• Capitolina Revista

Do lugar onde se espreita a morte em vida.

Texto de Ana Cristina Silva




Do lugar onde se espreita a morte em vida.

Quando chegaram os primeiros doentes, os sintomas assemelhavam-se aos de uma gripe. Não tive contacto com essa primeira vaga de infectados, só ao fim de uma semana chegaram dois aos cuidados intensivos. Um deles não teria sequer quarenta anos e, apesar disso, o acto de respirar tornara-se, para aquele homem, um tenebroso mistério. Sedámo-los a ambos. Os sons recolheram-se e a escuridão embrenhou-se na sua pele. Para o mais novo a orquestra do mundo silenciou-se para sempre; só o outro, o mais idoso, conseguiu voltar a respirar por si.

Os casos multiplicaram-se com a rapidez de um Inverno feroz. Parecia que a evolução dos doentes dependia de um vago acaso ou de leis imprecisas que nenhum médico conhecia. Nesse tempo – parece que estou a falar de uma época longínqua, quando me refiro ao que se passou há um mês –, sempre que uma equipa substituía outra, antes do ritual da passagem do testemunho, a Dra. Martina sorria-nos e punha a tocar a Cavalgada das Valquírias no telemóvel. Lá, nos cuidados intensivos, só a presença do médico adquiria contornos definidos, os doentes pareciam velhos manequins inúteis, meros desconhecidos que agora se encontravam na mesma letargia. Naquela morte em vida, queria-os mais perto de mim, por isso lia nas fichas as informações sobre a família e local de residência, como se esses dados os fizessem sair de uma torre cheia de cadáveres

Passámos a viver num vácuo, dentro de um fato de protecção, sem planos nem compromissos que não se relacionassem com os doentes. No decurso dos turnos, a respiração ia-se tornando mais árdua, o suor mais abundante e a concentração mais difícil, devido às dores de cabeça. O ar granuloso dentro das viseiras tinha um sabor que nunca se desvanecia. O desespero ecoava nas palavras dos médicos, indissociáveis do leve murmurejar ou do suspiro trémulo de um ou outro paciente, apesar de muitos deles estarem imersos no silêncio aquoso do coma. Aquelas duas dezenas de enfermos tornavam-se rapidamente uma multiplicidade de corpos nus com fraldas; quase deixavam de ser gente. Avançávamos aos ziguezagues por entre múmias. Às vezes, imaginava-os dentro de sonhos cheios de cores e esse seria o chamamento da morte para os atrair.

Foi um momento impossível de descrever, aquele em que a Dra. Martina teve de escolher entre a vida e a morte pela primeira vez. Também ela já fazia turnos. Nesse dia havia apenas um ventilador disponível. Estava a seu lado, devidamente equipada, pronta para entrar na zona contaminada, quando chegaram dois doentes, de enfermarias diferentes, numa sincronia que não era suposto aconter.

A Dra. Martina já tinha lido as fichas e tomado a sua decisão. O primeiro doente era uma mulher obesa, de meia-idade, a quem tinham tirado um peito; do outro lado do corredor estava uma rapariga de pouco mais de vinte anos. Trocámos um olhar vago através da viseira e caminhámos de uma forma estranha – como se nenhuma de nós estivesse segura dos seus passos e as emoções fossem um obstáculo, um empecilho ao que tinha de ser feito – até à maca da mais jovem. Com um gesto vago, a chefe fez sinal aos auxiliares que traziam a outra senhora para regressarem à enfermaria. Havia uma sentença de morte no que aquela mão revelava.

No final do turno despimos o fato na mesma sala, mas havia entre nós uma súbita distância. A testa da médica estava enrugada pela intensidade dos pensamentos e a cabeça abanava para cima e para baixo como se se tivesse transformado numa ave de rapina. Tentei encontrar algo adequado para lhe dizer, mas as palavras não se abriram ao consolo. O silêncio pairou entre nós como um peso. Os olhos dela pareciam constrangidos, perdidos na miséria de uma nova solidão. No meio do desespero, a sua mente revelava-se incapaz de inventariar os

argumentos que usara para si própria quando condenara a mulher obesa à morte. Vestiu-se rapidamente e afastou-se, como se fosse urgente encontrar um lugar longe da vista de todos, um espaço distante do alcance das palavras.

