• Capitolina Revista

Em conversa com Carlos Henrique Schroeder


O escritor catarinense Carlos Henrique Schroeder © Thays Magalhães


As tramas em "Aranhas", novo livro de contos de Carlos Henrique Schroeder revelam, através da complexidade dos aracnídeos, a capacidade inesgotável do ser humano em surpreender, especialmente no que diz respeito à violência e à obscuridade.


Em conversa com Nara Vidal, ele fala da mais bela herança possível, deixa evidente sua influência literária e nos dá a esperança de voltar a imaginar um Festival do Conto.


Capitolina Books: Quando e como começou a escrever?


Carlos Henrique Schroeder: Desde a infância e pré-adolescência tenho uma pulsão criativa que se exterioriza através da escrita. Lembro que eu comprava aqueles cadernos espirais e os enchia de histórias e desenhos, sobretudo de outras vidas que não a minha. E aquilo tudo era muito real para mim, os personagens e as obsessões. E isso me lembra o Anos de formação – Os diários de Emilio Renzi, livro do argentino Ricardo Piglia, que é um mergulho na formação literária do alter ego de um dos mais populares e reconhecidos escritores latino-americanos.  O Renzi de Piglia também tem algo a dizer sobre escrita/infância/formação: “A maravilha da infância é que é tudo real. O homem crescido é que vive uma vida de ficção, preso às ilusões e aos sonhos que o ajudam a sobreviver.” Escrever talvez seja uma eterna infância. E no princípio dessa infância eterna, minha avó me incentivava muito, era poliglota e uma grande leitora: fã de Flaubert, e tinha com meu avô uma biblioteca só com grandes livros. Eu cresci no interior,  numa pequena cidade de três mil habitantes, vendo vacas e pasto por todo o lado, com poucas distrações e admirando aquela biblioteca, e muitos daqueles títulos acabaram ficando comigo, uma bela herança. Voltemos ao Renzi/Piglia: “Como é que alguém se transforma em escritor, ou é transformado em escritor? Não é uma vocação, imagine, também não é uma decisão, mais parece uma mania, um hábito, um vício, você deixa de fazer isso e se sente mal, mas ter que fazê-lo é ridículo, e acaba se tornando um modo de viver (como outro qualquer).” E você vai aperfeiçoando a sua técnica, aprendendo com os grandes mestres, ampliando os horizontes, e quando você percebe já tem um caminho ou voz própria, e segue por ele, errando ou acertando, mas é seu caminho, sua voz, e ouve os ecos dos mestres, lá atrás, que te dão confiança. E você escreve, reescreve, edita, é trabalho árduo, mais transpiração que inspiração, muito mais leitura que escritura, escreve muito e publica pouco, vai seguindo, toma ciência de que existem milhares de escritores que escrevem melhor do que você, eles tem mais erudição, apuro ou técnica,  mas nenhum deles escreve como você ou teve suas experiências, e lembra de mais uma frase do Renzi/Piglia: “Para escrever é preciso não se sentir à vontade no mundo, é um escudo para enfrentar a vida (e falar disso).” E é isso.


CB: Você transita entre o conto, o romance, o roteiro. Quando começa a desenvolver uma narrativa, o gênero é premeditado? Você sabia que "Aranhas" seria um livro de contos?


CHS: Na maioria das vezes, o gênero não é premeditado, pois isso pode ser um limitador, um redutor. Geralmente tenho uma ideia, um esboço, que adere a outras referências e experiências e toma uma forma, mais ou menos como um coronavírus (para usar algo bem próximo nos dias atuais), e cada coroa dessa forma pode levar a narrativa para algum lugar: mais centralidade ou mais e mais redes e conexões. E quando essa ideia  vai para o papel, para a caderneta, e depois para o processador de texto do computador, é que vejo no que vai dar, se tem a respiração pausada do romance, o surto do conto ou a visualidade de uma obra audiovisual, ou se consigo quebrar essas fronteiras e surtar um romance, pausar um conto…. No romance “Esboço”, da canadense Rachel Cusk, em um determinado momento, a narradora reflete sobre as formas, e diz que somente com o preenchimento do exterior, da sua história e da história de outras pessoas, ela conseguiu ter noção da sua verdadeira forma interior: “uma noção de quem ela era agora”. Nos meus projetos (não gosto da palavra processo, que me lembra automatização) de escritura os esboços também acontecem por fora, e modelam o interior. Então só sei o que será, se será um romance de 200 páginas, um microconto de um parágrafo ou um argumento de roteiro de longa-metragem quando as coisas estiverem mais claras, o esboço exterior melhor preenchido. No caso do meu último livro, “Aranhas”, ele bem poderia ser uma “novelita de contos” ou “contos em uma novelita”, e a verdade é que até a metade do projeto eu tinha dúvidas se o que escorria de minhas mãos era um livro de contos ou um romance, mas caso eu optasse pela última opção, provavelmente acabaria estragando alguma espontaneidade das teias narrativas, mas teria uma concentração dramática maior. São escolhas, são jogos, optei pelos contos para ter um pouco mais de liberdade e dar mais potência a cada narrativa, individualmente. Essas dúvidas, tanto antes, quanto durante quanto depois, são as que mais nos ensinam (escritor de verdade está sempre aprendendo). Meu último livro de contos foi publicado há dez anos, o último romance há cinco, é preciso ter tempo para escrever, mas também para viver.


