• Capitolina Revista

Eltânia André - Carla Bessa resenha.

O homem enquanto animal político




Em “Terra dividida”, Eltânia André retrata a recente História do Brasil a partir da biografia de uma família


Terra dividida

De Eltânia André

Editora: Laranja Original

316 páginas



Carla Bessa | Berlim


A pertença a um coletivo é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, pode oferecer amparo para o indivíduo, por outro, impõe a ele limites, obrigações e constrangimentos. O exemplo mais evidente dessa estrutura necessária, mas contraditória é a família. Ao mesmo tempo que o pequeno núcleo familiar promove a experiência de integração e convivência, ele espelha as normas da sociedade, preparando-nos para ela. Vendo por esse ângulo, a escolha de Eltânea André em retratar as reviravoltas da recente História do Brasil a partir da biografia de uma família do interior parece bastante pertinente e elucidadora. A narrativa, uma sucessão de relatos pessoais, todos escritos em primeira pessoa, mas alternando entre as perspectivas dos sete irmãos e da diarista, têm como pano de fundo Pirapetinga, uma cidadezinha cortada pelas águas de um rio e tão dividida como a sociedade brasileira no final do livro. É que o recorte temporal da história aqui narrada vai da data de nascimento de um dos personagens, Basílio, em 15 de março de 1985 — um dos marcos da queda da ditadura – até o dia 31 de agosto de 2016, data do afastamento de Dilma Rousseff da presidência da república.


Como bem observou a escritora Kátia Gerlach no prefácio, estamos diante de um romance sobre o entendimento de que a formação do indivíduo está diretamente ligada às circunstâncias em que está inserido. Isso nos leva ao filósofo espanhol Ortega y Gasset, cuja frase mais famosa inclusive é citada por uma das personagens, logo nas primeiras páginas: “Eu sou eu e minhas circunstâncias, eu e as minhas contradições”. Esta fala é de Eneida, a mais velha dos sete irmãos, cujo monólogo abre o romance.


Eneida está com uma doença em estágio final, ou, como ela expressa, “nas vésperas do complexo epílogo”. Ela faz um balanço de sua vida, sendo bastante rigorosa consigo mesma por ter sido submissa ao pai e se acomodado no papel de substituta da mãe, cuidando com devoção dos afazeres com a casa e a família. Sua fala é um “ajuste de contas tardio” com o patriarcado, que oprime a mulher também através do sutil mecanismo da proteção. Seu relato é lacônico e lúcido no que diz respeito às mudanças do lugar onde vive, reconhecendo que a sua terra está dividida – não apenas pelo rio: “Duas atmosferas, duas faces do tempo, habitam a moldura interiorana.”


Depois ouvimos Socorrinha, a empregada. Também ela precisou se curvar às circunstâncias, ainda que de início tenha querido mudar o rumo da tradição e não repetir o destino da mãe, que já trabalhava servindo aos outros. Porém, engravidou e não conseguiu quebrar a corrente da hierarquia social. Assim, ela investe todas as suas economias e esperanças no futuro da filha, que, de fato, acabará conseguindo passar no vestibular para uma faculdade pública, evidenciando assim as mudanças ocorridas no Brasil entre 2003 e 20016.


O próximo monólogo é o de Naira. Ela não parece de fato má, mas, por não suportar a visão da miséria, prefere fechar os olhos, atuando assim como representante de toda uma camada social: os cegos que não querem ver.


A imposição de determinados padrões de comportamento comunitário aos personagens é proposital e seguirá pelo resto do livro, apresentando artificio

interessante de personalização de fenômenos sociais de nossa época, tornando-os vivos e, assim, próximos ao leitor. Veremos, por exemplo, o tema da homofobia e transfobia refletidos na biografia do personagem Basílio. Ele é homossexual e tenta reprimir isso por muito tempo, pois o seu entorno condena a homossexualidade. Há forte opressão por parte do ambiente religioso que o rodeia, há o medo e o sentimento de culpa. Um belo dia, ele tem uma experiência catártica ao se masturbar trajando o manto de uma santa e se liberta. A partir daí, passa a se travestir, o que acarreta em confrontos, reprimendas e tem até consequências trabalhistas: ele perde o emprego.


Aos poucos, é traçado o quadro de um país em crise crescente e dilacerado. Algumas mazelas da política são mencionadas de forma direta, outras, apenas insinuadas, sempre por meio dos acontecimentos envolvendo os membros da família. Há, por exemplo, a crítica ao sistema de “apadrinhamento” na saúde pública, espelhada na busca vã de Basílio por um cargo. Ou na saga de Antígonas que sofre de câncer e precisa esperar na fila pelo atendimento médico. E há também a realidade de Nena, a sapateira, que não consegue viver com o que ganha, pois, assim como a sua arte, “outros ofícios se tornaram obsoletos com o avanço da tecnologia e não encontraram espaço na economia moderna”.


Por fim, temos Almeidinha, cuja situação é paradigmática para o homem preso à tradição, um sujeito na verdade tolerante, mas que se sente obrigado a ser “durão”. Ele foi abandonado pela esposa e é confrontado incessantemente com a falação das pessoas. Quando ela, depois de muitos anos, enfim volta e bate à sua porta, ele está propenso a perdoá-la, mas os fantasmas da dupla moral local o perseguem, levando-o a um doloroso conflito consigo mesmo.


Outro dia, conversando com uma amiga, ela me disse: quem quiser entender o teatro do absurdo que são as frontes de opinião enrijecidas no Brasil, é só entrar num grupo de família do Whatsapp. Essa frase me voltou à memória

quando terminei de ler o romance de Eltânia André. Ainda que dita de forma irrefletida, quase como uma piada, ela resume bem tudo o que a família, enquanto instituição, ainda representa: uma microestrutura na qual experienciamos a benção, mas também a desgraça de sermos seres eminentemente comunitários, gregários, sociais e solidários. Ou, como disse Aristóteles: “O homem é um animal político”.


*****


A AUTORA


Eltânia André Nasceu em Cataguases-MG. Autora dos livros de contos “Manhãs adiadas” (Dobra Editorial, SP, 2012) e “Duelos” (Ed.Patuá, SP, 2018) e dos romances “Para fugir dos vivos” (Ed. Patuá, SP, 2015) e “Diolindas” (Ed. Penalux, SP, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano).

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