A chefe manteve uma atitude eficiente na organização do serviço, procurando mitigar o pânico de colegas e enfermeiros, mas o seu sorriso tranquilo extinguiu-se. Nunca mais se ouviu música no seu telemóvel. Reunia com os outros médicos e decidia dentro de um concelho de ética quem morria ou vivia. Quando terminavam as reuniões, registava apenas nomes que se agregavam a mais nomes, e esforçava-se por transformá-los numa subtil correnteza de sons, tentando que não pertencessem a ninguém. Nomes que não teriam acesso a um ventilador. Procurava evadir-se da singularidade de cada uma daquelas pessoas, mas aqueles nomes não eram iguais aos números da televisão, ecos abstractos de mortos reais. Nas fichas estavam escritos os nomes dos doentes, mas também os da família, a sua profissão, morada, e até os seus hábitos saudáveis. Escrevia-os no computador, mas as palavras que formava já não eram palavras de salvação. Repetia para si própria que estava no meio de uma guerra invisível, com demasiadas fatalidades, e que isso mudava tudo em relação ao que sempre acreditara. Contudo, a inquietação era insuportável, um vazio reforçado pelos vultos de tantos falecidos, fantasmas que a perseguiam.

Aos poucos, tornou-se desleixada com a própria proteção e impaciente com os cuidados necessários. Ela, que sempre se alongara em discursos sobre a prudência, quando chamada à atenção por colegas, punha agora na própria boca explicações voláteis, como quem tenta apressar uma despedida. Na verdade, só pensei nisso muito mais tarde, quando foi infectada e, dias depois, transferida para os cuidados intensivos. Nessa altura, ao cuidar da minha chefe, imaginei a sua dor permanente nas últimas semanas e a paralisia progressiva do pensamento de cada vez que se pronunciara sobre quem tinha direito a um ventilador. Isso, ainda assim, teria sido suportável, não fosse a incerteza de que, para além desse desespero, nada mais existiria, nem remédio nem consolação, e que cada dia seria pior do que o anterior. Como se caminhássemos, cegos, na direcção de uma penumbra inimaginável, forçados a viver num inferno, sem ninguém que nos guiasse ou nos desse a mão.



Ana Cristina Silva nasceu em Lisboa e é docente universitária no ISPA-IU. Doutorada em Psicologia da Educação, Escreveu até ao momento 14 romances: Mariana, Todas as Cartas (2002), A Mulher Transparente (2003), Bela (2005), À Meia-luz (2006), As Fogueiras da Inquisição (2008), A Dama Negra da Ilha dos Escravos (2009), Crónica do Rei-Poeta Al-Mu’Tamid (2010) e Cartas Vermelhas(2011, selecionado como Livro do Ano pelo jornal Expresso e finalista do Prémio Literário Fernando Namora), O Rei do Monte Brasil (2012, finalista do Prémio SPA/RTP e do Prémio Literário Fernando Namora, e vencedor do prémio Urbano Tavares Rodrigues) e A Segunda Morte de Anna Karénina (2013, finalista do Prémio Literário Fernando Namora). Em 2017, A Noite não É Eterna venceu o Prémio Fernando Namora. Em 2018 publicou o romance Salvação com a Parsifal e já em 2019 foi publicado pela Planeta o romance As longas noites de Caxias. Rimbaud, o Viajante e o seu Inferno acabou de ser publicado pela Exclamação.

Tem livros publicados no Brasil e na Alemanha.


Ana Cristina Silva was born in Lisbon. She teaches at ISPA-IU University. She has a PhD in Educational Psychology. She’s the author of 14 novels: ‘Mariana, Todas as Cartas’ (2002), ‘A Mulher Transparente’ (2003), ‘Bela’ (2005), ‘A Meia Luz’ (2006), ‘As Fogueiras da Inquisicao’ (2008), ‘A Dama Negra da Ilha dos Escravos’ (2009), ‘Cronica do Rei Poeta Al-Mu‘Tamid’ (2010), ‘Cartas Vermelhas’ (2011, appointed as book of the year by newspaper ‘Expresso’ and shortlisted for Premio Literario Fernando Namora), ‘O Rei do Monte Brasil’ (2012, shortlisted for Premio SPA/RTP and Premio Literario Fernando Namora, and winner of Premio Urbano Tavares Rodrigues) and ‘A Segunda Morte de Anna Karenina’ (2013, shortlisted for Premio Literario Fernando Namora). In 2017 ‘A Noite não é Eterna’ was the winner of Premio Literario Fernando Namora. In 2019 Parsifal publised her novel ‘Salvação’ and ‘As Longas Noites de Caxias’ was published by Planeta. In 2020 Exclamação published her novel ‘Rimbault, o Viajante e o seu Inferno’.

Some of her books are published in Brazil and Germany.

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