CB: Eu li que em uma entrevista sua que em determinado momento  você passou a observar aranhas com afinco, interesse e até certa obsessão. Eu compreendo essa diligência. Eu me empenho pensando na Efemérida, um inseto tão frágil que vive apenas 24 horas e ainda assim, o impulso natural quando se vê uma, é matá-la. Essa curiosidade inicial, que se originou pelo instinto de proteger seus filhos das aranhas de uma casa de praia, foi aprofundada pelo fascínio, por exemplo: a  vulnerabilidade da espécie diante do risco constante de um extermínio, ou do poder que algo, relativamente, tão pequeno, tem de causar horror e até fobia?


O autor em um dos lançamentos de "Aranhas". © André Gusi Barbi

CHS: Eu acredito que as aranhas não possuem ideia de sua fragilidade perante o mundo, perante os humanos. São exímias caçadoras, vivem para caçar, se alimentar e se reproduzir, e praticamente todas possuem veneno (grande parte inofensiva para nós). Muitas espécies delas convivem conosco, pois a luz atrai insetos e elas se alimentam destes. Aranhas são ultraconfiantes (programação genética?). Os humanos também são, e cada humano se acha especial, a última bolacha do pacote, e não temos ideia de nossas fragilidades físicas  (é preciso uma gripe espanhola, um Ebola, um Nipah, um Covid-19 para devolver nossa espécie à insignificância) ou psicológica (depressão, ansiedade…). Temos mais similaridades com as aranhas do que supomos… E carregamos elas conosco, pois o medo que temos delas é transmitido geneticamente, de geração em geração, como uma defesa, uma “vacina psicológica” para evitar acidentes com elas… Querendo ou não, estamos circundados por aranhas, em todos os cantos de nossa casa, e de nosso trabalho, e algumas são quase invisíveis, mas estão lá, aqui… Nosso medo de aranhas é humano, demasiado humano.


CB: Repulsa é a sensação mais óbvia e até previsível causada por aranhas. No entanto, são artrópodes de natureza complexa formada por muitas espécies, algumas muito raras e entre si apresentam muitas diferenças como o número de olhos, por exemplo. Eu tive a impressão de que, ao ler Aranhas, é bastante possível traçar uma linha de semelhança entre a obscuridade da espécie aracnídea e a humana. Você concorda?


CHS: Isso mesmo, elas são muito diferentes entre si, são milhares de espécies, com modos de viver e caçar diferentes, e até com taras e vícios. Um exemplo: uma espécie que me surpreendeu e até usei no conto “Saltadora”, é sobre uma aranha-saltadora do leste da África, conhecida como aranha vampira. A espécie prefere se alimentar dos mosquitos Anopheles fêmeas, mas apenas de espécimes que tenham se alimentado recentemente do sangue de mamíferos e outros vertebrados. Ou seja, só caça as gordinhas, com a pança cheia de sangue. O mais curioso é o motivo: as pesquisas descobriram que o sangue daqueles mosquitos é afrodisíaco para essas aranhas. Outra coisa: aranhas são pragmáticas, vivem para comer e se reproduzir, são utilitaristas. E o capitalismo selvagem cada vez mais nos aproxima do pleno utilitarismo. No futuro, os humanos serão todos como as aranhas.


CB: Contos como "De Parede (Selenops Spixi)", "Babuíno comum (Harpactira sp)", expõem agressividade e abuso. "Lançadora de rede (Deinopis longipes)", por exemplo é violento e eu notei certa ambiguidade para o título. Deinopis longipes é um tipo de aranha que caça e ataca à noite. No conto, a presa sugerida pelo narrador são as mulheres seduzidas por Diná. Mas quando a própria é pega por Digo, passa a ser ela a presa. Ao escrever você teve consciência que poderia provocar uma pluralidade de interpretação ou essa independência da leitura faz parte da sua liberdade de criação?


