com o romance “Ao pó” não é uma arte engajada. Não considero que Sofia, a protagonista do livro, exista para levantar bandeiras.

Na criação de uma personagem, seja na literatura, no cinema, no teatro, na televisão, eu não enxergo a limitação de que só determinadas pessoas poderiam concebê-la, escrevê-la, e outra pessoas não. Penso que você não precisa ser indígena para criar uma personagem indígena. Algumas leitoras e leitores me perguntaram se fui abusada na infância, já que escrevi um livro sobre violência sexual, um livro narrado em primeira pessoa. Não, nunca fui abusada na infância, mas escrevi um livro onde duas das minhas personagens foram.

“Ao pó” trata de temas duros: de violência infantil, de violência contra mulher, de optar ou não por fazer denúncias em delegacias no Brasil, temas difíceis para quem lê, mas que precisam ser lidos e escritos. Talvez pela densidade da narrativa e por algumas pouquíssimas semelhanças entre a vida dela e a minha, alguns pensem que se trata de uma autoficção, porém o livro é uma história de ficção.

CB: A violência e o abuso sexual em crianças e adolescentes por membros da própria família é um tema duríssimo, mas muito recorrente. As consequências são sérias e muitas vezes pontuam a vida inteira da vítima. Como fazer do crime, arte e literatura?


MK: Atos criminosos, cometidos na esfera pública ou na esfera particular, fazem parte da sociedade e por isso são assimilados pelas narrativas literárias. Vejo o “Ao pó” como uma narrativa que, de maneira oblíqua, flerta com o gênero policial. Sou muito fã do gênero policial, nele há narrativas que me prendem, instigam. Dentro desse gênero literário me pego pensado em Paul Auster, que considero um mestre, assim como o Marçal Aquino, aqui no Brasil, por exemplo. Como eu disse, considero que o “Ao pó” flerta com o drama-policial, apesar dele não ter aquela clássica estrutura de Allan Poe, um crime no início, um culpado no final, já que nas primeiras páginas descobrimos o crime e o culpado. Mas a narrativa do livro tem como objetivo manter o suspense até o final, com a pergunta “quando e como ela vai matar o seu tio Luiz”. Então dentro dessa trama de suspense, acaba por criar o arco narrativo que leva a história do início, pro meio e pro fim, com o desfecho, ou seja, o embate entre ela e o tio. Já as partes mais lúdicas, mais poéticas, do livro, ficam pros sonhos de Sofia, que estão em formas de contos. Esses contos são na verdade essa pontuação, esse lembrete da vida, para que ela não esqueça o passado, não tente fugir do que ela foi, do que lhe aconteceu.

CB: Quem são suas referências literárias?


MK: Minhas referências vão mudando com o tempo, com o meu tempo, com o que estou escrevendo, vivendo, então hoje posso dizer que tenho como grandes referências Andréa del Fuego, Verônica Stigger, Eunice Arruda, Elena Ferrante (seja quem for ela, ou ele), Jonathan Franzen e Paulo Scott.

Mas comecei lendo gibis com meu pai, depois passei para Monteiro Lobato e um belo dia, não sei como, com 9 anos, estava com “Dom Casmurro” no colo, literalmente no colo, era uma edição de capa dura, um pouco pesado para meu tamanho. Mas isso não faz de mim uma leitora exemplar, pois, daquele momento em diante, eu comecei a intercalar livros da coleção vaga-lume e romances do Sidney Sheldon, que era o que tinha na biblioteca do meu colégio na pequena cidade de Três Passos, noroeste profundo do Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina. Sim, eu li Sidney Sheldon até meus 14 ou 15 anos e não tenho problema algum em falar isso, pelo contrário, foi com este autor e com os livros da coleção vaga-lume também, claro, que eu e algumas amigas começamos uma espécie de clube de leitura (nunca usamos este termo), mas passávamos o livro de mão em mão e, quando todas havíamos lido, fazíamos críticas sobre as personagens, sobre a escrita do autor, sobre o enredo, etc.

CB: Já pensa em um próximo livro? Se sim, fale um pouco sobre, por favor.


MK: Estou trabalhando numa série de livros infantojuvenis sobre super-heróis que nascem dos solos brasileiros e lutam contra vilões que querem acabar com o meio ambiente. A série se chama “Os Super Solos” (ainda sem editora), ela foi criada para meu projeto de TCC da faculdade de Gestão Ambiental que fiz durante os anos em que morei em Santa Catarina. O primeiro livro chamado,

“Neomenina, Esperança e os Super Solos”, já está escrito. Quem está trabalhando, criando as ilustrações das personagens, é o gênio e premiado ilustrador Fábio Zimbres.

Sobre o romance novo, eu sou meio supersticiosa e prefiro seguir a linha do “Ao pó”, só contar sobre ele quando estiver pronto, indo para a gráfica, mas, apesar dessa cautela, vou aqui, pela primeira vez, falar o nome do livro: “Água Turvo”. Vou dar também uma pista: se passa numa cidadezinha onde fica o maior salto de queda d’água longitudinal do mundo, que na história, está prestes a desaparecer.



"Ao pó" (Editora Patuá, 2020_

Para comprar no Brasil:


https://www.editorapatua.com.br/produto/114486/ao-po-de-morgana-kretzmann


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