CHS: Essa pergunta é muito interessante. Esses três contos são os mais curtos e violentos do livro, e a ideia é: em todas as narrativas do livro as metáforas devem se construir na cabeça do leitor, preciso que ele seja copartícipe, pois aí estabelecemos um jogo, de verdade. Quem é a Deinopis do conto? A Diná? O Digo? Ou o narrador? (que parece ter arquitetado tudo). Ou, ainda, o leitor do livro, já que a Deinopis parece frágil mas é muito habilidosa: https://www.youtube.com/watch?v=tMk2ognfMWk

Gosto e uso as duas coisas:  a pluralidade de interpretação e a independência na leitura como liberdade de criação.


CB: O autor americano E.B. White, feito você, tinha profundo interesse por aranhas. Escreveu o famoso "Charlotte's Web" na década de 50, além do poema "A teia de aranha", que claramente evidencia o cuidado e atenção que investia em aracnídeos. Você acredita que esse recorte se esgotou para você ou será um tema recorrente, claro ou sutil na sua literatura daqui para frente?


CHS: Acho que esgotou, não escreverei mais sobre Aranhas. Estou curado. Ganhei alta na terapia da escrita. Eu acredito que um escritor deve ser fiel às suas obsessões. A obsessão de Borges com a mitologia, por exemplo, é claramente refletida em seus contos. Assim como o sentido de deslocamento da família tradicional americana, nos contos de Lucia Berlin. Fui obcecado por aranhas, e quando escrevi este livro, tudo passou. E, como já escreveu o escritor catalão Enrique Vila-Matas: "Não há melhor forma de se livrar de uma obsessão do que escrever sobre ela".


CB: Como tem sido esse período de isolamento? Consegue criar ou o impacto tem sido duro demais?


CHS: Está difícil demais, não consigo abstrair. Eu faço parte da classe privilegiada, que não vai passar fome, que mora bem, vive bem, que pode ficar e trabalhar em casa, mas não paro de pensar nos que estão nas periferias, os que ficarão sem assistência, na imbecilidade do presidente do Brasil e de seu séquito, na subnotificação de casos como estratégia… Não consigo criar nada, estou sem ânimo, sem vontade… Gostaria de ser como meus amigos, que conseguem fazer lives, mesas virtuais, cantar, ler poemas, eu só consigo ficar deprimido.


CB: Você organizou e fez a curadoria do Festival do Conto em Santa Catarina. Quando foi a última edição? Você planeja voltar a organizar um evento literário desse tipo? Há bons contistas no Brasil hoje?


CHS: Eu organizei e fiz a curadoria de seis edições do Festival do Conto, sempre em parceria com minha grande amiga Patrícia Galelli. Era o único festival dedicado exclusivamente às narrativas breves do Brasil, uma maneira de difundir novas vozes e homenagear os veteranos… A última edição foi em 2016, e homenageou o João Gilberto Noll, que faleceu alguns meses depois. Uma lástima. Infelizmente o projeto está engavetado, por falta de patrocínios. Até comecei a mexer os pauzinhos para reativar o festival esse ano e bing: o Covid-19 veio e arrasou com tudo. Vai ficar na geladeira novamente. Bom, há excelentes contistas no Brasil, acho até que é o gênero mais consistente, afinal, os três grandes escritores brasileiros vivos são contistas: Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles e Sérgio Sant`Anna. Eram quatro até semana passado passada: Rubem Fonseca faleceu. Esses nomes possuem obras-primas e um conjunto da obra inigualável. E além deles há pelo menos três gerações de contistas bem interessantes, com diversidade de estilos e temas, rigor estético…. Vejo com otimismo a literatura no Brasil, sou um entusiasta da bibliodiversidade brasileira.


"Aranhas", Carlos Henrique Schroeder

Editora Record

Páginas: 180


Sobre o autor: Carlos Henrique Schroeder (Trombudo Central, 1978)  é autor de Ensaio do vazio (7Letras, 2007), adaptado para os quadrinhos; da coletânea de contos As certezas e as palavras (Editora da Casa, 2010), vencedora do Prêmio Clarice Lispector, da Fundação Biblioteca Nacional, e do romance As fantasias eletivas (Record, 2014), em adaptação cinematográfica e lançado na Espanha pela Maresia Libros. Este livro também foi leitura indicada nos vestibulares UFSC, UDESC e Acafe nos anos de 2016 e 2017. Publicou também História da chuva (Record, 2015), obra contemplada pela bolsa Petrobras Cultural. Tem contos traduzidos para o inglês, alemão, espanhol e islandês. 


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